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Som Imaginário abre festival no Copacabana Palace, no Rio

Antológico grupo formado por Wagner Tiso faz show em evento que homenageia também o maestro Érlon Chaves

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2013 | 20h47

Por um instante, houve um momento em algum dia de 1969 em que um portal se abriu. Sugou todos os homens que estavam na sala e os levou a uma dimensão na qual não havia separações de gênero nem de cor. O jazz e o rock-n’-roll soavam tão irmãos e complementares quanto a música sinfônica e o samba. O instrumental virava vocal quando lhe desse na telha, e nada vinha com nome. Era tudo música. Os cinco cavalheiros que ficaram lá por alguns minutos voltaram descabelados, como se cuspidos do outro universo, e se puseram a tocar algo que o mundo ouviria só com eles. Nem antes nem depois do Som Imaginário, uma viagem de um grupo brasileiro se provaria tão fantástica.

Quarenta anos depois de lançar seu último disco, Matança do Porco, o Som Imaginário reativa a carreira. Fez até agora shows esporádicos, mas a reação da plateia e novos convites levaram seu líder, o pianista Wagner Tiso, a decidir a, além de fazer shows cada vez mais frequentes, gravar um disco com temas inéditos e outros escolhidos de seus três álbuns lançados no início dos anos 70 (Som Imaginário, de 1970, Nova Estrela, de 1971, e Matança do Porco, de 1973). “Pensei que seríamos vistos apenas pelas pessoas de nossa geração. Quando vimos, eles estavam lá, muitos chorando, mas havia também jovens. Deve ser a internet”, Tiso tenta uma explicação. A próxima apresentação será na noite de hoje, quando abre-se um outro portal chamado Copacabana Palace.

O Copa Fest, um festival que o hotel realiza há seis anos, inicia sua edição de 2013 com Tiso e seu Som Imaginário. Seus shows principais acontecem em um salão de festas de 90 anos de idade. As outras noites não serão menores. Amanhã, Tomás Improta homenageia Dorival Caymmi e o trombonista Raul de Souza traz seu quinteto. O sábado fecha a temporada com Max de Castro lembrando o arranjador e compositor Érlon Chaves, um dos maiores ilustres ainda desconhecidos da música brasileira negra dos anos 70.

O Som Imaginário poderia estar em qualquer contexto. Se o festival é para homenagear os velhos, vale pelo peso que teve na formação da identidade de Milton Nascimento – foi para acompanhá-lo que o grupo foi formado. Aliás, foi do show Milton Nascimento, Ah, e o Som Imaginário, de 1969, que o nome surgiu. Se for para apontar para algum lugar do futuro, também vale. O Som é daqueles grupos que saltaram tão longe que a música de hoje ainda não os alcançou. “Fazíamos algo como um jazz sinfônico rock ou um rock sinfônico jazz. A ordem não altera. Só pensávamos em música”, lembra Tiso.

A formação de hoje traz três nomes do grupo original. Além de Tiso, o baterista Robertinho Silva e o guitarrista Tavito. Os outros que se uniram passaram, por algum momento, pelas muitas escalações que marcaram o grupo: Nivaldo Ornelas no sax e flauta, Luiz Alves no baixo e Victor Biglione na guitarra.

A imprensa da época respeitava o jazz progressivo do grupo, mesmo porque ele vinha abençoado por Milton Nascimento, que já era grande. Seus temas saíam, sobretudo nos dois primeiros discos, mais pensos para o lado do rock. O grupo começou a sofrer uma ruptura entre membros com o pé no rock, como o cantor Zé Rodrix e outros que queriam mais o jazz. Em certo momento, Tiso resolveu o problema decretando: “Daqui pra frente, só vamos fazer música instrumental”.

Amigo de Milton desde a saída dos dois de Belo Horizonte para São Paulo, e depois de volta para BH e então de partida para o Rio de Janeiro, Tiso não sabe se Milton bebeu mais na sonoridade do grupo ou se o grupo se moldou às intenções de Milton. “Já sabíamos bem o que queríamos quando ainda estávamos em Belo Horizonte. Cada um colaborou com o outro.” A possível divergência mora no assunto onipresente do meio artístico. Enquanto Milton assina como um dos integrantes do Procure Saber, pela publicação de biografias só com autorização do biografado, Tiso é contra. “O artista batalha a vida toda para ter reconhecimento. E, quando tem, quer restringir (as biografias). Acho que isso tem de ser livre.”

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