"Suba Tributo" é homenagem ao produtor

Quando morreu, em novembro de 1999, asfixiado em um incêndio em sua própria casa, o produtor servo-croata Mitar Subotic, o Suba, de 38 anos, havia recém-lançado seu disco de estréia, São Paulo Confessions. Isso no exterior - onde recebeu as mais entusiasmadas críticas -, dos Estados Unidos (New York Times, Rolling Stone) à Europa (The Observer). No Brasil, país que adotara em 1990, seu caldeirão experimental de batidas eletrônicas e ritmos brasileiros aguardou quase um ano para ser lançado. E embora tivesse trabalhado para algumas das maiores gravadoras, o CD só saiu aqui por uma iniciativa do Instituto Suba, entidade criada em sua memória, em parceria com a gravadora MCD World Music. A mesma costura se repete para lançar em 2002 um disco-tributoa ele, singelamente batizado Suba Tributo.O fogo destruiu todo o arquivo pessoal de Suba, mas não esgotou seu baú, já então pulverizado entre os muitos parceiros. É parte deste baú que Tributo traz a público. Nele, amigos e admiradores revisitam sua obra e também concluem postumamente algumas parcerias que desenharam com Suba. O projeto envolveu participações de João Parahyba (do Trio Mocotó), Marina Lima, Tarciana Barros, Kátia B, Cibelle e Boyz from Brazil, entre muitos outros.Os originais de apenas duas faixas de SP Confessions - que constavam de sua versão em vinil - salvaram-se do incêndio e foram remixadas para o Tributo. São Você Gosta e Felicidade. Outras, como a emblemática Samba do Gringo Paulista e Sereia, Amor D?Água (clique para ouvir), tiveram de ser sampleadas diretamente do CD, valendo até a reedição de letras. Há inéditas também, como as parcerias de Suba com Marina (Lagoa Pinheiros, referência aos bairros em que cada um morava, no Rio e em São Paulo) e com BiD e Kátia B. (Are You Sleeping). O álbum também trazperformances ao vivo do produtor, com João Parahyba, no Rio (Futuro Primitivo 1, 2 e 3).A variedade das colaborações reflete seu diversificado trabalho como produtor, um dos pioneiros a aproximar a música brasileira às inovações da eletrônica, no início dos 90. Entre os nomes com quem trabalhou estão Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra, Mestre Ambrósio, Dinho Ouro-Preto e Edson Cordeiro."Ele tinha o dom de unir áreas diferentes, de unir linguagens", diz a diretora e produtora cultural Lala de Heinzelin, à frente do Instituto Suba, explicando o logo da entidade, uma ponte. Foram as pontes, por sinal, como lembra Lala, alguns dos primeiros alvos das guerras separatistas nos Balcãs. E é bastante simbólico que ele seja filho de um casamento que chocou as famílias de seus pais, uma croata, outra sérvia. "Tipo Romeu e Julieta", conta a diretora.Suba começou a estudar música aos cinco anos de idade. Passou pelo erudito, jazz, eletro-acústica, pesquisou música étnica da Europa Oriental. Ganhou a TV, o cinema, o teatro, balé, desfiles de moda. Em 1990, veio ao Brasil se concentrar em ritmos indígenas e afro-brasileiros. Segundo Lala, a decisão de se mudar para cá nasceu de uma consulta aleatória ao globo. Seja como for, encontrou terreno fértil por aqui, onde a eletrônica engatinhava. Modestamente, dizia que "apenas tinha saco de ler os manuais" dos novos aparelhos. O fato é que, ao casar música brasileira com loops, beats, samples e quetais, ajudou a fundar uma tendência que revigorou, internacionalizou a produção nacional. Um de seus últimos trabalhos, que ele não viu concretizado, foi o hoje festejado álbum de estréia de Bebel Gilberto, Tanto Tempo.Corrigir algumas destas injustiças à sua obra foi um dos objetivos que nortearam a criação do instituto. A fundação envolveu, além da própria Lala e de João Parahyba, gente tão diversa como a atriz Marisa Orth, o artista Guto Lacaz, o astrólogo Oscar Quiroga, a cantora Taciana Barros, ex-mulher de Suba, e a diretora teatral Renata Melo. Lala conta que outra meta do instituto, além de preservar a memória de Suba, é a de incentivar ações culturais. Após uma reestruturação, esta vocação está sendo aperfeiçoada, ao passo que a difusão da arte de Suba ficou a cargo de uma "confraria" de amigos e parceiros. É assim que o instituto vem promovendo exposições, lançamentos, campanhas, palestras, entre outras ações. De agora em diante, querem centrar fogo na "ponte" entre cultura, educação e terceiro setor, e para 2003 planejam um fórum de capacitação dirigido a jovens ONGs. Do lado da "confraria", resta aguardar por mais novidades de seu baú. Lala fala com entusiasmo de sua extensa obra para o cinema, para a TV, balé e moda, que aguarda edição. Seu registro em CD poderá ajudar a entender a influência decisiva que Suba teve sobre os rumos das música brasileira.

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