Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

SP terá 1.º Festival Internacional de Música no Metrô

Evento joga luz sobre classe ilegal por aqui, mas que lá fora já tem até nome: os buskers estão chegando

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2010 | 06h00

O alvo ali passa como um raio e cinco segundos é o tempo que se tem para acertá-lo, de preferência, no coração. Estação Vila Madalena do Metrô, 12h de uma quarta-feira. Um grupo tira suas armas do estojo e as empunha, bandolim, violão de sete cordas, saxofone e um ovinho de madeira usado de percussão. Samba de Verão, de Marcos Valle, sai rápido, certeiro, pega na veia. Um senhor calvo bem vestido pega sua máquina fotográfica. Filma, tira fotos, sorri e segue para o embarque. Martha Ferreira, uma estudante de jornalismo, duvida que muita gente pare. "A pessoa com pressa não vai parar." Se estavam com pressa, não se sabe, mas muita gente parou ali aos pés do grupo mesmo antes de chegar o refrão. Era só uma demonstração rápida, mas a missão estava cumprida.

 

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A cena é rara em São Paulo. Músicos em metrô aqui, ao contrário do que ocorre em estações nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, só são permitidos em programas específicos. Assim, a notícia ganha mais força: entre os dias 8 e 12 de novembro, dez estações paulistanas serão palcos do I Festival Internacional de Músicos do Metrô. Além de artistas de São Paulo, virão nomes selecionados pela internet de outros oito países, acostumados a acertar uma plateia de passantes imprevisível. "Qualquer coisa afeta uma performance pública, tudo pode mudar ali na hora", diz a norte-americana Lila Angelique, parceira do instrumentista SK Toth no duo de violinos ‘performáticos’ Tribal Baroque, nome também do ritmo que eles criaram nas estações de Nova York e que trarão para São Paulo.

 

O pai da ideia é Marcelo Beraldo, 36 anos, produtor e empresário que viu a luz no fim de um túnel do metrô de Manhattan. "Foi lá, vendo aqueles buskers, que tive a ideia." Ao voltar ao Brasil, apresentou o projeto de um festival mundial ao Metrô de São Paulo e, mesmo sem ok, saiu por dez das maiores estações do mundo em busca de informação e histórias. "Eu filmava tudo e mandava o vídeo para o Metrô daqui." Ao final, conseguiu uma parceria com a empresa de energéticos Red Bull e a permissão da Companhia. Seu trunfo para fazer as plataformas paulistas virar palco foi saber tudo sobre uma modalidade de artista chamado lá fora de busker. A cada estação recebia uma aula.

 

O metrô de Londres foi inspirador em um projeto que ele desenvolve para profissionalizar os buskers em São Paulo. "Os caras lá vendem patrocínio do espaço em que os músicos se apresentam." Em Paris, Beraldo viu os buskers mais empreendedores do mundo. "Eles têm um cara só para vender CDs." Em Barcelona, conheceu a ferveção. "Há um festival só para os artistas da cidade." Seul foi a única da Ásia em que viu um programa para músicos de metrô. "Tinha até um grupo de capoeira." Na Cidade do México, filmou um rockabilly latino. "Eles não podem pedir dinheiro, mas o governo de lá paga o cachê." E no metrô de Tókio, que carrega o maior número de pessoas do Planeta, 8.695.890 por dia, Beraldo olhou para os corredores e não viu nada. "Eles não querem nem saber disso."

 

Azar dos japoneses, considerando-se os números. Madonna e Paul McCartney dariam a vida por um palco na plataforma da estação Corinthians-Itaquera. Só em São Paulo são 3,4 milhões de pessoas por dia, segundo a própria Companhia. O SWU, maior festival de música do país, recebeu em Itu 150 mil pessoas em três dias. Sobe um aqui, tira dois ali, a conta fecha assim: o músico que tocar um dia todo no metrô será visto por um público 20 vezes maior ao que esteve no SWU. Mais surreal ainda: a lotação do Morumbi, quando todas as áreas estão livres, é de 90 mil pessoas. A programação do festival será vista a cada dia por 40 Morumbis lotados. "Sozinho, em apenas um dia, o evento é maior do que os shows de Beyoncé, Lady Gaga, Madonna, U2, Rush, Black Eyed Peas, Police, Bon Jovi, Rolling Stones e mais de outras 30 atrações juntas", diz Beraldo. Claro, com a ressalva de que, no metrô, o povo passa, olha e, se não for gostar, adeus.

 

Eis o desafio aos buskers, fazer a plateia parar. Os artistas que vêm de fora podem ajudar. Moscou manda o trio Bloody Red Sombreros, artistas performáticos que usam chapéus mexicanos e tocam rock e rythmn and blues pelas estações russas. Quantos eles ganham por performance? "US$ 0,00. Nós só tocamos por diversão." Como os russos reagem quando veem vocês? "Eles dizem: ‘Olha que legal, são sombreros! Ah não, são buskers. Não estou nem aí pra eles’", se auto-destroem as amigas Nadya Gritskevich, Dmitria Pitkina e Evegenia Petrova. De Nova York, além do Tribal Baroque, vem o duo de ragtime Xylopholks e o pianista e guitarrista Akil Bassan. A dupla de violonistas tangueiros Kutner e Koc chega de Paris. De Berlim virá o duo Mellow and Pyro, violão e baixo que fazem reggae e ska. O blues rock e o folk serão representados pelo londrino Lewis Floyd Henry, uma espécie de ‘one man band’, ou banda de um homem só.

 

Vadim Klokov é um russo que está no Brasil desde 1994 e que seria sucesso se só fosse contador da própria história. Ele é um dos representantes considerados ‘paulistanos’. Chegou a Belém direto de Moscou e ficou lá por 14 anos antes de chegar a São Paulo. Especializou-se em fagote e em um instrumento bíblico chamado duduk. "O duduk foi tocado por um filho de Noé no momento em que os animais começaram a entrar na arca." Vai vendo. Vadim diz ser o único tocador de duduk em toda a América Latina. Quem não quiser perder o trem, vai perder o som.

 

Eles também foram bukers

 

Blind Lemon Jefferson

Como muitos bluesmen americanos, Blind começou sua carreira tocando na rua nos anos 20.

Fazia performances memoráveis em esquinas e calçadas de Dallas, sua cidade natal, e

em Atlanta.

 

Simon & Garfunkel

No começo dos anos 60, a dupla deixou os Estados Unidos rumo à Inglaterra. Chegando lá, trabalhou como busker em locais públicos como o London's Leicester Square. "Eu amo este país," disse Garfunkel, ao lembrar de seus dias como músico de rua.

 

Stéphane Grappelli

O violinista de jazz francês, que tocou com Django Reinhardt em um dos primeiros grupos de cordas de jazz, passou a ser criado em orfanato logo depois da morte de sua mãe, quando ele só tinha 4 anos. Sua carreira começou como busker pelas ruas de Paris e Montmartre.

 

Neil Young

O trovador conhecido como um ‘folk-rock hero’ perambulou

muito pelas ruas de Glasgow antes de tocar nos grandes teatros e consolidar sua carreira.

 

Leonard Cohen

O músico e poeta canadense começou sua carreira escrevendo versos e cantando pelas esquinas de Quebec. Aos 9 anos, perdeu o pai e foi abatido por uma depressão que o acompanha desde então.

 

Confira o perfil, de alguns músicos que vão tocar no Metrô Vila Madalena:

Ana Góes (sax)

Apesar de tocar sax há apenas 2 anos, Ana trará temas de Ray Charles e Greg Fishman. "Toquei uma vez na rua Unchained Melody e foi emocionante. As pessoas dançavam, um casal parou para se beijar".

 

Vibrafone Chorão

O trio faz um choro moderno, com vibrafone, violão de sete e bandolim. "Vamos mostrar músicas também do chorão Esmeraldino Sales", diz Ricardo Valverde, o vibrafonista.

 

Pedro Loop (guitarra)

Pedro vai trazer músicas próprias e temas de Luiz Gonzaga, Bob Marley e Jaco Pastorius. "Faço as músicas com gravações de base, chamadas loop"

 

Rafael Masgrau (guitarra)

Rafael vai chegar com mais peso. Seu forte são músicas do Led Zeppelin, The Doors, Deep Purple, Metallica e Pantera.

 

Vadim Klokov (fagote)

Vadim, russo radicado em São Paulo, vai tocar fagote e duduk e mostrar jazz e música clássica, além de sons eletrônicos

 

Programação

Alguns músicos de rua de São Paulo que estarão no festival (de 8 a 11 de novembro, das 11h às 13h e das 17 às 19h; na sexta, dia 12, jam session às 17h na estação Sé.) estações: Luz, Ana Rosa, Vila Madalena, Corinthians Itaquera, Tatuapé, Brás, Sé, Anhangabaú, República e Palmeiras-Barra Funda

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