Eduardo Nicolau/Estadão
Eduardo Nicolau/Estadão

Sting, o rock fusion do eterno e poderoso criador

Aos 65 anos, britânico dá à cidade uma aula de como montar um grande e comovente espetáculo de alta voltagem

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

08 Maio 2017 | 04h00

Sting faz um serviço enorme ao universo pop que habita desde os anos 1980. Ele pensa na composição como um jazzista, toca contrabaixo como um roqueiro e canta com a presença de um popstar. Foi por sua voz que uma ou duas gerações souberam que havia mais do que ira no discurso e lugares-comuns nos conceitos em que uma banda de garagem poderia se inspirar. Sua apresentação no Allianz Parque, sábado, dia 6, foi redentora. 

Aos 65 anos, Sting canta muito e retorna ao rock, depois de incursões em trabalhos de pensamentos sinfônicos, com um frescor juvenil.

A noite teve a abertura nada convencional feita por seu filho, Joe Summer. De voz muito aproximada à do pai, tem contra si esse fator genético desagradável. Se não fossem as referências emocionais que remetem a Sting, ganharia um reconhecimento maior. Ele entrou de guitarra azul, cantou quatro canções e protagonizou uma cena estranha. Parou o show, parecendo passar mal. Quando desabava, seu pai entrou para ajudá-lo a cantar e puxar as palmas. Foi bonito, e os deuses queiram que não tenha sido nada ensaiado.

Depois, chegou outra surpresa. A banda texana Last Bandoleros tem um som vigoroso fincado entre o rock e o pop. Sting os ama tanto que faz praticamente o show inteiro com eles, mesclando na formação híbrida texanos e músicos que o seguem na turnê do álbum 57th & 9th. Com os bandoleros, o som de Sting se enche de backings e rejuvenesce. A noite promete logo no início, com Synchronicity II.

Há um senso de profissionalismo memorável por manter a máquina ligada sem comprometer a brincadeira. Na hora marcada, mais precisamente com cinco minutos de atraso, às 21h05, Sting aparece leve, como saído de uma meditação. Vai comunicar-se pouco com a plateia, mas terá sempre uma atitude elegante. Seu show vem encaixado, com ritmo e dinâmica. A temperatura sobe e desce entre e durante as canções. Ele usa material novo e antigo, pintando um quadro que deixa o espectador respirar nas reflexões de uma belíssima Fields of Gold; suspirar nas afetuosidades de Roxanne; e deixar-se levar pelo instinto de I Can’t Stop Thinking About You.

A noite passa com calma, sem maiores euforias, e coloca Sting na vitrine diante de 15 mil pessoas, que podem observá-lo em detalhes. As linhas de seu baixo são de longos intervalos e muito movimentadas. As músicas que cria poderiam classificar um novo gênero, um rock fusion, mais rock do que jazz, pela sua proximidade com as construções do jazz fusion, mais jazz do que rock, nos anos 1970. Ele é cuidadoso, trabalha nos detalhes e sabe, contudo, fazer canções que as pessoas vão cantar. Fica tudo comovente, poderoso e de alta voltagem.

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