Sinfônica de Chicago apresenta-se em SP

Em um ano no qual São Paulo tem aplaudido as apresentações de uma grande quantidade de orquestras européias - Filarmônica de Berlim, Filarmônica Checa, Sinfônica de Praga, Sinfônica da Rádio de Moscou, Sinfônica da Rádio de Viena, só para citar alguns exemplos - a Orquestra Sinfônica de Chicago, que se apresenta a partir de quinta-feira na Sala São Paulo, dentro da programação da Sociedade de Cultura Artística, é uma das poucas representantes norte-americanas da temporada.Criado em 1890, o grupo inicia na quinta sua primeira turnê pela América do Sul: serão três concertos em São Paulo, um no Rio e três em Buenos Aires. Os concertos em terras argentinas marcam os 50 anos do primeiro recital dado por Barenboim em sua cidade natal, quando contava apenas 7 anos de idade. "Desde que assumi a direção da orquestra, há 15 anos, venho lutando para levá-la à América do Sul e, este ano, como está se completando o 50.º aniversário da estréia de Barenboim na Argentina, o projeto acabou por se concretizar", conta Henry Fogel, presidente da orquestra, em entrevista.No programa das apresentações, o destaque é a presença do compositor austríaco Gustav Mahler, de quem a orquestra interpreta a Sinfonia n.º 1 e a pouco executada Sinfonia n.º 7. "A presença de Mahler no programa foi uma das condições impostas pelo maestro e pela direção da orquestra para a realização dos concertos", indica Fogel. Também estão nos programas o Concerto para Piano e Orquestra n.º 25, de Mozart (com Barenboim ao piano), Prelude à L´aprs-midi D´un Faune e La Mer, de Debussy, e El Sombrero de Tres Picos, de Manuel De Falla, esta com a participação da meio-soprano argentina Alejandra Malvino.Barenboim assumiu a orquestra em 1990, após a morte de seu predecessor, o húngaro Georg Solti, um dos maiores maestros do século 20. "Sua maneira divertida e aberta de trabalhar foi essencial na transformação da orquestra em um dos principais grupos sinfônicos do cenário mundial", acredita Fogel, que lembra, no entanto, que Solti foi um dos responsáveis pela demora da primeira turnê à América Latina. "Ele nunca soube explicar o porquê, mas resistiu muito à idéia de excursionar pela América Latina, preferindo limitar as viagens da orquestra para a Europa e o Japão."Constelação - A excelência de maestros como Solti e Barenboim à sua frente não é algo único na história da orquestra. Desde seu primeiro regente - o então principal maestro norte-americano Theodore Thomas, que, à convite de Norman Fay, importante homem de negócios de Chicago, fundou a formação - a Sinfônica de Chicago tem sido dirigida por grandes nomes da regência internacional como Desiré Defauw, Artur Rodzinski, Rafael Kubelik e Fritz Reiner. No início da década de 60, o italiano Carlo Maria Giulini foi escolhido primeiro regente regular da orquestra, cargo que seria ocupado mais tarde por Claudio Abbado e Pierre Boulez. "Ao longo dos anos em que trabalhei com orquestras como a Sinfônica Nacional de Washington e a Filarmônica de Nova York, aprendi que ter um grande regente é uma das condições essenciais para que uma orquestra alcance sua excelência artística", indica Fogel.As outras exigências, em sua opinião, são, em primeiro lugar, a presença de uma equipe dedicada integralmente à orquestra e ao seu desenvolvimento interno; em segundo lugar, dinheiro. "Só assim é possível contratar os melhores músicos disponíveis e mantê-los na orquestra."Gravações - Essa busca pela qualidade sonora da Sinfônica de Chicago está documentada em grande número de gravações para importantes selos de música erudita como a Decca Records, gravadora que acompanhou por muitos anos o trabalho de Sir Georg Solti. São mais de 900 títulos, que remontam ao ano de 1916, quando a orquestra foi o primeiro grupo norte-americano a gravar suas apresentações.Atualmente, no entanto, da mesma forma que outros grupos dos Estados Unidos, a Sinfônica de Chicago tem tido problemas para despertar interesse nas gravadoras por novas gravações. Para Fogel, há duas razões principais para isso. "Desde 1950, as orquestras têm gravado praticamente todo o repertório, o que faz com que investir na gravação de obras já disponíveis no mercado não seja muito interessante comercialmente." Outra razão está relacionada à qualidade dos CDs. "As pessoas não reparam muito nisso, mas, há algum tempo, na época dos LPs, a fragilidade do material fazia com que as pessoas fossem obrigadas a comprar novos discos. Já hoje, com os CDs, você pode ouvir milhares de vezes que a qualidade não diminui."O desinteresse das gravadoras fez com que as principais orquestras norte-americanas, entre elas a Sinfônica de Chicago, assinassem um acordo que prevê a disponibilização de gravações na Internet. "Pode ser uma saída interessante, mas ainda não sabemos como o mercado da Internet vai reagir, quanto as pessoas estarão dispostas a pagar por essas gravações e, além disso, o número de pessoas que têm a tecnologia para fazer esses downloads ainda é muito pequeno: é preciso ter muita paciência."Finanças - Ao contrário de grande parte das orquestras européias, que conta com subvenção governamental, a Sinfônica de Chicago obtém incentivos exclusivamente da iniciativa privada. "A maior parte dos funcionários da orquestra trabalha no nosso sistema financeiro", brinca Fogel, que administra uma quantia de aproximadamente US$ 16 milhões por ano. "Quase 80% da renda é obtida de pessoas físicas, sobrando uma pequena parte que vem de corporações e empresas", revela.Fogel acredita que esta é uma tendência que, nos próximos anos, deve se firmar também na Europa. "As orquestras européias estão começando a perceber que o apoio exclusivo do governo gera complicações como a interferência direta no trabalho artístico do grupo, por exemplo." Já quando há uma diversidade de patrocinadores, acredita Fogel, a possibilidade de intervenção é menor. "Assim, ninguém pode te ameaçar financeiramente e, no nosso caso, deixamos claro para o patrocinador que não admitimos este tipo de interferência", atesta. No entanto, a necessidade de agradar está sempre presente. "O departamento financeiro não se preocupa apenas com a obtenção de patrocínio, mas, também, procura garantir a ´felicidade´ dos investidores convidando-os para festas e recepções com a presença do maestro, por exemplo."Para Fogel, no entanto, as orquestras européias ainda têm um longo caminho a percorrer em relação à iniciativa privada. "Em muitos países, a compensação financeira para os investidores não é muito boa e, além disso, há uma cultura de apoio governamental com raízes muito profundas." No entanto, Fogel vê a questão como a saída para a situação de algumas orquestras. "Todo ano, recebo dois ou três representantes de orquestras européias interessados em ver como levantamos o dinheiro para nossas temporadas e turnês."Orquestra Sinfônica de Chicago. Regência de Daniel Barenboim - Quinta, sexta e sábado, às 21 horas. De R$ 120,00 a R$ 280,00. Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, s/n.º, tel. 3351-8000.

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