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Slash fala do novo disco 'World on Fire' e da turnê que fará no País

Guitarrista vai tocar em 6 cidades do País

Entrevista com

Slash

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo, O Estado de S. Paulo

04 de novembro de 2014 | 03h00

Há um incêndio sob a chuva rala, dizia o poeta. Botando fogo no mundo, vem aí o lendário guitarrista Slash, ex-Guns N’ Roses, a bordo de sua portentosa turnê World on Fire, para abrir o ano no Brasil. Ela passa pelo Rio (Fundição Progresso, no dia 14 de março), Belo Horizonte (Galopeira, dia 15), Brasília (Net Live, dia 17), Curitiba (Master Hall, dia 19), Porto Alegre (Pepsi on Stage, dia 20) e São Paulo (Espaço das Américas, dia 22).

Slash excursiona com a banda do vocalista Myles Kennedy, The Conspirators, que inclui o baixista Todd Kerns e o baterista Brent Fitz. Produzido por Elvis Baskette (que já trabalhou com Incubus e Falling in Reverse) no estúdio Barbarossa, em Orlando, o novo álbum dessa parceria (o terceiro solo da carreira de Slash) é um petardo.

Saul Hudson, o Slash, é um guitarrista cujo nome pode ser sempre encontrado tranquilamente nas listas dos 10 melhores do mundo (a revista Time já o colocou em segundo, atrás apenas de Jimi Hendrix). Desde que largou o Guns N’ Roses, em 1996, nem sempre colocou sua guitarra a serviço do melhor time, mas invariavelmente sua guitarra se destaca.

Na letra de World on Fire, você diz: “É hora de botar fogo no mundo (...)/Ele pode nunca mais ser o mesmo de novo”. Estamos vivendo uma época de muitas manifestações pelo mundo, o movimento Occupy, a Primavera Árabe. É algum tipo de manifesto político?

Essa música não é política. É mais pessoal, é sobre ter de fazer uma grande mudança nos relacionamentos para continuar vivendo. Parece política, mas todo mundo personaliza o sentido de uma canção como quiser. Nós vimos que coincidia com um momento de mudança louca e imprevisível que está acontecendo no mundo, mas, na origem, não tem esse sentido.

O novo disco de sua banda tem 17 canções. Não é algo muito comum num disco de hard rock.

Fiz isso porque acho que as pessoas não se dão conta de uma coisa: quando a gente lança faixas bônus tempos depois de um disco, da circunstância em que aquelas músicas foram feitas. Em geral, é mais lucrativo fazer isso, lançar sobras depois. Mas, quando fizemos o disco, compusemos muito material, e eu pensei que seria melhor que tudo fosse lançado. As músicas que são desse disco estão nesse disco, não sairão depois.

Você disse, sobre esse novo disco, que era “um disco feliz com algum conteúdo sombrio”. O que quis dizer?

Basicamente, que há alguns temas mais dark. Mas não é também essa tristeza (risos). A canção Shadow Life, por exemplo, é sobre uso de drogas. A canção The Unholy é uma música sombria. Mas, em geral, é um disco para cima.

Tem essa música 30 Years to Life, que fala de um “dezembro frio”. Parece uma referência ao Guns N’ Roses, que fará 30 anos no ano que vem e que tem como um dos seus hits a canção November Rain.

(Risos) Não pensei sobre isso, não tem nada a ver. As pessoas pensam que eu penso mais sobre Guns N’ Roses do que eu realmente penso. Eu quase nunca penso.

Mas você nunca realmente consideraria tocar com o Guns de novo, por exemplo, uma única noite, como num evento beneficente ou na noite do Rock’n’Roll Hall of Fame?

Não é algo que eu tenha em mente. Geralmente, as bandas fazem isso por dinheiro, e eu não preciso de dinheiro. Mas certamente, se fosse uma ação beneficente ou algo assim, para apoiar uma causa, penso que não seria o fim do mundo subir ao palco. Contudo, não é algo que esteja ao meu alcance. Isso dependeria de uma ligação coletiva, mais gente está envolvida, não sou só eu.

Você está fazendo seu segundo disco com essa banda, Myles Kennedy and the Conspirators. O cantor, Myles, parece um cara mais romântico que você, que sempre teve essa imagem de punk. Estou muito errado?

Talvez um pouquinho. Myles, de fato, é muito cavalheiresco, é um cara de bons modos. Sou um pouco mais punk rock. Mas é o que sou. Já tentei ser de outros jeitos, não fui bem-sucedido. Sou isso aqui mesmo.

Você divulgou uma linda nota de despedida do baixista Jack Bruce, que morreu há alguns dias. “Ele foi um príncipe, um ícone de sua geração, da minha e das que virão”. Bruce e a banda Cream foram influentes para você?

Nasci naquela época em Londres quando pontificava o blues rock, havia Led Zeppelin, Cream, Bluesbreakers. Era a música que tocava, era a música que eu ouvia. No começo, o Cream era o que mais me chamava a atenção. Depois, já profissional, eu encontrei Jack Bruce algumas vezes, foi uma honra para mim tê-lo conhecido. Era uma pessoa extraordinária, um gentleman. Você sabe, às vezes os heróis da gente são uns idiotas, mas ele era aquele tipo de pessoal cool. Ele era um ídolo, assim como Ginger Baker, Eric Clapton.

Entre as novas canções, há músicas que são heavy metal no sentido clássico, como Dirty Girl e Avalon. Já Automatic Overdrive abre com um tipo de som de punk retrô. 30 Years to Life tem sabor de blues rock. Essa variedade é uma meta quando você está compondo?

Componho o que eu componho. Sempre saem diferentes tipos de coisas. Eu acho que, se fizer somente um tipo de coisa, vou me repetir e ficar insatisfeito. Nunca faço duas vezes a mesma coisa. Além disso, tem a banda. Esses caras são grandes músicos. Myles Kennedy é um tipo de cantor que tem uma grande diversidade vocal. Nós manobramos para que o repertório privilegie toda a banda, que nos aproxime enquanto um grupo.

Você hoje é uma lenda do rock. E eis que está iniciando uma nova turnê, toda essa rotina de novo de hotéis e aeroportos. Isso ainda o deixa entusiasmado?

Eu amo. Na verdade, nunca parei muito. Saí do Guns, excursionei solo, fiz shows como convidado, depois com o grupo Snakepit, depois com o Velvet Revolver, agora com os Conspirators. Acho que minha motivação sempre foram os shows, mais do que os discos. Eu amo fazer os shows, amo estar em movimento.

Banda é veículo ideal para guitarra brilhar sem mácula

O novo disco de Slash feat. Myles Kennedy and The Conspirators, World on Fire (Lançamento Warner Music), para quem ama pescar riffs e solos de guitarra invulgares, é uma maravilha. Da primeira faixa, World on Fire, até a 17.ª, The Unholy, é uma festa da versatilidade. Slash está inspirado. Myles Kennedy é de fato um cantor excepcional, mas falta-lhe alguma sujeira típica dos antigos parceiros de Slash - especialmente Axl Rose e Scott Weiland. Isso não é tão importante, porque o baterista Brent Fitz é uma bola de demolição de grande impacto no álbum.

Slash até brincou com as baladas tipicamente Guns, como Battleground e Bent to Fly, que começam com um dedilhado plácido, mas depois explodem em coro e solo de guitarra. Veículo ideal para que Slash brilhe, a banda de Myles Kennedy também trabalha bem com a lírica, a poesia. Tem bons achados no meio. “Sou um belo desastre”, canta o vocalista, em World on Fire.

A banda até acha um jeito de brincar com alguns gêneros, enfiando na introdução de The Dissident um som hillbilly ao banjo, uma gravação dos anos 1940 em que alguém parece estar clamando pelo paradeiro do seu trator. O grupo parece estar disposto a confrontar alguns dogmas do hard rock, mas também sem pirar muito.

Myles Kennedy vem de Boston (onde teve intimidade com o universo do Aerosmith) e cantou com um grupo chamado Alter Bridge, em que conheceu o produtor do disco, Baskette. Kennedy tem uma voz educada, sabe cantar qualquer gênero, além de ter a potência necessária. Muitas vezes, lembra, como em Automatic Overdrive, os vocais clássicos, como Ian Gillan. Em outras, como em 30 Years to Life (que tem a guitarra acelerada e parece, no início, alguma coisa dos Allman Brothers), ele evoca o próprio Axl Rose.

Segundo o próprio Slash, a diversidade do disco tem a ver com um sistema democrático - todo o grupo tem sua chance de solar, mas o baixo de Todd Kerns quase não comparece, é meio protocolar. Mas o vocal é complementar.

Muito bem produzido, com overdubs a torto e à direita, e muitos efeitos (mais audíveis em faixas como Safari Inn, talvez o solo mais uniforme e esculpido do álbum), o disco pode até parecer calculado demais, mas só dará para checar se funciona no palco quando Slash desembarcar por aqui. / J.M.

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