Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Stevie Wonder em noite de superação

Cantor vence 'atropelo' de programação, faz homenagem a Mandela e se despede da América do Sul

Julio Maria,

14 de dezembro de 2013 | 23h12

Foi uma abertura tensa. Stevie Wonder surgiu no palco do Circuito Banco do Brasil, na noite de ontem, no horário marcado, às 21h50. Mas Criolo, que teve um início atrasado em quinze minutos por causa do show anterior, ainda se apresentava no espaço vizinho, o Palco Brasil. Os sons se chocaram. Mesmo ouvindo o show de Stevie, o rapper levou seu show até o final. As pessoas passaram a sair correndo de seu palco em direção ao palco principal. E as que já estavam lá se incomodavam com o volume que colidia com a música de Stevie. Ainda enquanto Stevie cantava, Criolo terminou o show e se desculpou. "Eu não sabia que o Stevie iria se apresentar agora, queria pedir desculpas."

Superado o som estéreo involuntário no Campo de Marte de ontem, Stevie Wonder deixou sua plateia em estado de hipnose. Logo de início, com Keep Our Love Alive, fez uma homenagem ao líder sulafricano Nelson Mandela, pedindo que fãs fossem ao palco segurar duas bandeiras da Africa do Sul. Seguiu depois com Higher Ground e lembrou de Michael Jackson com The Way You Make me Feel. Foi mais generoso ainda quando emendou Overjoyed com Lately e Ribbon in the Sky. De óculos com armações cor de rosa, fez longos solos, assumiu a gaita por vários momentos e não usou o artifício do 'medley' com o qual empilhou seus hits, tornando-os curtos demais. Stevie veio para tocar por um bom tempo e anunciou. "Este é meu último show da temporada na América do Sul."

Brasileiros. Os shows que antecederam o de Stevie foram tudo como mandou o figurino, ou o patrocinador. Os Paralamas do Sucesso e Capital Inicial fizeram um bailão, uma festa sem pretensões, na qual o que valia era tocar canções que fossem acompanhadas pelo público de não mais que 10 mil pessoas que estavam por volta das 19h de ontem no Campo de Marte, em São Paulo. O Circuito Banco do Brasil, um festival sem nenhum propósito aparente, foi montado em torno de Stevie Wonder, a figura que encerraria o evento, e os grupos que o antecederam fizeram bem feitos seus papeis de coadjuvantes. Jason Mraz, sustentado por hits pop e referências a brasilidades como a Mas que Nada, de Jorge Benjor, veio na sequência. É um grande hitmaker, sobretudo de canções românticas, para trilha sonora de novelas.

Os Paralamas montaram um set ágil e contaminante que lembrou festas da firma de fim de ano. Grudaram uma música à outra, como se quisessem usar cada segundo do pouco mais de uma hora que tinham para se apresentar. Vieram com João Fera, o tecladista que imprimiu o som mais jamaicano ao seu sotaque, e um duo de trombone e sax tenor com uma massa que vale por um naipe todo. A artilharia pesada começou com Alagados amarrada a Cinema Mudo que por sua vez estava ligada a Cuide Bem do Seu Amor e por aí foi. E depois Meu Erro com Óculos seguida por Lanterna dos Afogados, Ela Disse Adeus, Você, A Novidade. Herbert não parava, estava visivelmente feliz, mas expunha uma delicada equação ao colocar seu inquestionável legado na passarela. Na casa dos 50, ele, João Barone e Bi Ribeiro têm força e vitalidade para uma vida artística ativa, apesar dos apuros passados por ele no início dos anos 2000, quando sofreu um grave acidente de helicóptero. Depois de uma recuperação intensa, ele prova a cada vez que está no palco não ter se tornado um roqueiro 'café com leite'. Seus solos continuam vigorosos e seu vocal não ganhou nem perdeu nas limitações que sempre tiveram. Mas a questão é: por que uma banda que faz shows tão competentes não faz mais discos relevantes? Não seria cedo para pedirem a conta e passarem a viver do passado? O show terminou com Vital e Sua Moto e Que País É Esse?, da Legião Urbana.

O Capital Inicial, primeira atração de peso pop do festival, fez um set de hits debaixo do sol quente que parecia prenunciar chuva no final de tarde. Independência, Depois da Meia Noite, A Sua Maneira, Como Devia Estar, Primeiros Erros e Mulher de Fases, dos Raimundos - tudo feito sem surpresas ou ousadias. Funcionava como um esquenta agradável para rodas de amigos que tiravam fotos e pareciam esperar pelas outras atrações. Um contraste inevitável com a multidão de fãs engajados que viram a banda recentemente no Rock in Rio.

O grupo de Dinho Ouro Preto também entendeu seu papel e preferiu não ultrapassar limites. Fez rock de entretenimento o tempo todo e chegou a ressuscitar em seu repertório Música Urbana, que há tempos não era lembrada em um grande show. Das velhas, colocou também Veraneio Vascaína, esta mais frequente em suas listas, da ex banda punk brasiliense Aborto Elétrico. Pode haver um choque aos que assistiram este grupo tocar esta música nos anos 80 e voltam a assistir hoje. Os tempos mudaram e o novo contexto de uma audiência apolitizada esvazia o sentido de um rock histórico. Os poucos braços para o alto, a maioria deles no gargarejo, e o símbolo do rock and roll nas mãos da plateia são muito mais de euforia pelos solos de Yves Passarel do que pelo símbolo do repressor a ser combatido que a ''Veraneio Vascaína virando a esquina'', o carro da polícia que os punks paulistas preferiam chamar de camburão, simbolizava nos anos 80. Veraneio, hoje, não passa de um belo automóvel de colecionador. Ainda bem.

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