"Sinfonia do Rio" sai em CD e DVD

Haverá no mundo uma cidade mais cantada que o Rio? Viena poderia ser uma, mas seus compositores, por motivo de força maior, fecharam o piano em 1914. Paris seria outra - se a música popular francesa fosse mais criativa e menos derivativa. E Nova York, tão musical, prefere cantar a si própria em imagens. Já o Rio, que completou 500 anos de sua descoberta no dia 2 de janeiro último, tem se cantado quase desde então e produzido um legado que se confunde com a história da música brasileira. Seu estoque de ritmos, primitivos e sofisticados, negros, brancos e as misturas resultantes - batuques, lundus, modinhas, valsas, tanguinhos, maxixes, serestas, choros, marchas, até chegar ao rei dos ritmos, o samba, com todos os ingredientes que o formaram e continuam formando -, não tem igual na música popular de nenhuma parte. Para isto, ajudaram a topografia da cidade, com sua acachapante combinação de mar, montanha e intervenção humana, e a mestiçagem cultural, que desde sempre a marcou e produziu sua chiquérrima vira-latice. (Que outra cidade se atreveria a ter, como hino oficial, uma musiquinha fuleira, como a marchinha Cidade Maravilhosa, de André Filho, sucesso do carnaval de 1935?)A música do Rio nunca se envergonhou de ser auto-referencial, e tem bons motivos para isso: era aqui que as histórias aconteciam e, não importava de onde viessem, era onde moravam os criadores, os cronistas, os cantores - aliás, continua sendo. Imagine, como unidade musical, um CD com 14 faixas. Pois não há região ou bairro da cidade que não comporte pelo menos um CD a seu respeito. Donde, nesse mar de músicas que falam do Rio, ainda haveria espaço para alguma coisa?O carioca Francis Hime provou que sim, com sua cinemascópica Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião, estreada no Teatro Municipal do Rio, no dia 30 de novembro de 2000, e a sair agora em abril, pelo selo Biscoito Fino, em CD e num insuperável DVD - este, já candidato a ser o melhor produto do ano. É uma grande trilha sonora para o Rio e, como é típico da cidade, fruto de cariocas de todo o Brasil. Seu idealizador e autor do libreto foi o baiano Ricardo Cravo Albin. As letras, contando uma história musical que vai de Estácio de Sá ao penúltimo carnaval, são do mineiro Geraldo Carneiro e do carioca Paulo César Pinheiro. Seus intérpretes são o pernambucano Lenine, a carioca Olivia Hime, o capixaba Zé Renato, a paraense Leila Pinheiro e o mineiro Sérgio Santos. Gato que nasce em forno não é biscoito, e essa congregação de talentos vindos de todas as partes, mas há muito instalados no Rio, não podia ser mais carioca.Trata-se de uma "sinfonia popular", conceito que, em outros tempos, provocaria discussões entre eruditos. Mas, se o tema dessa sinfonia é o Rio, os eruditos não discutem, dançam, e, em muitas passagens, as 72 figuras da orquestra e do coro cedem espaço aos oito ritmistas, entre os quais o insuperável Wilson das Neves. Seus 49 minutos de beleza e bom humor compõem-se de uma abertura, cinco movimentos e um final, com cada movimento descrevendo a evolução musical da cidade: o lundu do Rio colonial (1502-1822), a modinha do Império (1822-1889), o choro da belle époque (1889-1930), o samba da "época de ouro" (1930-1960) e o Rio contemporâneo, da bossa nova e além (de 1960 até hoje). A música de Hime parece "moderna" mesmo quando evoca o espírito de épocas tão passadas, como a do lundu e da modinha - reproduzindo a sensação de perenidade que ainda se tem hoje ao ir, digamos, do Leblon à Lapa, e constatar que, em menos de 30 minutos, estamos atravessando 300 anos de história. Neste ponto, é uma vitória do compositor, que não precisou recorrer a pastiches musicais para dar seu recado. Mas, enfim, nem se esperava diferente de Francis Hime, um dos músicos mais completos de sua geração, a primeira que surgiu com a bossa nova e ainda produziu Marcos Valle, Edu Lobo e Dori Caymmi. As letras também são inspiradíssimas e, com elas, seus autores, já donos de pesado currículo, se inscrevem de vez entre os melhores cronistas da cidade. No meio da aparente leviandade, em que versos como "Mamãe, eu quero mamar" se intrometem em achados "poéticos" e "sublimes", Geraldinho Carneiro e Paulinho Pinheiro conseguiram condensar maravilhosamente a mistureba cultural carioca. "Sabe o monarca balofo/ Que armou seu cafofo/ No fofo do Paço Imperial?/ E na partida levou a mobília/ O chofer e a família/ Pra ver Portugal?/ Sabe o solar da marquesa/ O bordel da francesa, o boquete etc. e tal?/ Sabe essa gente surfando/ Ou pingente no trem da Central?/ Pois é, sabe, morena/ Eu não troco esse Rio por nada/ Mesmo levando flechada/ Tomei mais pancada que o Villegagnon tomou." É um permanente oba-oba, mas terrivelmente crítico, como deve ser, e com o deboche dos sketches do velho teatro de revista (por sinal, dos poucos tópicos de que as letras não falaram). É também um desfile de índios, piratas, barões, tubarões, macumbeiros, sambistas, pescadores, banhistas, garotas de Ipanema e muitas referências, diretas ou veladas, a uma infinidade de bairros, praias e acidentes geográficos, todos imediatamente reconhecíveis por qualquer brasileiro - a provar que o Rio é a cidade nacional por excelência. E é também "o inferno, o purgatório e o paraíso" que, segundo os autores, o poeta italiano Dante Alighieri reconheceria, "se pintasse nessas paradas daqui". Os únicos reverenciados de ponta a ponta são os criadores musicais, os homens e mulheres que construíram, pelos séculos, o cotidiano sonoro do Rio: Chiquinha Gonzaga, Callado, Nazareth, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Villa-Lobos, Benedito Lacerda, Luperce Miranda, Canhoto, Garoto, Luiz Americano, Paulo da Portela, Cartola, Bide, Marçal, Ismael Silva, Silas de Oliveira, Heitor dos Prazes, João da Baiana, Donga, Sinhô, Noel, Clementina, Radamés Gnatalli, Raphael Rabello, Joel do Bandolim, Tom, Vinicius, o Galo Preto, a Camerata Carioca, o Época de Ouro, o Nó em Pingo d´Água. Eles entram e saem da sinfonia sem pedir licença, sem ordem, podendo estar ao mesmo tempo no terreiro da tia Ciata, nos palácios, no carnaval - como foi e é na vida real. O CD de Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião pode abrir portas a que outros compositores brasileiros se aventurem por esse terreno. Mas é o DVD do concerto no Municipal que é um verdadeiro divisor de águas no Brasil. É um primor de edição (a cargo de João Paulo Carvalho), intercalando as imagens de palco com tomadas do Rio, aéreas ou não, e dando à música um contraponto visual de tirar o fôlego. Que se lhe compare, só conheço o vídeo do concerto de On the Town, de Leonard Bernstein, gravado em 1993 em Londres e lançado em videolaser pela Deutsche Grammophon, com direção de Christopher Swann - a mesma intercalação de um espetáculo ao vivo com imagens (nesse caso, de arquivo) de uma cidade (Nova York).Fui um dos privilegiados que assistiram à estréia da Sinfonia de Francis Hime no Municipal, há pouco mais de um ano, e constatei a emoção que tomou conta da platéia de convidados - a qual ia de Fernanda Montenegro a deliciosas figuras da rua, que ninguém sabia como tinham ido parar ali. Em certos momentos, a música de Francis fez a platéia sentir ganas de subir nas poltronas e cantar junto. O importante neste DVD é que ele anula a frieza digital e reproduz essa emoção - e, como você estará em sua casa, ninguém poderá impedi-lo de subir na sua própria poltrona e esbaldar-se. O DVD comporta leitura em qualquer das quatro regiões, o que significa que, assim que for lançado, boa parte de seu estoque vai rapidamente para os Estados Unidos, Europa e Japão - não por acaso, já vem com legendas em inglês, francês, espanhol e até mesmo em português, indispensáveis para se acompanhar a letra. Mas o ideal, se valer torcida, seria que ele fosse mais visto por aqui mesmo. O Rio passa por um extraordinário processo de recuperação de auto-estima, que já não é de hoje - uma auto-estima que inclui autocrítica e cidadãos de mangas arregaçadas a favor da cidade (inclusive contra o dengue). Quando o Rio se ama, todo o Brasil melhora. A belíssima Sinfonia de Francis Hime é uma prova desse amor. Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião. Música de Francis Hime, letras de Geraldo Carneiro e Paulo César Pinheiro. CD e DVD da Biscoito Fino (R. Sarapuí, 8, Rio, tel. 0--21-2527-3579). Lançamento em abril. Preços médios: R$ 20 (CD) e R$ 35 (DVD).

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.