Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Som do Belle & Sebastian volta grisalho

Banda escocesa cult faz show para cerca de 6 mil pessoas no Via Funchal

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

11 de novembro de 2010 | 00h49

Yasmin Medeiros, de Belém do Pará, estava nas últimas fileiras, a mais de 100 metros do palco do Via Funchal, e não botou fé. "Nunca vai chegar até aqui". Mas uma das duas bolas de futebol americano de plástico autografadas pelo grupo escocês Belle & Sebastian e arremessadas pelo vocalista Stuart Murdoch voou por sobre toda a plateia e veio cair caprichosamente nos braços de Yasmin, que virou celebridade instantânea lá no fundão.

O alcance da música delicada e suave do Belle & Sebastian tem sido como a trajetória da bola de plástico: atravessa já uma década e meia de fofura & dancinhas & quebras de protocolo na música pop. Não tem mais o mesmo frescor, no entanto.

O fôlego do grupo se mantém hoje por uma combinação de simpatia, coerência e bom gancho para hits. Pequenos truques de nightclub ajudam, como botar meia dúzia de fãs no palco para dançar junto com o bandleader e agir como se fosse qualquer um de nós que tivesse caído por acidente num palco à frente de 6 mil pessoas.

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A banda abriu a noite pontualmente às 22h, com I Didn't See It Coming, primeira música de seu novo disco, Write About Love, lançado este ano. O som não estava bem equalizado, e muitas sutilezas da formação da banda - como uma seção de cordas com cinco integrantes - se perderam nas canções iniciais do set.

Murdoch continua adorado, com seu chapeuzinho de cambista de corridas de cavalos e sua performance doce, o ar levemente lunático pedindo colaborações da plateia. O público aplaudiu e participou de todo o show. Ferveu nos hits, como Piazza, New York Catcher (na qual ele jogou as bolas de football), I'm a Cuckoo e Another Sunny Day.

A banda mostra que perdeu muito também com a saída, há 10 anos, da vocalista Isobel Campbell, que trilha brilhante carreira solo. Antes, havia um núcleo de vozes femininas que equilibrava as ações e dava um colorido especial ao grupo. Agora, deve a dobradinha exclusivamente ao timing meio opaco da roliça Sarah Martin, que também toca violino.

Em 2001, quando veio pela primeira vez ao Brasil, para o Free Jazz Festival, o pop desencanado, sem frescura, desopilado, o avesso do avesso do star system, fez escola. Era uma ousadia charmosa, gente como a gente tomando conta do palco, da noite, da música que ouvíamos. Mas muita coisa aconteceu desde então, coisas como Peter, Bjorn and John, Kings of Convenience, Hot Chip e outras maravilhas que professam o mesmo credo. O Belle & Sebastian ficou meio tiozinho, já respeitavelmente grisalho, mas ainda é um tiozinho que comove no piquenique da família.

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