Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Stancey Kent: deslumbrante, poderosa, delicada, adorável

Americana cantou Caetano e João Gilberto em português e mostra como o jazz pode ainda ser artesanal

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2010 | 16h07

Os adjetivos caíam como confete sobre o palco do Via Funchal na noite desta quinta-feira (9), enquanto Stacey Kent contava para o público a história de como estudou português arduamente nos últimos dois anos. "E por quê?", perguntou a si mesma, como se respondesse a um interlocutor imaginário. Porque sonhava em decifrar o significado das palavras de músicas como 'Desde que o Samba é Samba' (Caetano Veloso) e Corcovado (Tom Jobim).

 

Essas duas canções foram algumas das 17 músicas que a cantora apresentou (em português) no seu retorno ao Brasil ontem à noite, acompanhada de um quarteto (no qual pontifica o saxofonista Jim Tomlinson, também marido da artista). Tomlinson fazia aniversário na mesma noite, e a mulher lhe dedicou uma canção, The Ice Hotel (de autoria do próprio e do escritor Kazuo Ishiguro). Mais ainda: permitiu que Tomlinson fizesse um número sozinho, e ele escolheu "uma música que foi composta no ano em que nasci, 1966, de Burt Bacharach e Hal David: Alfie". Suave momento.

 

Stacey abriu a noite com Les Eaux de Mars, a versão que Georges Moustaki fez para o francês de Águas de Março, de Tom Jobim. Dali em diante, ela só voltaria à música brasileira com 'Corcovado/Quiet Nights', ao violão, alternando as versões em português e inglês e declarando que João Gilberto é um dos artistas que mais admira no mundo todo.

 

Tudo poderia parecer meio clichê reverente de gringo, mas Stacey exala sinceridade e modéstia artística quando fala de suas referências musicais. "Creio que todo mundo deveria aprender português um dia", afirmou. Ri de si mesma, de sua própria ousadia cultural.

 

Stacey é uma lufada de ar fresco passando por cima de standards do jazz, como 'It Might As Well Be Spring' e' The Surrey with the Fringe on Top' (ambas de Rodgers e Hammerstein), passando pela canção mundializada, como 'So Many Stars' (Sergio Mendes e A. Bergman).

 

Para Stacey, a música só se justifica por apegos emocionais. Ela contou como o avô, russo que emigrou para Paris, lhe ensinou o francês desde menina, e que foi daí que adveio a decisão de gravar seu novo disco, Raconte moi, todo com canções em francês. Para se compreender plenamente um idioma, disse-lhe o avô, seria preciso compreender primeiro o som da poesia daquele idioma, daí a demora. Mas o sentimental também passa por escolhas intelectuais: em vez de se ater somente aos standards da chanson française, ela foi em busca também dos novos compositores, como Keren Ann e Benjamin Biolay (de quem cantou Jardin D'Hiver).

 

Canções do disco 'Breakfast on the Morning Tram' foram ficando para a segunda metade do set, como Samba Saravah (Baden Powell/Pierre Barouh), What a Wonderful World (R. Theile e G.D. Weiss) e a própria faixa-título, também composta por Kazuo Ishiguro e Jim Tomlinson. As canções em francês amansavam aflições, como a bela L'Étang (Paul Misraki) e Raconte Moi (Emilie Satt, Bernie Beaupere e Jean Karl Lucas).

 

Ela ainda tinha planejado cantar Coração Vagabundo, também de Caetano Veloso, mas pode ser que tenha reservado essa para o show deste sábado no Rio de Janeiro. Cantou música que alguém lhe pediu pelo Facebook, cantou música que a plateia pediu. Quando Stacey terminou a noite, como 'You've Got a Friend'(Carole King), 'What a Wonderful World' (R. Theile/G.D.Weiss) e Que Reste-t-il de Nous Amour (Charles Trenet), o clima era de rendição total. É uma das cantoras que redefiniu a noção de artesanato no jazz moderno.

 

Antes de Stacey, apresentou-se o bom grupo gaúcho Delicatessen, que canta standards jazzísticos.

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