Strokes mostram que o rock está vivo

Quando o show dos Strokes terminou, faltando poucos minutos para as 2 horas da manhã deste domingo, após 19 músicas e cenas de histeria coletiva, o público dançando em êxtase, ficou evidenciado: o rock está bem vivo, encorpado, usa casaco de general (cheio de anéis), pulveriza os ouvidos com um inferno de guitarras e finge que está tocando na garagem da casa de uma tia - embora tenha 4 mil pessoas à sua frente.Desde os primeiros acordes de ´Hard to Explain´, que abriu o show, já dava para ver que The Strokes é de fato "a" banda de rock da atualidade, e que os elementos que conspiram para mantê-la no topo do ranking são: juventude, peso, velocidade, despretensão. Seu rock alterna alguma angústia adolescente, versos sobre namoros desfeitos, com riffs irresistíveis, e essa mistura pontua os hits que vão derrubando as resistências, como ´Someday´ e ´reptilia´.Boa parte da mística dos Strokes se equilibra na guitarra de Albert Hammond Jr., garoto californiano de 26 anos (que atua em sintonia com Nick Valensi, o segundo guitarra da banda). Um usa um instrumento de corpo sólido, o outro usa um de corpo semi-sólido. Hammond empunha basicamente uma Stratocaster branca e Valensi uma Les Paul Jr.É de Hammond o estilo e a síntese dessa música meio displicente, de tênis All Star vermelho (assim como a legião de seus fãs, que invadiram o Museu de Arte Moderna), Woody Allen pós-adolescente que maneja solos como se pedisse desculpas pelas intervenções alheias à coreografia básica da banda.Porrada sem tréguaSe o guitarrista é a alma dos Strokes, o vocalista Julian Casablancas é o seu outdoor de comunicação instantânea com o público, com carisma diretamente proporcional ao jeito blasé, desligadão, expressão eternamente atormentada. Claro, a batida de trovão de Fabrizio Moretti também é vigorosa, o garoto convence no estilo porrada sem tréguas."Finalmente estamos aqui", disse Casablancas, em português. Na verdade, finalmente nós tivemos a chance de vê-los aqui, já que eles devem dizer isso em todo lugar aonde vão. "Deus os abençoe", disse o vocalista, quebrando a tradicional frieza.A música dos Strokes é uma fórmula, é fácil perceber isso (nada contra, a dos Stones também é). Tanto é que eles ainda vivem dos hits do primeiro disco, aquelas canções que fazem o ouvinte cantar junto - ´Soma´, ´Barely Legal´, ´Is this It´. Quando tocaram as músicas que entrarão no novo disco, ´First Impressions of Earth´ (como ´Juicebox´ e ´You Only Live Once´), entusiasmaram pouco. As novas são bem pouco originais, para ser sincero.Mas quando os Strokes chegaram ao fim do seu show, com a dobradinha de ´Last Nite´ e ´Take It or Leave It´, roleta-russa de angústia e euforia, os sortudos que estiveram no TIM Stage já sabiam o que ninguém poderia negar: quase nada que viesse a seguir poderia superar aquela performance sangüínea da banda de playboys de Nova York.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.