Jotabê Medeiros
Jotabê Medeiros
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Roberta Martinelli
Som a pino
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Som a Pino: ‘Vamos fugir...’

O que esperar de uma biografia? Depende tanto, não é mesmo? O jornalista Jotabê Medeiros confessa na introdução da biografia que escreveu sobre o cantor e compositor Belchior que, quando foi convidado pela Editora Todavia para escrever sobre alguém, ficou um tanto quanto receoso.

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2017 | 03h00

“Acho que li alguns biógrafos que forçavam a visão do extraordinário em coisas triviais da vida do personagem, e isso me enfastiou.” Pouco temos e sabemos sobre Belchior além de sua obra (que de pouco não tem nada, é das coisas mais preciosas), e é através dela que Jotabê nos desperta mais uma vez o encantamento por esse artista tão fundamental. O nosso rapaz latino-americano.

O livro começa com Frei Francisco Antonio de Sobral, antes de Belchior ser até Belchiôr (como foi chamado por um tempo), e logo nos primeiros capítulos são descritos alguns momentos de sua vida religiosa quando, segundo o Frei Hermínio, ele escreveu a letra do que viria a ser a música Galos, Noites e Quintais. “Eu era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais, como um galo, quando havia galos noites e quintais.” 

Antes dos capuchinhos, teve a turma da escola: Fausto Nilo (futuro arquiteto e seu parceiro), Barbosa Coutinho (futuro psicanalista), Valmir Teles (futuro ator). Depois, a Faculdade de Medicina e a nova turma de Bel: Petrúcio Maia, Zé da Flauta, o filósofo Augusto Pontes... Nessa época, ele se candidata a presidente do Centro Acadêmico, mas perde para a chapa de um outro rapaz chamado (ora, ora, vejam só) José Genoino.

Depois, ele vai para o Rio de Janeiro onde canta pela primeira vez no Festival da Tupi como intérprete de si mesmo e ganha. Vence e abre espaço para toda uma turma. Escreveu seu amigo, o filósofo Augusto Pontes. “Enfim, comemos muito a cultura nacional e sempre querendo que a ‘comida’ fosse melhor. Continuamos nesse banquete, mas começamos a botar os pratos na mesa, para distribuir o nosso angu...” Ninguém segura mais o pessoal do Ceará. Que sorte! 

Então vieram os discos, as canções, a mudança para São Paulo, Elis Regina e o Falso Brilhante, o sucesso de crítica, o sucesso popular, fãs, o tempo, os filhos, a vida, o sumiço e a obra.

E a partir daí uma pergunta: “Onde estará Belchior? Para onde foi? Por que foi?” O Fantástico (aquele programa sensacionalista que passa aos domingos na Rede Globo) encontrou o cantor no Uruguai. E o que aconteceu depois? Ele fugiu de novo. Claro. Não queria ser encontrado, não queria explicar nada. 

Gosto muito do caminho que Jotabê segue, contando a história através das canções, através da obra. Mas onde ele foi quando sumiu? Ele descobre? Se Belchior fugiu, penso que é porque não queria ser encontrado. Ele foi, pra gente, antes de ir, por que será? Não sabemos e temos que conviver com essa ausência. No livro, encontramos vários caminhos possíveis, mas, no dia 30 de abril de 2017, ele sumiu para nunca mais ser encontrado e como disse Zeca Baleiro: “Acredito, como Scott Fitzgerald, que a melhor fuga é sem volta”.

Música da Semana

‘Como Nossos Pais’

A música da semana foi escolhida em homenagem ao cantor e compositor Belchior e à biografia de Jotabê Medeiros, Belchior – Apenas Um Rapaz Latino-Americano, e para recomendar fortemente também o filme de Laís Bodanzky, em cartaz nos cinemas, que leva o nome dessa canção e com uma atuação inesquecível de Jorge Mautner que está super à vontade na telona. 

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