Som Livre lança especial com 60 músicas de Maysa

"Chegamos em alguns momentos, ao ouvi-la, a duvidar que pudesse existir alguém que houvesse absorvido com tanta singeleza e sinceridade os ensinamentos do cancioneiro romântico do Brasil", escreve, na contracapa do disco de estréia da cantora Maysa, Convite para Ouvir Maysa, Roberto Côrte Real. O texto foi reproduzido no encarte da coletânea Simplesmente Maysa, que a Som Livre acaba de lançar. São quatro discos, 60 músicas da cantora que a partir de 1956, com a gravação do primeiro disco, ganhou o Brasil cantando as dores íntimas, cotidianas e universais das mulheres de sua época. Côrte Real, na época diretor da gravadora Columbia, descobriu Maysa em uma reunião de amigos. Ao vê-la e ouvi-la cantar não teve dúvidas, convidou-a a assinar com a RGE, gravadora paulista então recém inaugurada. Dizem que ele ficou impressionado pela voz, pelas composições e pela beleza dos olhos verdes da menina de classe média, casada com um herdeiro dos Matarazzo, que sabia como poucos falar de dores, frustrações, vitórias, paixões e derrotas, o tal "conhecimento do cancioneiro sentimental brasileiro" a que se refere o executivo, no texto. Aprendeu a cantar, ela mesma dizia, com Noel Rosa, Francisco Alves, Elizeth Cardoso, Sílvio Caldas. No encarte escreve: "Meu pai era muito amigo de Sílvio Caldas e Elizeth Cardoso, que sempre estavam lá em casa. Silvio foi a primeira pessoa que me ensinou a tocar violão. Com Elizeth aprendi muito, para depois partir para cantora".A edição especial traça um bom panorama para quem não conhece a obra de Maysa. São dois discos duplos, embalados em lata colorida. O encarte é luxuoso, com textos de autoria da própria cantora, fotos e poemas a ela dedicados. "Compus muitas músicas e devo ter gravado umas 50", escreve. A edição traz dez delas: Ouça, Felicidade Infeliz, Meu Mundo Caiu, Tarde Triste, Marcada, Você, Voltei, Resposta, Negro Malandro do Morro e Adeus. Também tem clássicos do samba-canção, como Molambo, de Jayme Florece, o Meira, e Augusto Mesquita e Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Silvio Caldas. Da fase anterior à bossa nova, na qual a música brasileira passou a demonstrar seu apreço pelo jazz, Eu e a Brisa, de Johny Alf, Carinho e Amor e É Fácil Dizer Adeus, de Tito Madi, para citar algumas. De Tom Jobim e Vinícius de Moraes, canta as mais sentimentais, como A Felicidade, Se Todos Fosse Iguais a Você, Eu Sei que Vou te Amar, Eu Não Existo Sem Você. Só de Tom, Outra Vez e de Vinícius em parceria com Adoniran Barbosa, a única, diga-se, Bom Dia Tristeza. Clássicos da bossa nova também não faltam. Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá e Antônio Maria, em belíssima interpretação, O Barquinho de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal e Quem Quiser Encontrar o Amor, de Geraldo Vandré e Carlos Lyra são algumas delas. Há incursões pela música internacional. Esta também foi umas das marcas da carreira de Maysa, que gravou discos nos Estados Unidos, Itália, Espanha e Argentina. E é nessas canções em que ela dá shows de interpretação. Faz recuperar a beleza do bolero Besame Mucho, de Consuelo Velasquez e recria Light My Fire, do The Doors, de tal forma que Manzarek, Morrison, Krieger e Densmore ficariam orgulhosos de a terem escrito um dia. Na versão de Odayr Massano para L´Hymne a L´Amour, canção de Edith Piaf que embalou os casais europeus que surgiram no pós-guerra, chora e faz chorar. Cole Porter é lembrado por ela em I Love Paris, e I´ve Got You Under My Skin. Esta, ela une a Demais, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira. Homenagens Foram Muitas - Maysa morreu em 1977, aos 41 anos. Recebeu dos homens, em vida, inúmeras homenagens. Algumas delas podem ser conferidas no encarte de Simplesmente Maysa. Ronaldo Bôscoli, que nos anos 60 viveu tórrido relacionamento com a cantora, escreveu, para ela cantar, Depois do Amor. No primeiro volume, a designer Paula Mello reproduz o texto que Manuel Bandeira escreveu após assistir ao programa que ela apresentava na TV Record, todas as quartas-feiras: "Os olhos de Maysa são dois; não sei que dois, não sei como diga dois oceanos não-pacíficos". O poeta chileno Pablo Neruda também se rendeu ao encantos da cantora e Antonio Maria, compositor e poeta, faz seu tributo ao chamar os olhos da cantora - sempre os olhos! - de duas colheres de mar.Simplesmenta Maysa - edição especial com dois CDs duplos; Som Livre; R$ 49,90; À venda somente no site da gravadora www.somlivre.com.br e pelo telefone (11) 3350-3350.

Agencia Estado,

12 de dezembro de 2000 | 16h01

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