Sónar expurga os males com as batidas do The Chemical Brothers

Dupla inglesa foi a grande atração do festival que ainda trouxe Hot Chip, Brodinski e Evian Christ a São Paulo

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2015 | 15h49

Eram nove horas de bate-estaca. Música eletrônica alta nos ouvidos das 21h deste sábado, 28, até às 6h do domingo. O SónarClub, braço musical do festival catalão Sónar, apresentou na sua terceira edição brasileira aquilo que chama de música avançada. É eletrônica? Basicamente, sim. Mas ao longo da maratona intensa, nuances e gêneros pipocam no palco dominado por DJs. E nos nossos ouvidos, é claro. 

É avançada porque não se prende. Não se segura apenas nas batidas graves, embora elas tenham uma grande força e peso. Da chilena Valesuchi, responsável por abrir o festival, até o espanhol Pional, os recheios exibidos nessa madrugada adentro, no Espaço das Américas, em São Paulo, comprovam aquilo que, nos anos 1990, os ingleses já sabiam: a eletrônica é capaz de arraster multidõs, sem precisar se prender à estética orgânica da música, com guitarra, baixo, bateria e, claro, vocais. 

No palco, o DJ é o rei. O monarca responsável pela felicidade do seu povo, seu vassalos ou como quiser chamar. Cadencia as danças, os beijos, os abraços, os goles de bebida – nenhum deles parecia faltar no reino montado pelo Sónar na cidade. Assim começou Valesuchi, responsável por abrir a noite, às 21h. Com músicas criadadas nas manhãs livres em Santiago, no Chile, a DJ foge de climas solares. Pelo contrário, suas baditas são acompanhadas por nuances sombrios, tão introspectivos quanto ela, que, quietinha, apenas balança a cabeça e não desgruda seus olhos das picapes. O rosto é quase escondido pelos óculos e cabelo curto, mas capaz de cobrir-lhe a face.

Evian Christ seguiu a chilena e deu um passo a frente no sentido “avançado” que o festival propaga. Não há lugar comum na música do britânico. Ele inverte batidas, despeja ácido na pista e, mesmo assim, não deixa de ser dançante. Até mesmo o pop francês Brodinski, que trabalhou com Kanye West, manteve o clima experimental e fugiu das obviedades. Embora tenha lançado um álbum mais radiofônico, Brava, ainda neste ano, o DJ e produtor trilhou por caminhos obcuros, mesmo que não tanto quanto o antecessor. 

Grande atração da noite, The Chemical Brothers é uma instituição da música eletrônica. A dupla formada por Tom Rowlands e Ed Simons no final dos anos 1980 é, em partes, resposável pela existência de todos os outros DJs que sacudiram a noite do Sónar. O espetáculo não é sonoro, apenas. Luzes e projeções no telão compõem a alquimia produzia pelos dois no palco. O set serviu de tudo, desde as faixas mais populares a canções do mais recente disco deles, Born in the Echoes, lançado neste ano. Go, da nova safra, é potente ao vivo, mesmo que não cause a comoção de Galvanize e Block Rockin' Beats. São catárticos por essência, mestres na arte de fazer uma pista fervilhar. Durante mais de uma hora, com eles sobre o palco, o Espaço das Américas se fechou do mundo. Nada o que acontecia lá fora importava. Chuva, trânsito e preocupações diárias evaporavam. Ou melhor, escorriam pelas têmporas como o suor que insistia em brotar em decorrência do calor e da dança. 

Até mesmo a banda Hot Chip, que veio em seguida ao brasileiro Zopelar, soou mais eletrônica do que de costume. Por fim, Pional exibiu um set poderoso, embora casa de shows já esvaziasse. Ao longo de tantas horas fechado no mesmo espaço, o Sónar não só mostrou a música avançada. O festival foi além, expurgou males. E, sem que se pudesse perceber, o domingo já nascia lá fora quando as portas se abriram definitivamente. 

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