Victor Balde
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Som a Pino: ‘Um corpo no mundo...’

Lançada no Museu Afro Brasil, 'Eminência Parda', a primeira música do novo disco de Emicida, fala de racismo e preconceito

Roberta Martinelli, O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2019 | 02h00

Enquanto uns dizem que “racismo é coisa rara no Brasil”, 80 tiros são disparados contra o carro de uma família indo para um chá de bebê. “Pode acontecer.” Quantos ambientes que já frequentei que só tinham brancos? Você já reparou? “Se tem territorialidade, tem apartheid” nos ensinou Elisa Lucinda. Vejo hoje tantos próximos incomodados quando citados como branquitude e a verdade é que o branco não está acostumado a ser chamado por raça. Anos de injustiça histórica. Um débito colossal. 

'Eminência Parda'. Na semana passada, estive no Museu Afro Brasil para acompanhar a première de Eminência Parda, a primeira música do novo disco de Emicida, Permita Que Eu Fale, ainda sem data de lançamento.

No auditório do museu, assistimos ao clipe e acompanhamos um bate-papo. Na porta do auditório um texto na parede dizia: “Um débito colossal: a escravidão de africanos e afrodescendentes no Brasil foi o crime coletivo de mais longa duração praticado nas Américas e um dos mais hediondos que a história registra”. E lá dentro Emicida explicava: “Esse tipo de instituição que a gente está vendo nesse momento está sendo atacada, está sendo desmantelada, entende? 

“Por que a gente lança o DVD no dia 20 de novembro? Porque a gente acredita que nós precisamos de um Dia da Consciência Negra. Este país precisa refletir sobre isso, respeitando o nosso ponto de vista.” 

“Por que a gente lança o novo projeto no Museu Afro Brasil? Porque esse museu (na minha visão) é o maior acervo de referências da incrível contribuição dos afrodescendentes na sociedade brasileira. Tem um acervo que passa por tecnologia, arte, religiosidade e acredito que todos nós deveríamos valorizá-lo muito mais. Por isso, acho bacana que a gente comece a contar essa história por aqui”, afirmou ainda Emicida.

O museu tem um acervo com mais de 6 mil obras: pinturas, esculturas, fotografias e comemora, em 2019, 15 anos de atividade escapando de cortes em seu orçamento por intensa movimentação.

O novo disco de Emicida começa ali. A faixa Eminência Parda é uma parceria com Dona Onete, cantora e compositora paraense, que iniciou a carreira artística com 62 anos e hoje é diva do carimbó. Emicida explica a participação de Dona Onete. “A gente precisa valorizar nossos ancestrais, mas eu também acredito que a gente precisa entregar flores para eles enquanto eles conseguem sentir o cheiro delas.”

Além de Dona Onete, a parceria em Eminência Parda também inclui o rapper Papillon de Portugal, para “mostrar para as pessoas um Portugal que o pessoal não conhece no Brasil: um Portugal preto”, e também Jé Santiago, novo nome do trap no Brasil, pois “o que ele faz agora é o que a gente fez quando lançou a primeira mixtape”. 

O clipe mostra uma família negra jantando em um restaurante cheio de brancos e o que acontece? Vai lá e vê! 

Música da Semana

Sangue Frio 

A cantora, compositora e poeta baiana Karina Buhr lançou de urgência a música e o clipe Sangue Frio: “O tempo tá matador, o exército tá matador”. 

A música foi feita um tempo atrás e acompanhando as notícias do Brasil ela teve que ser lançada agora. Triste. 

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