Steuerman grava segunda sinfonia de Bernstein

Um talento superior. Jean-LouisSteuerman fala pouco, mas não poupa elogios ao regente, pianistae compositor Leonard Bernstein. "Completamente extraordinário,fazia bem tudo aquilo a que se propunha, era um jazz-manfantástico, um músico inspirado." Em breve, tamanha admiraçãopoderá ser conferida, traduzida em interpretação musical:Steuerman acabou de gravar com a Filarmônica da Flórida e omaestro James Judd The Age of Anxiety, a segunda sinfonia docompositor. O lançamento do disco, que deve ocorrer no primeirosemestre de 2002, é parte do projeto do selo Naxos de gravartoda a obra de Bernstein.Composta ao longo de mais de dez anos, a peça é baseadaem poema, de mesmo nome, de W.H. Auden, que nele discute o vazioda vida da época. "É um retrato das contradiçõesnorte-americanas, que lida com a perda da inocência, com acrença, temas bastante presentes na sociedade norte-americana daépoca", diz Steuerman. "A música está bastante ligada àliteratura, é praticamente literal ao retratar a busca de quatropessoas, que se encontram num bar, por um ´pai´, de umaorientação maior."As contradições recriadas no poema de Auden tambémestavam presentes na vida pessoal de Bernstein. The Age ofAnxiety foi escrita em um período de quase 15 anos, em quartosde hotéis e em aviões: após sua estréia diante da Filarmônica deNova York, na década de 40, Bernstein passou a ser convidado areger em orquestras de todo o mundo, despertando admiração epolêmica, ambas provocadas por seu estilo de trabalho.E isso acabou por dar a The Age of Anxiety um tombastante pessoal. "Bernstein escreveu a parte do piano cominspiração quase autobiográfica, a partitura mostra o momento noqual ele vivia. O diálogo entre o piano e a orquestra é também oembate entre Bernstein e a sociedade."Apesar de considerada pelo próprio compositor como suasegunda sinfonia, The Age of Anxiety é, segundo Steuerman,um concerto para piano e orquestra, que praticamente exige doinstrumentista atuação de solista. "Bernstein sempre estevepreocupado em ser levado a sério e, provavelmente, a denominação´sinfonia´ inspirava mais confiança do que ´concerto´", diz opianista, abrindo uma discussão para a repercussão, nem semprepositiva, que o trabalho do compositor (e do regente) despertavaem colegas músicos, críticos e em uma parcela do público.O lado emotivo de suas interpretações, os beijos nossérios músicos de Viena após apresentações em vez do cordialaperto de mão, o homossexualismo, o flerte com a música popular,com o jazz, tudo isso acabou por desagradar a muitos. E esseselementos foram retratados, muitas vezes, de modosensacionalista em livros como Bernstein: Uma Biografia, deJoan Peyser. "Existe um grande ressentimento em relação a suafigura. Ele era, de fato, manipulador, não hesitava em passarpor cima dos outros, era inteiramente dedicado a seu talento,mas era um músico genial, e isso é indiscutível." ParaSteuerman, mesmo para os inimigos é difícil negar a qualidade deWest Side Story, "uma obra-prima".Mas o pianista acredita que o tempo deverá colocar emperspectiva a genialidade de Bernstein. "Não passou ainda otempo necessário para julgar a obra dele dentro de um contextohistórico bem definido. Talvez em mais 50 anos, fique claro osignificado de sua obra ou mesmo da de outros autores, comoCarter, que, de certa forma, livraram a música norte-americanado forte tom colonialista."

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