Sons resgatam herança da música portuguesa no mundo

Goa - Vigésimo quinto e mais jovem Estado da União Indiana, Goa esteve sob domínio português por 451 anos, a partir de 1510. O repertório do disco procura reconstituir os múltiplos processos musicais que definem a música goesa, dividida em grupos de estilos e funções sociais ou rituais diversas: o mando e o dulpod são a forma mais elaborada do canto harmônico não-religioso, repertório por excelência dos brâmanes; o dekhnni exemplifica a intersecção das realidades hindu e católica; o fugddi é uma dança os kunnbis, casta de agricultores católicos. A faixa 4 é um hino a São Franciso Xavier, santo venerado por católicos e também por hindus. As fotos que ilustram o libreto mostram festas em que as roupas e aparatos - há até uma burrinha - lembram as dos ternos de reis e das festas de boi brasileiras e na estrutura melódica, rítmica e harmônica percebem-se também os pontos de contato com a música de nossas festas populares.Sumatra - O CD dedicado a Sumatra tem o nome de Krongong Miritsko. Um grupo kroncong é formado por dois cantores solistas que interpretam versos de quatro estrofes, acompanhados por um ou dois violinos, flauta, violão, violoncelo e contrabaixo (dedilhados, os três). Moritsko é mouro - o viés pelo qual se introduz a tradição da canção portuguesa na música da Indonésia. O kroncong é uma síntese de estilos musicais euro-portugueses e malaio-indonésios, como observa Margareth Kartomi, da universidade austríaca de Monash, pesquisadora que escreveu o texto do libreto. Carregada de nostalgia, a música de Sumatra, no entanto, não se resume ao kroncong. Há também o ronggeng, música de dança, não cantada, de sabor mais oriental. Em um momento (Kroncong Tanginsan Tengah Malam, ou Choro da Meia-Noite), aproxima-se da instrumentação da música urbana carioca do início do século, embora a estrutura musical seja divergente dela.Moçambique - Este CD tem o nome de Makayela, ou Canções da Sabedoria. Makayela integra um modo expressivo chamado makwayela que inclui canto, dança, tradição oral e vestimenta. Tradicionalmente, só homens participam dos coros, cujos cantos têm caráter de integração social - falam de família, saúde, doença, religião, casamento, guerra, morte. Os coros são excepcionalmente ricos e na distribuição das vozes fica identificada a origem dos corais da música gospel, norte-americana. Não há instrumentos harmônicos; ocasionalmente, um tambor seco (provavelmente de madeira, com couro frouxo) marca os tempos fortes. Os acordes vocais são sofisticados, às vezes dissonantes. O resultado é ocidental, mas não se identificam elementos da música portuguesa típica. A tradição moçambicana, ao contrário vai ser refletida nos cantos negros da diáspora ocidental.Brasil - Foi na Paraíba, faixa de terra que pertencia à Capitania de Itamaracá, que os portugueses envidaram seus primeiros esforços de colonização em território americano. Como explica José Moças, havia a intenção de dedicar ao Brasil seis CDs, dada a variedade de manifestações musicais de influência portuguesa espalhadas pelo País. Como não foi possível, ficou-se com o Cavalo Marinho de Mestre Gasosa, um trabalho que já estava iniciado, com pesquisa de Samuel Araújo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E aqui cabe observar que em poucas produções de "mapeamento" propostas por brasileiros houve tanto respeito à manifestação original quanto neste CD que, mesmo gravado em estúdio, guarda rigorosa integridade. O disco acompanha a dança dramática, da abertura (o Aboio) ao fim (a Despedida), em quase 70 minutos de música.Damão, Diu, Cochin e Korlai - A música deste CD invoca a literatura e a tradição oral da época das viagens portuguesas a essas quatro comunidades costeiras indo-portuguesas. O disco tem o título de Dessa Barra Fora. O repertório constitui, de acordo com o pesquisador David Keneth Jackson, da Universidade de Yale, autor do texto do libreto, o extraordinário exemplo de sobrevivência - na poesia, nos versos tradicionais, na prosa, nos contos orais. O acompanhamento é quase sempre feito por instrumentos de cordas que soam como violões de cordas de aço; a contagem do tempo é híbrida, com curiosas rupturas; em alguns momentos, ouvem-se saxofones; alguns dos ritmos tradicionais das comunidades são conhecidos aqui, com nomes diferentes: Niguerinha (negrinha), por exemplo, é um vaneirão, tal como os que conhecemos da tradição do Brasil central. As melodias têm a melancolia que normalmente se atribui ao banzo negro, mas é portuguesa.Macau - Hoje submetido à força poderosíssima da cultura chinesa, é na música que Macau guarda a herança da esfera lusófona, como se ouve no CD Fála-Vai, Fála-Vem. Os portugueses nunca foram maioria populacional, mas seu domínio político e administrativo fez marcar referências não apenas na língua e na música, mas também nos hábitos sociais e até na arquitetura. O pesquisa e o texto foram feitos e escritos pelo português Carlos Piteira, que assegura: "Se quiséssemos evocar formas de expressão musical que simbolizassem os modos culturais de raiz portuguesa e chinesa, não nos ficaria mal falar do fado e dos sons do ehru, um violino chinês de duas cordas" - ou seja, combinam-se os instrumentos chineses com a estrutura da canção portuguesa. Talvez seja, da coleção, o disco mais notoriamente português e algumas das canções recolhidas para o repertório - sempre fados, ou variações de fados - poderiam ter sido compostas por lisboetas.São Tomé - Alguns estudiosos entendem que o Tchiloli (que dá nome ao disco dedicado a São Tomé) é uma espécie de peça teatral vagamente aparentada com tradições dramáticas do norte de Portugual. Rosa Clara Neves, autora do texto e responsável pelas gravações do disco, discorda. Considera o Thiloli, ou Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno é um conjunto de atividades expressivas que têm por base o romance medieval de Baltazar Dias: ao texto medieval foram acrescentadas prosa, música, dança, trajes e a tragédia original torna-se uma manifestação cultural que só pode ser entendida no contexto sociocultural de São Tomé. Aqui, não há palavras, mas toques: da entrada da ronda do Marquês de Mântua, da entrada de Ganalão, da retirada, etc., executados com todos os instrumentos de percussão disponíveis ou só com apitos, só com chocalhos, só com tambores - e sopros. A nossa banda de pífanos é parente de sangue.Malaca - A meio caminho entre a China e a Índia, Malaca foi conquistada por Portugal - por Afonso de Albuquerque - em 1511. O disco dedicado ao país chama-se Cantiga di Padre Sa Chang (cantiga da terra do padre). Porque foi o padre Jules Pierrre François quem sugeriu a criação de um bairro português - na verdade, uma pequena aldeia, com cerca de 120 casas e mil habitantes, que mantém os hábitos e tradições antigos e se constituem na principal atenção turística do país. O português falado em Malaca tem acentos (nos erres, principalmente) da língua inglesa, mas a estrutura das músicas é estritamente portuguesa. Em muitos momentos, os cantos tradicionais prescindem de instrumentos harmônicos. O fado (o gênero que viria a ser chamado de fado) é a pronúncia musical mais óbvia. Por isso mesmo, quando o ritmo é acelerado (em Tia Anika), a música se aproxima da de quadrilha do sudeste brasileiro. Essa proximidade já havia sido notada por João do Rio, em 1909.Timor - São muitas as influências na formação do Timor Leste: holandeses, chineses, portugueses e javaneses deixaram ali suas marcas. Dos discos da coleção A Viagem dos Sons, neste é menos nítida a presença da música portuguesa. Também são poucas as palavras portuguesas usadas nas letras das músicas. A lógica de melodias, harmonias e ritmos tem pouca ligação com a tradição ocidental. Em Belum (Amigo), o quarteto vocal canta em terças, como na música caipira brasileira, e o desenvolvimento da canção parece mais perto da estrutura lógica praticada no Ocidente, mas é um caso isolado (e a música é contemporânea; fez sucesso em Portugal - parece ser uma concessão episódica). Quase tudo ali remete ao Oriente. O CD chama-se Tata-Hateke Ba Dok, ou Olhando o Oriente, e começa com ruídos do mar sob o toque da korneta, chifre de búfalo, para terminar com a "beleza etérea" (apud Louise Byrne, pesquisadora australiana) da dança do tebe - manifestação típica da terra.Cabo Verde- A música de Cabo Verde já é relativamente conhecida dos brasileiros - e familiar, pois deriva da música brasileira. O CD Dez, Granzin di Tera, é um disco de choro, muito embora os gêneros cabo-verdianos tenham outros nomes - o funaná, rural, o batuque, da Ilha de Santiago, a morna, que projetou internacionalmente a cantora Cesária Évora, o coladeira, gênero vocal e instrumental que se presta à dança. As ilhas vulcânicas de Cabo Verde eram desabitadas quando foram descobertas pelos navegadores portugueses Anónio da Noli e Diego Gomes, na década de 1460; como está no que era o cruzamento das rotas de navegação, Cabo Verde recebeu como colonos os negros trazidos diretamente da África e também outros saídos do Brasil - e estes levaram música, instrumentos, vestes. Um dos grupos de intérpretes deste disco é formado por Nilsa Silva, cantora, Eugénio de Lima, cavaquinhista, José Brito Voginha, violonista, Eugénio Ribeiro, que toca chocalho - uma formação que nos é muito íntima.Sri Lanka- O Sri Lanka foi o único país a ter dois discos, na coleção A Viagem dos Sons. O primeiro tem o nome de Cantigas do Ceilão; o segundo é chamado Baila Ceilão Cafrinha!, com ponto de exclamação e sem vírgula depois do verbo. O já citado Keneth David Jackson diz que a ilha ficou sendo um dos exemplos mais vivos do sincretismo do folclore português (e do contato lingüístico) implantados no século 16 pelo império ultramarino. Os portugueses dominaram o Ceilão, desde 1972 repúblca de Sri Lanka, por 150 anos, entre 1505 e 1658; os holandeses os substituíram entre 1658 e 1796; por fim, os ingleses dominaram a ilha, até 1947. A língua crioula portuguesa era falada no litoral e alcançou outras regiões do país, como o reino independente Kandiano, na região montanhosa - ainda no início do século publicavam-se livros de versos folclóricos em crioulo português. Hoje, a comunidade Burgher, de Batticaloa, está organizada como União Católica Burgher e é um grupo de famílias que preserva língua e música crioulas (há outras comunidades; essa é a mais importante; usada como exemplo, é a responsável pela música dos dois CDs). As Cantigas do Ceilão são representativas da sobrevivência musical de cultura portuguesa na África. As quadras poéticas cantam textos do folclore crioulo selecionadas do Cancioneiro Musical Crioulo, de Marques Pereira publicado no início do século. É uma música luminosa, de elementos constitutivos nítidos - as particularidades portuguesas convivem com características árabes, formando uma terceira expressão. No segundo disco, aparecem os cafres, que chegaram ao Sri Lanka com os portugueses no início do século 17; imagina-se que os cafres vieram de Goa; casavam-se com os descendentes de portugueses da ilha. A expressão "cafrinha", usada no título do disco, deriva de cafre e designa a música ritmada que essas comunidades fazem. Explica o pesquisador que os registros do disco são o último exemplo possível da música afro-cingalesa, já que, na cultura popular, o ritmo e a melodia da cafrinha tradicional foram adaptados e incorporados à música popular cingalesa, o baila.

Agencia Estado,

01 de outubro de 2000 | 18h20

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.