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'Sou um dos últimos na estrada', diz Buddy Guy

Eric Clapton já disse que Buddy Guy é o maior guitarrista de blues vivo. Agora, aos 75 anos, Guy se pergunta: quem pode assumir o trono?

Gabriel Vituri - Especial para o 'Estado',

23 de março de 2012 | 23h36

São palavras de Buddy Guy: "Tenho esperança de que em breve alguém como Stevie Ray Vaughan ou Eric Clapton vá despontar e manter o blues vivo". Ele sabe que restaram poucos da velha guarda. Sabe também que é um deles. Entre os que surgiram nos Estados Unidos na metade do século passado, além do camarada B.B. King, quase ninguém continua na ativa. Mas Buddy Guy, 75 anos, sempre volta.

Figura conhecida dos brasileiros, o bluesman da Louisiana vem novamente à América do Sul para quatro apresentações: no Rio de Janeiro (em 11 de maio), São Paulo (12 de maio), Porto Alegre (15 de maio) e Buenos Aires (16 de maio). Sua estreia no Brasil foi na década de 1980, quando chegou acompanhado pelo imortal gaitista Junior Wells, um de seus grandes parceiros em discos e turnês e com quem assinou o primeiro álbum, Hoodoo Man Blues, em 1965.

Nascido no pequeno vilarejo de Lettsworth, George Buddy Guy é cria da Chess Records, a famosa gravadora formada em Chicago em 1950, de onde saíram Lowell Fulson, Little Walter, Muddy Waters e todo o electric blues da metrópole de Illinois. Apesar de ter lançado seu primeiro disco pelo selo apenas em 1967, transitou pelos estúdios da gravadora durante quase uma década como guitarrista de apoio a diferentes artistas do blues e do soul.

Sustain, delay, distorções, volume, os efeitos conhecidos pelos guitarristas ajudam a identificá-lo. Seus sons duradouros - e tachados como barulhentos demais no início da carreira, com solos que podem render dois ou dez minutos de duração, influenciaram Eric Clapton, Jeff Beck, Stevie Ray Vaughan e Jimi Hendrix. Em Chicago, para onde migrou no fim da década de 1950, cavou seu espaço e se tornou um dos maiores expoentes do gênero. Direto da terra do blues eletrificado, ele conversou com o Estado por telefone.

O que o momento de um solo de guitarra ainda significa para você?

Quando eu toco, percebo as pessoas aproveitando aquilo. Do palco posso ver muitos sorrisos, e isso é fantástico para mim. Como eu digo, fazer o público feliz, no Brasil ou em qualquer lugar, é um presente de Deus. É a emoção da minha vida.

Seus truques já foram ensinados a alguém, você já deu aulas?

Não, nunca, mas eu tento ajudar guitarristas mais jovens, como o Quinn Sullivan. Esse garoto tem hoje 13 anos. Já dividimos o palco algumas vezes, inclusive para shows da turnê do seu primeiro álbum, Cyclone. (Sullivan já participou de concertos importantes e é considerado nos Estados Unidos uma promessa do novo blues. Imagens dos dois nos palcos podem ser encontradas no YouTube.)

Antigamente, nos anos 1950 e 1960, muitos bluesmen dividiram os estúdios da Chess Records...

Toquei com T-Bone Walker, Muddy Waters, Sonny Boy Willianson, Little Walter, a lista não tem fim. Sempre estávamos com alguém, e aprendemos o blues assim. Na época, eu era jovem e acompanhava as gravações. Na minha opinião, Muddy, Howlin’ Wolf, esses caras é que criaram a coisa do Chicago Blues. E isso era demais.

Nos seus últimos discos existe uma mudança perceptível de sonoridade, uma modernização do blues, mas que preserva as raízes.

Escuto bastante música de outros artistas, e não é questão de criar, mas de aprender ouvindo coisas diferentes. Vou ao estúdio e penso: "Vamos ver o que sai aqui". Tenho feito isso para encontrar novos fãs, continuar com o blues, porque precisa existir também algo criativo. Rolling Stones, Jimi Hendrix, esses caras mostraram ao mundo que estavam fazendo algo com muita criatividade.

No ano passado você lançou o single Stay Around a Little Longer, do disco Living Proof, que tem a participação de B.B. King. Vocês continuam muito próximos?

Oh yes! Vou vê-lo esta semana, tocamos com uma banda ótima. Sempre que podemos gravar coisas juntos nós vamos e fazemos. Com ele, com (Eric) Clapton e todos os outros. B.B. e eu somos praticamente os últimos da geração antiga que continuam viajando pelo mundo para tocar blues.

E por isso mesmo, o que acha que pode ser do blues em alguns anos?

É por isso que tenho tentado tocar com gente nova também. Não sou mais uma criança, alguém precisa assumir esse posto. Meio século atrás era o blues, agora temos muito rock, hard rock, hip hop. Quinn Sullivan, por exemplo, está fazendo o trabalho dele, mas precisa também de exposição. Assim é a vida. Tenho esperança que em breve alguém como Stevie Ray Vaughan ou Eric Clapton vá despontar e manter isso vivo.

O que você faz quando não está tocando seu blues?

Gosto de ver esportes, e principalmente assistir a shows de outros artistas. Eu ouço muitas músicas, mas não existe mais blues nas rádios por aqui. Gostaria que alguém viesse e trouxesse isso de volta para a programação.

Por que não se toca mais blues nas rádios?

Gostaria que você pudesse me ajudar nisso. Eu não sei o que acontece, mas provavelmente tem a ver com dinheiro. Alguém vai lá, toca um blues e isso não vende mais. Nos velhos tempos, você vendia 50 mil cópias e significava muito. Hoje não é nada. It’s All About Money.

Qual a real história por trás da sua 'polka dot strato' (a famosa Fender Stratocaster preta com círculos brancos?

Quando fui embora de Louisiana para Chicago, prometi à minha mãe que lhe compraria um Cadillac de bolinhas e levaria de volta um dia. Infelizmente ela morreu cedo, e aquela promessa ficou esquecida muitos anos. Um dia resolvi que faria uma guitarra assim, como homenagem à memória dela.

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