Pedro Dimitrow
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Roberta Martinelli
Som a pino
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Som a Pino: ‘Por isso essa força...’

Duas mulheres trans, Assuscena Assucena e Raquel Virgínia, formaram a banda As Bahias e a Cozinha Mineira porque tinham a necessidade enorme de falar sobre racismo, feminismo, mundo, Brasil, arte...

Roberta Martinelli, O Estado de S. Paulo

30 de julho de 2019 | 02h00

Quanto de história tem numa música? Quando estudamos o período da ditadura, aprendemos também tantas canções: Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. Roda Viva do Chico Buarque, Taiguara, Caetano Veloso, Gil... e tantos outros que cantaram e enfrentaram esse triste momento do Brasil. Hoje, tantos outros e alguns desses ainda cantam o nosso momento e cantam outros momentos que já foram para não esquecermos jamais. Dizem que brasileiro tem memória curta, então sempre vale lembrar. 

*

Elas frequentavam o corredor da FFLCH na USP, eram estudantes de História e amantes de Gal Costa. Foi no corredor da faculdade, esse lugar de livre-pensar e recursos ameaçados, que surgiu a banda As Bahias e a Cozinha Mineira. 

Duas mulheres trans, Assuscena Assucena e Raquel Virgínia, se juntaram na faculdade com uma vontade (na época) ainda romântica de compor e ao mesmo tempo com uma necessidade enorme de falar sobre muitas coisas que estavam entaladas na garganta: racismo, feminismo, mundo, Brasil, arte... As duas juntas mergulham na obra de Gal Costa, uma imersão mesmo, fazem audições, conversam, estudam, cantam. E da influência inicial da cantora, elas se voltam para a própria obra e passam a compor, a buscar uma narrativa, um jogo poético, uma concepção musical e do encontro com Rafael Acerbi formam uma banda. 

De lá pra cá, muito coisa mudou, elas se firmaram  como artistas importantes: lançaram os discos: Mulher (2016) e Bixa (2018) e recentemente o terceiro disco da carreira: Tarântula. Já disponível em todas as plataformas digitais. O disco já vem com um recado no nome.

Você sabe o que foi a Operação Tarântula? “O papel do artista é muitas vezes relembrar seu público de algo que foi esquecido”, escreveu Raquel na sua conta no Instagram. A Operação Tarântula começou em 1987 com o objetivo de prender travestis e mulheres trans, um projeto de morte, um projeto do Estado brasileiro para dar fim à população trans. A operação durou pouco tempo (de fevereiro a março) graças à ação de ativistas, mas muitas pessoas foram assassinadas. 

E muitas pessoas ainda são assassinadas. 

Estudantes de História e artistas. Juntando tudo fica ainda mais potente. Pegar um pedaço não tão contado do Brasil, pegar algo esquecido e cantar bem alto. Afinal, de lá pra cá o mundo melhorou muito? O que você acha?

Na sexta-feira, dia 2 de agosto, tem show de lançamento do disco na Audio. “Nesse show não preciso dizer nada, tudo estará exposto em forma de arte”, diz Raquel que sem dizer nada nos disse tanto. Basta ouvir e se quiser falar, podemos cantar juntos. 

MÚSICA DA SEMANA

'Condução'

Música lançada no terceiro EP de Mariana Aydar, Veia Nordestina III, Condução é uma composição de Julio Estrela, Marcio Arantes e Gabriela Nogueira.

Na música, as mulheres é que conduzem na dança do forró, que sempre foi conduzida por homens: "Menino ou menina deixa eu te levar". Me leva ou te levo. 

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