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Sofia Coppola se une a Valentino para criar nova versão da ópera 'La Traviata'

A diretora americana e o estilista italiano estreiam a obra de Verdi, em Roma

Elisabetta Povoledo, The New York Times

25 de maio de 2016 | 15h47

ROMA - A soprano Francesca Dotto subia com elegância os degraus de uma escada de madeira provisória no espaço destinado aos ensaios no Teatro Nazionale de Roma, mas sua longa cauda ficou presa em um dos degraus.

Ouviu-se um discreto murmúrio entre o público onde o designer Valentino Garavani assistia ao ensaio da Traviata de Verdi, sentado ao lado de seu parceiro de muitos anos, Giancarlo Giammetti, e aos atuais diretores de criação da Maison Valentino, Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli.

“Ai, um vestido de alta costura”, brincou um dos assessores de imprensa cuja função permanente é acompanhar Valentino nas suas encarnações passadas e presentes.

Na realidade, era uma simples capa de tule branco em camadas superpostas que Francesca, a Violetta da ópera, havia jogado sobre seus jeans, para acostumar-se a se movimentar com uma longa cauda num palco de dimensões reduzidas.

Mas nas apresentações no Teatro dell’ Opera di Roma, que começaram dia 22 de maio, ela vestia o maravilhoso vestido de alta costura criado especialmente por Valentino, que levou 800 horas para ser produzido.

“Ela está se acostumando a estes trajes; não vejo a hora de vê-la subindo a escada de verdade”, disse recentemente a diretora Sofia Coppola, num intervalo do ensaio. No palco, a escada tem quase 7 metros de altura, para que a cauda do vestido verde possa ser admirada em todo o seu esplendor.

Esta é a estreia de Sofia na direção de uma ópera, que está sendo considerada uma façanha para o Teatro dell’ Opera, uma casa de espetáculos que está saindo aos poucos de um período de turbulência interna e financeira.

Valentino criou os quatro vestidos usados por Violetta, enquanto Chiuri e Piccioli criaram os costumes dos outros integrantes do elenco, inclusive dois vestidos de alta costura para a outra artista principal, Anna Malavasi, que fará o papel de Flora.

Valentino e Giammetti trabalham com afinco na produção, o primeiro projeto cultural da fundação que tem o nome de ambos. Os costumes do coro e dos personagens masculinos foram confeccionados pelo departamento de criação de figurinos do próprio teatro, que também fez as réplicas dos vestidos de Valentino para o elenco alternativo, em que Violetta é interpretada por Maria Grazia Schiavo.

Um amigo de Sofia Coppola - o designer de produção inglês Nathan Crowley, também conhecido por suas instalações de moda exibidas em museus (e em filmes de Batman) - criou os sets, enquanto a regência fica a cargo de Jader Bignamini, diretor adjunto da Orchestra Verdi de Milão.

“Foi uma reunião de pessoas totalmente fortuita, como às vezes acontece”, disse Carlo Fuortes, o gerente geral da Fundação Roma Opera House. Ele procurou contactar Sofia alguns anos atrás, para dirigir a ópera Così Fan Tutte, de Mozart para outro teatro, mas ela não estava com disponibilidade de tempo.

Todas as 15 apresentações desta série de La Traviata estão praticamente esgotadas. “Já é a maior bilheteria da história do teatro desde 1880”, disse Fuortes.

Elegância e beleza são os temas dominantes da atual edição desta obra, baseada no romance A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, uma constante nos repertórios dos teatros de todas as partes do mundo, reinventada em inúmeras versões, desde as peças minimalista até as modernas além das completas, como as apresentadas em meados do século 19.

“Queríamos fazer uma produção nova, uma produção moderna, moderna em termos de conceito, sem ser de vanguarda”, disse Giammetti, que com Valentino esteve presente à maioria dos ensaios, implicando discretamente com minúcias, como joias, leques e penteados. “O que estamos fazendo é muito tradicional, mas com certa provocação. É por isso que escolhemos Sofia Coppola, que traz uma visão moderna”. Marina Bianchi, diretora assistente de Sofia, observou que é “muito inusitado um estilista estar tão presente”.

Sofia disse: “Quando Valentino me convidou, pensei: ‘Não posso dizer não’ ”, mas se sentiu mais tranquila porque o ambiente da Ópera é Paris, onde ela mora “parte do tempo”, e pela experiência adquirida na direção de outro drama de época, Maria Antonieta, em 2006.

Entretanto, para La Traviata, ela disse: “Eu quis enfatizar o lado pessoal da cortesã francesa, frequentadora de festas, acostumada ao cena social. É um mundo extremamente feminino que eu adoro.””

Valentino, que se aposentou em 2008, voltou a trabalhar (“Não cheguei a me aposentar totalmente, estou sempre fazendo alguma coisa”, afirmou) para criar os vestidos de Violetta, um empreendimento raro no palco, apesar de sua declarada paixão pelo teatro.

Não é sua primeira incursão sob as luzes da ribalta: há cerca de 20 anos, ele criou o figurino de uma ópera que teve vida breve, sobre a vida de Rodolfo Valentino; mais recentemente, ele desenhou o guarda-roupa dos integrantes do Balé da Ópera Estadual de Viena. Foi um alívio constatar que os primeiros papéis femininos da Traviata eram interpretados por cantoras magras, ao contrário das sopranos da juventude de Valentino, que “frequentemente eram muito volumosas”, ele disse.

“Tenho ainda a minha capacidade de criar”, declarou. “Amanhã, eu poderia fazer um desfile de modas com 100 vestidos sem nenhum problema”.

Chiuri e Piccioli já se cruzaram no mundo da ópera, colaborando com os cenógrafos do Teatro Dell’ Opera di Roma para a sua coleção de primavera de 2014, que comemorou as heroínas da ópera.

“A ópera, como a alta costura, é considerada algo do passado, um tanto démodé, obsoleta, entretanto, ela precisa ser redescoberta,” disse Chiuri, e esta é aí que a moda pode colaborar.

Assim como a alta costura, a ópera está repleta de “artesãos de grande criatividade e perícia”, concordaram Piccioli e Chiuri. 

O desafio de criar figurinos para Malavasi e o coro feminino - um contraponto a Violeta em sua escolha de cores, refletindo a atmosfera cada vez mais triste do drama - era “preservar a leveza que para nós é uma prerrogativa,” e fazer com que ela funcionasse sob as luzes fortes do palco, segundo Chiuri.

“Procuramos criar um grande quadro, como se fosse uma pintura”, disse Piccioli, “porque no fim, o que impressiona na ópera é a grandiosidade doa cena, por isso quisemos vestir todas estas pessoas presentes em cena como se fizessem parte de um todo”.

Pequenos toques - substituindo o paletó de um smoking pelo paletó de caça que Alfredo Germont, o amante de Violetta, veste convencionalmente no segundo ato - tinham como finalidade ressaltar a abordagem íntima da ópera de Sofia.

“Desde a primeira reunião, concordamos com o espírito e a abordagem em relação à ópera,” disse Piccioli. “Com designers e uma diretora de cinema, poderíamos ter transformado a ópera em algo mais. No entanto, optamos por uma maior sutileza, buscando as emoções e não grandes efeitos. Quisemos dotar esta ópera de um caráter pessoal”.

“E contribuir com as nossas experiências individuais, trabalhando sobre a matriz de uma ópera clássica”, acrescentou Chiuri.

Para as cantoras, vestir roupas de alta costura foi a realização de “todos os sonhos de qualquer mulher”, disse Malavasi, brincando que, como mezzo-soprano, em geral ela tem o papel de ciganas vestidas com trajes desconjuntados. Vestir uma peça da Maison Valentino foi “emocionante, como vestir uma obra de arte,” ela comentou. Dotto disse que sentiu uma enorme responsabilidade usar seus vestidos “com indiferença e elegância”, e agradeceu pelo fato de Valentino e Giammetti terem se mostrado muito práticos durante os ensaios, assegurando-se de que os vestidos “me fizessem sentir à vontade”.

“Não é um desfile de moda”, afirmou. “É importante que o vestido seja maravilhoso, mas também funcional para a ação”. Não obstante, ela disse que estava “um pouco aterrorizada” com a possibilidade de que alguma coisa acontecesse com as roupas, “principalmente nas cenas em que devo cair”, disse a soprano. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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