Francisco Longa/Divulgação
Francisco Longa/Divulgação

Sobrevida elétrica

Pet Shop Boys voltam com dance pop revigorado em novo disco, o melhor em mais de uma década

Roberto Nascimento , O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2013 | 19h10

Tanto a música quanto as circunstâncias fazem do novo do Pet Shop Boys um respeitável passo discográfico. São 27 anos de estrada marcados por um amadurecimento digno, que manteve Chris Lowe e Neil Tennant entre veteranos de bom gosto durante a última década mesmo que à custa do ocasional botox fashionista em suas turnês. Também abriram uma gravadora - a x2 -, fizeram turnê e lançaram dois discos em menos de um ano. Elysium, o último, é tão sonolento que os acertos pulsantes de Electric, recém-chegado às lojas, parecem choques de reanimação cardíaca (nunca um título de disco do Pet Shop Boys foi tão direto).

Como parceiros, Chris Lowe e Neil Tennant parecem ter alcançado um vale-tudo composicional que apenas satisfaz a demanda por material inédito. Frases nonsense como "Bolshy, bolshy, bolshy", ou "Love is a Bourgeois Construct", com seus ares de tratado filosófico, viram refrão e, longe de memoráveis, soam preguiçosas - no caso da segunda, o resultado beira o patético, com ares enfadonhos de megarrave pós-Daft Punk e ecos de Go West para atrair a velha clientela gay da dupla.

Mas se a criação de tutano musical já viveu dias melhores na escrivaninha de Neil e Chris, a sensibilidade de saber se cercar de pessoas certas (vista já há algum tempo nos figurinos das turnês) continua excelente. Em Electric, agrega o produtor Stuart Price, veterano do house parisiense, conhecido por fazer um face-lift no som de Madonna em meados dos anos 2000. Voilá. Quatro ou cinco faixas adentro do disco, Stuart toma posse do disco e inverte sua hierarquia. De repente - de Fluorescent em diante, para ser exato - Neil e Chris passam a trabalhar para o produtor, como se fossem convidados a participar em seu próprio disco - ou como se Stuart tivesse os remixando.

Assim, sintetizadores, batida e climas tornam-se tão importantes - ou mais - quanto a canção em si, como deve ser em um disco de pista. Stuart trabalha em uma eficaz gama de referências antigas e contemporâneas, com sacadas de house vintage, piscadelas aos primórdios do Pet Shop Boys, e macetes de Electronic Dance Music atual.

O miolo do disco - de Fluorescent a Shouting in the Evening - em que Price trabalha essas referências, faz de Electric o melhor disco do Pet Shop Boys em mais de uma década. Traz também o melhor refrão do duo recentemente: um cover de The Last to Die, de Bruce Springsteen, exemplo do faro para adaptações que Neil e Chris mostram desde Always on My Mind.

A progressão de Shouting in the Evening a Vocal, a nona música do disco, sugere que o toque de Price cairia na mesmice bate-estaca de um Swedish House Mafia se Electric tivesse mais faixas. Mas é o fim da linha, Chris e Neil estão salvos, as críticas são merecidamente positivas e uma sobrevida digna está garantida. Mesmo assim, algo em Electric diz que os dois cinquentões estão tomando chá com biscoitos debaixo de uma manta em vez de comemorando com champanhe.

 

ELECTRIC

X2 RECORDS

R$ 74,90 ou US$ 9,99 (iTunes)

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