Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Stanley Jordan rompe os padrões do gênero ao se libertar da imagem clássica dos grandes jazzistas

Batinhas, brincos, tiaras, vestidos. O que há por trás da fase desbundada de Stanley Jordan

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2012 | 07h00

Em vez da costumeira camisa abotoada até o pescoço e cabelo de milico, ele agora usa tiaras, batinhas, um alisamento japonês no cabelo, rabo de cavalo, alguma maquiagem, colares, brincos. Teria Stanley Jordan, magistral guitarrista de jazz do pós-fusion, aos 53 anos, desbundado de vez? Sim, ele confessa.

“Eu era conservador demais. Não era eu mesmo. Tentava projetar em mim aquilo que achava que eram as expectativas das pessoas. Agora estou apenas tentando ser o mais autêntico possível. Isso teve um impacto positivo na minha música, há menos barreiras, tudo ficou mais fácil”, diz o guitarrista, em entrevista ao Estado.

Em turnê com o disco novo, Friends, ele se apresentou no Bourbon Street Music Club na terça-feira, tocando Clube da Esquina 2, de Milton Nascimento, e Autumn Leaves, de Johnny Mercer. Depois, voou para Goiânia. Sua mudança de expectativa em relação à própria inserção no mundo do jazz é ampla e irrestrita. No repertório, por exemplo, há sinais disso: ele gravou uma versão estupenda de I Kissed a Girl, de Katy Perry, hit recente que se tornou bandeira para a afirmação do homossexualismo feminino.

“A primeira coisa que me atraiu nessa canção foi o conceito. A declaração da música é: ‘Eu, uma garota, beijei uma outra garota e gostei’. Fala de um sentimento no limite, e isso ajuda as pessoas a se tornarem mais tolerantes em relação à diferença. A aceitarem que há outra sexualidade alternativa que também é legítima. É um manifesto de humanidade”, disse o guitarrista.

Stanley Jordan diz que é um pouco filho daquele instante em que Miles Davis criou o jazz fusion, com discos como Bitches Brew. “Na Wikipédia, me definem como guitarrista fusion. Não sei exatamente o que quer dizer, mas entendo. Eu gosto daquela ideia de jazz rock que se tornou popular após Bitches Brew, mas não de toda a ideia. Quando eu faço a fusão de dois gêneros, procuro misturar as suas propriedades. Por isso, acho que se trata mais de uma integração do que uma fusão. Integração é juntar as coisas e criar algo à frente”, considera o músico.

“Eu sempre gostei de diferentes tipos de coisas. Quando comecei a tocar, me diziam que eu tinha de fazer uma escolha. Mas eu permaneci fiel à ideia de que tudo era relevante. Quando gravei pela primeira vez, disseram que, se eu era capaz de tocar jazz, não podia tocar rock ou pop. Ainda assim, gravei rock e pop e enfrentei todo tipo de crítica ao longo da vida. ‘Você só pode estar fazendo isso pelo dinheiro, porque sabe tocar jazz e está tocando rock’, diziam. Hoje em dia, a ideia não é mais estranha, mas sempre foi natural para mim. E só muito recentemente me dei conta de que era incomum para muita gente. Não quero provar nada quando toco uma música pop, apenas as toco como se fossem standards”, diz ele.

Com 26 anos de carreira e meia dúzia de indicações para o Grammy, professor de música em universidades, Stanley Jordan teve de interromper, por conta de suas sucessivas turnês, o mestrado que estava cursando no Arizona, onde vive. O tema é terapia musical, o tratamento de enfermidades por meio da música. “Muitos procuram pela cura física, mas eu penso que é um lance mais psicológico. A música tem um efeito no corpo. Por exemplo: cantar pode ser bom para a respiração, ajuda quem tem asma, por exemplo. E há um forte componente emocional na origem da asma. Portanto, desenvolver um hábito como o canto pode ajudar, não só no aspecto físico, mas no encorajamento. Há muitos níveis. Uma pessoa com câncer, por exemplo: se ela tem uma compreensão positiva de seu estado, pode resistir e vencer a doença. Há evidências disso. Mas, se deixar-se cair em depressão, as chances diminuem”, avalia.

Fã de Milton Nascimento, de moqueca e guaraná, Stanley Jordan considera que, se tivesse nascido no Brasil, seria exatamente o mesmo. “Sinto uma forte afinidade com seu país. Mas também acho que Estados Unidos e Brasil são muito diferentes. Têm a mesma criatividade, mas no Brasil, o processo de mistura é mais natural. Nos Estados Unidos, nos preocupamos muito com categorias, compartimentos. Sempre que venho aqui, quando eu volto ao meu país eu digo às pessoas: não temam a complexidade, encarem com tranquilidade. Adoro o jeito como vocês têm aqui o senso da celebração, que torna tudo mais fácil.”

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