Nicole Nodland/Divulgação
Nicole Nodland/Divulgação

Stacey Kent, canta 'Águas de Março' em francês

Celebrada entre as cantoras de jazz lança disco com canções francesas e revela paixão pelo Brasil

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo,

31 Março 2010 | 16h32

Nina Simone ficou tão fissurada na chanson francesa que decidiu viver na França para assimilá-la melhor. Sarah Vaughan não foi tão longe, mas gravou com Michel Legrand. "Madeleine Peyroux não vale, ela é praticamente francesa", brinca Stacey Kent, antecipando com agilidade novo exemplo de cantoras americanas de jazz que aceitaram o desafio de mergulhar no cancioneiro francês. Stacey, norte-americana de New Jersey, acaba de lançar Raconte-moi (Blue Note), álbum em que reinterpreta canções de gerações distintas da música francesa, de Henri Salvador, Barbara e Georges Moustaki a Benjamin Biolay e Keren-Ann.

 

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Stacey, que conseguiu a proeza de vender mais de 300 mil cópias de um disco de jazz em 2007, Breakfast on the Morning Tram, é neta de russo que emigrou para a França. O avô, Samuel, ensinou-lhe a língua, a obrigou a memorizar poemas de Baudelaire e lhe disse: "Você só entende um idioma quando compreende a sua poesia. Se não sabe a poesia que há na palavra, não entendeu o suficiente", conta a cantora, falando com exclusividade ao Estado semana passada.

Dona de invejável contrato com a Blue Note, mais destacado catálogo do jazz mundial, Stacey já tinha gravado três canções em francês no CD anterior (uma delas, Samba Saravah, versão francesa de Samba da Bênção, de Baden e Vinicius), mas não se julgava apta ainda. "Era muito cedo", explica.

 

Mas, embora o francês tenha sequestrado a atenção de Stacey, seu coração é brasuca. Ela é quem garante. Raconte-moi abre com Águas de Março, de Tom Jobim, na versão francesa de George Moustaki. Stacey diz que seu sonho é cantar em português. Está estudando arduamente e já fala com desenvoltura. Na semana passada, lia Memórias Póstumas de Brás Cubas em português. E avisa: no final deste ano, quer voltar a cantar no País.

 

Em abril de 2008, quando deu sua primeira entrevista para o Brasil, Stacey Kent não falava nem "bom-dia" em português. Em outubro daquele ano, suas músicas tocavam apenas na antenada Rádio Eldorado, mas ela já se tornava cult no País e o TIM Festival, em sua última edição, a trouxe ao Ibirapuera. Desde então, ela resolveu estudar português. A sério. E, hoje, já conversa com certa fluência e lê Fernando Pessoa, Vinicius de Morais, Machado de Assis.

 

Stacey Kent, como Cassandra Wilson, Diana Krall e Esperanza Spalding, tornou-se uma ponte moderna entre o jazz e o pop. Até 2006, gravava para um selo indie, Candid. A voz delicada e extremamente bem colocada, entretanto, a destacou na cena britânica (vive em Londres) e chamou a atenção da Blue Note. Tornou-se estrela da cena europeia, cantora residente do mais famoso clube de jazz de Londres, o Ronnie Scott’s, ganhou o British Jazz Award e o BBC Jazz Award. Escreveu canções com o escritor Kazuo Ishiguro, vencedor do Booker Prize, e, no ano passado, a França lhe deu a comenda Chevalier des Arts et Lettres.

 

Por que resolveu gravar em francês?

Minha vida toda eu quis isso. Aprendi a língua quando criança, mas não é minha língua nativa, então tive de me sentir apta primeiro. Você tem de simular que tem a posse da língua tão inconscientemente quanto puder. Não queria que pensassem: Oh, Stacey está cantando em francês para impressionar, por exibicionismo. Não, eu queria sentir de verdade a experiência. Sempre me senti um pouco francesa, por causa do meu avô, Samuel. As pessoas imigram todo o tempo, eu me sinto uma dessas pessoas.

 

E como escolheu o repertório?

Simplesmente escolhi as mais pessoais, que me diziam mais respeito diretamente. Sem preconceito, com liberdade total. Principalmente, busquei aquelas que me proporcionariam diversão maior, porque de certa forma tudo isso tem muita pureza, é uma reverência de alguém que aprecia essas canções, acima de tudo.

 

Mas você abre com Les Eaux de Mars (Águas de Março), de Tom Jobim, que tem também versão em inglês mas você nunca gravou. Qual a diferença entre as versões francesa e inglesa?

Na minha modesta opinião, Águas de Março, Waters of March, Les Eaux de Mars, seja como chamem, é a maior canção do planeta. Eu vivo e amo essa canção toda minha vida. Conheço as versões de Elis Regina, João Gilberto, todas inacreditavelmente bonitas. Liricamente, as palavras são diferentes, mas você só tem de ouvir uma vez para saber que está diante de uma pedra de toque da música.

 

Seu marido, o saxofonista Jim Tomlinson, produz seus discos, toca, arranja, faz tudo. Você nunca pensa em trocá-lo por outro? Por exemplo: se toca sua campainha o Quincy Jones, se oferecendo, o que você faz?

Jim pensa através da música, tem uma grande visão. Seus arranjos são delicados, únicos. Ele me faz bem como artista, como ser humano, como mulher. Mas Jim não é a única pessoa do mundo com quem eu tenho uma química especial. Quincy Jones, que eu conheci, foi uma das pessoas que me incentivaram a cantar. Seria um sonho trabalhar com ele um dia.

 

Agora que aprendeu português, pensa em gravar um disco cantando em português?

Ah, tem um longo caminho ainda. Estou trabalhando agora com um poeta português, António Ladeira. Escrevemos umas canções juntos e Jim e eu estamos fazendo a música. É um primeiro passo. Espero que um dia nós possamos cantar as nossas próprias canções em português, Jim também estuda a língua. Mas é preciso sentir a poesia internamente. Tenho essa língua em minha vida desde a infância. Estamos fazendo força para ir aí no fim do ano, e pretendo falar apenas português com vocês. Estou estudando duro.

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