Sinfônica Brasileira interpreta <i>Libera me</i> no Rio

A espera durou 185 anos. Mas o Libera me, final escrito no Brasil pelo austríaco Sigismund Neukomm para o Réquiem, deixado incompleto por Mozart, voltou a ser ouvido no Rio, local de sua estréia. Foi no sábado, durante concerto em que a Sinfônica Brasileira executou, ao lado do Réquiem, sobre a Transmigração das Almas, homenagem do americano John Adams às vítimas do 11 de Setembro. Um concerto começa, antes mesmo de a música soar, com a escolha das peças. Aqui, o tema parecia ser a morte - e como lidamos com ela. Mas revelou-se ainda um mosaico de olhares sobre a história. O Manuscrito do Rio de Janeiro, como ficou conhecida esta versão do Réquiem, surgiu em 1819. Anos antes, Neukomm chegara ao Brasil, acompanhando a comitiva do duque de Luxemburgo. Ficou aqui alguns anos - e os relatos de sua estada são conflitantes. Durante muitos anos, eram divulgados textos e trechos de cartas suas em que exaltava o País, seu clima, etc. Recentemente, porém, descobriu-se que Neukomm não via a hora de deixar o País - só não o fazia, pois "não ganhava dinheiro suficiente para pagar a passagem" - e que tinha sérias críticas à "mediocridade" da vida musical brasileira. Essas declarações são de 1817. Dois anos mais tarde, porém, ele trabalharia com padre José Maurício Nunes Garcia, grande nome de nossa música colonial, cujo talento reconhecia, divulgando inclusive sua obra no exterior. O brasileiro havia decidido patrocinar uma execução do Réquiem de Mozart para homenagear uma série de músicos que haviam morrido recentemente. O Réquiem segue as partes da missa dos mortos da tradição católica. Mozart escreveu apenas parte dele, morrendo durante a escrita do Lacrymosa, em 1791. Um de seus alunos, Sussmayr, completou a obra, mas sem o Libera me, última parte da missa católica. Em acordo com padre José Maurício, Neukomm então escreveu este Libera me. A partitura ficou perdida durante mais de um século. Nos anos 90, foi recuperada. Recentemente, surgiu uma gravação na França. E, no sábado, ganhou sua primeira execução contemporânea. O que dizer da partitura de Neukomm? Bom, de cara, que ela sofre do mesmo problema que os acréscimos de Sussmayr: não são de Mozart e, portanto, será sempre inevitável ficarmos imaginando como ele próprio resolveria as exigências destas partes, em especial o Libera me, de caráter bastante dramático, momento em que se pede a Deus que liberte os homens da morte eterna e de sua ira quando os céus ocuparem a Terra. Mas é muito interessante a maneira como Neukomm recapitula os principais temas que Mozart apresenta ao longo da partitura, oferecendo um final consistente e convincente à obra. Ainda mais quando bem interpretada, com a OSB comandada por Roberto Minczuk e a participação do Coro Sinfônico do Rio de Janeiro e de um excepcional quarteto de solistas, formado por Carol McDavitt, Adriana Clis, Geílson Santos e Stephen Bronk. Mas, para além da música, há um caráter histórico que não pode ser ignorado nessa reestréia. Ouvir o Libera me de Neukomm é como voltar no tempo e reencontrar um outro momento de nossa história cultural, é relembrar figuras tão importantes como Padre José Maurício e voltar a afirmar a importância de se resgatar o nosso acervo musical. E é sob o signo da história que se pode ler também Sobre a Transmigração das Almas, de John Adams, peça de 2002. Foi a primeira obra sinfônica a se referir aos ataques de 11 de setembro de 2001. Adams sempre se interessou por temas espinhosos - Dr. Atomic, sua ópera anterior, por exemplo, relembra o contexto do surgimento da bomba atômica. Transmigração propõe a integração da orquestra com gravações em que são lidos nomes de vítimas dos ataques e palavras como "Desaparecido" ou "Lembre-se". O resultado é impactante, mas talvez seja cedo para saber se, como quer o compositor, a obra vai desvincular-se do tema que a inspirou para se transformar em "uma catedral onde as pessoas possam ir para refletir sobre os rumos da humanidade". É preciso tempo para saber se ela permanecerá como símbolo de algo que não apenas a necessidade do artista de dialogar por meio de seu trabalho com o tempo em que vive. O que, por ora, é suficiente. O repórter viajou a convite da orquestra

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