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Som a Pino: ‘Subo nesse palco’

Certa vez, Woody Allen disse: “Não sou uma pessoa de prêmios. É possível dizer qual é o filme favorito de alguém, mas não qual é o melhor filme. Quem pode dizer isso? São avaliações pessoais, não significam nada”

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2017 | 02h00

Quando não era jornalista, desconfiava um pouco de prêmios, listas e rankings de melhores do ano. Como podemos comparar artistas e obras tão diferentes? Como podemos colocar em primeiro, segundo, terceiro lugar? Não conseguia entender. Achava que não deveria ser assim. 

Virei jornalista. Voto e participo de várias listas de prêmios, votações, mas continuo sofrendo e achando dificílimo um ranking na arte. Entendo a função e topei participar da brincadeira. Mas, acho que não deve ser levado tão a sério. Importante lembrar que são 3, 10 ou sei lá quantos profissionais que escolhem levando em consideração suas crenças, medos, afetos, gostos. 

Claro que questões pessoais são deixadas de lado, claro que o gosto não deve prevalecer, claro que devemos ter uma opinião crítica sobre isso, claro que a obra está em primeiro lugar, claro que não devemos votar em projetos que participamos. Claro? Está claro mesmo?

Numa entrevista que li uma vez do cineasta Woody Allen ele disse: “Não sou uma pessoa de prêmios. É possível dizer qual é o filme favorito de alguém, mas não qual é o melhor filme. Quem pode dizer isso? São avaliações pessoais, não significam nada”. 

Eu concordo que sejam avaliações pessoais, e tenho tentado pensar isso quando voto nos meus discos ou shows favoritos. Meus, repito, meus que sou uma pessoa, que posso ter tido um dia ruim ou bom. Que posso ter entrado ou não no clima do show. Que posso ter tido um problema na fila da entrada do evento. Que tenho desejos e frustrações. Você pode até me dizer: “Mas isso não pode te afetar, você deve ser profissional”. Eu adoraria saber qual profissional não é afetado? Ainda mais trabalhando com arte, com música. Mesmo tentando fortemente, as coisas nos afetam, é a nossa vida, é a arte de outro. 

Isso não é uma ode contra prêmios e listas (lembre-se, eu participo de quase todos que me chamam), mas um lembrete de que as premiações são apenas opiniões de um grupo de pessoas, às vezes de poucas pessoas. 

Outra coisa que tenho acompanhado muito em comissões de votação é “tal artista não precisa ganhar, já é boa demais”. Hummmmm. Ué? Entendo que o prêmio possa alavancar uma carreira (pelo menos na ideia, na realidade já não sei se funciona assim), mas então um artista já considerado um destaque não é mais premiado, pois não precisa? Vi isso acontecer em quase todas as comissões de que participei no ano passado. Tenho até brincado, se me permitem, que você vai saber que o auge chegou quando não ganhar mais prêmios. 

Prêmio é uma delícia de receber, ficar em primeiro em uma lista deve ser lindo. E claro que merece parabéns e foco, mas é tão difícil comparar. Cada um tem seus critérios. Tento ser justa, isenta e muito profissional. Mas, mesmo com tudo isso, sou apenas uma pessoa. E a arte, as diversas formas artísticas são maiores. Não é possível escolher o melhor. 

MÚSICA DA SEMANA

Ouça Triste, Louca ou Má: 

Essa música é da banda Francisco, el Hombre, formada por dois mexicanos, dois sorocabanos e um goiano que lançaram no ano passado o disco Soltasbruxa. Essa música tem um clipe maravilhoso gravado em Havana, Cuba, com um grupo de mulheres dançarinas cubanas que é uma preciosidade. Coisa mais linda. Recomendo que assim que acabar a leitura do jornal você procure no YouTube. O disco tem participações de Liniker, Salma Jô, Renata Essis e mais. 

 

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