Ellius Grace/The New York Times
Ellius Grace/The New York Times

Sinead O’Connor se lembra de tudo de um jeito diferente

A narrativa do mainstream conta que a estrela pop rasgou uma foto do papa no ‘Saturday Night Live’ e descarrilhou sua vida. Mas e se a verdade fosse o oposto?

Amanda Hess, The New York Times

24 de maio de 2021 | 12h00

Sinead O’Connor está sozinha, que é o jeito como ela gosta de estar. Vem enfrentando a pandemia num pequeno vilarejo no alto de uma montanha irlandesa, assistindo a séries de assassinato, comprando bugigangas de jardim online e seguindo as notícias americanas na CNN. Numa tarde nublada das últimas semanas, ela tinha um hijab azul marinho sobre a cabeça raspada e um cigarro permanentemente instalado entre as pontas dos dedos. Debruçada sobre o iPad dentro de um jardim de inverno todo de vidro, parecia hermeticamente fechada dentro de seu mundinho.

“Tenho muita sorte”, disse ela, “porque gosto da minha própria companhia”.

Seu chalé foi decorado com cores brilhantes e saturadas que saltavam do monótono pano de fundo do céu irlandês, com aquela qualidade surreal dos livros de pop-up. Rosas cor de chiclete cobriam as janelas, e a deusa hindu Durga estendia seus oito braços sobre a coberta num aconchegante sofá de cerejeira. Quando O’Connor, 54 anos, me levou para um pequeno tour pelo iPad durante nossa entrevista em vídeo, o lugar pareceu dobrar sobre si mesmo: as flores eram falsas, compradas na Amazon, e seu belo par de cadeiras de veludo não eram feitas para sentar.

“Comprei cadeiras deliberadamente desconfortáveis, porque não gosto que as pessoas fiquem muito tempo”, disse ela. “Prefiro ficar na minha”. Mas ela confessou tudo isso com uma risada tão malandra que soou quase como um convite.

Não importa quanto ela tente lutar contra isso: O’Connor é irresistível. Exala uma terna familiaridade, graças ao seu sorriso angelical, à sua língua solta e ao fato de que ela tem uma das cabeças mais icônicas da memória da cultura pop. No início dos anos 90, O’Connor ficou tão famosa que as dimensões de seu crânio pareciam inscritas na consciência pública. Se você se lembra de duas coisas sobre ela, uma é que ela saltou para a fama com aquele close-up duradouro no vídeo de sua versão de Nothing Compares 2 U. E a outra é que ela encarou a câmera do Saturday Night Live, rasgou uma foto do Papa João Paulo II e acabou com a carreira.

Mas não é assim que O’Connor vê as coisas. Na verdade, parece pensar o oposto. Agora ela escreveu um livro de memórias, Rememberings [algo como “Lembranças” ou “Recordações”], que reformula toda a história a partir de sua perspectiva. “Acho que ter um álbum no primeiro lugar descarrilhou minha carreira”, escreve ela, “e rasgar a foto me colocou de volta no caminho certo”.

O’Connor se via como uma cantora punk de protesto. Quando ascendeu ao topo das paradas pop, ela se viu numa arapuca. “A mídia estava me fazendo parecer louca porque eu não estava agindo como a estrela pop que eu deveria ser”, ela me disse. “Acho que ser uma estrela pop é quase como estar numa espécie de prisão. Você tem que ser uma boa menina”. E isso não tem nada a ver com Sinead O’Connor.

“Louca” é uma palavra que faz um trabalho sujo. Sim, é uma maneira informal de se referir a doenças mentais. Mas também é um rótulo escorregadio que tem pouco a ver com o funcionamento do cérebro de determinada pessoa e muito a ver com a maneira como ela é vista em termos culturais. Chamar alguém de louco é a suprema técnica de silenciamento. Rouba a subjetividade da pessoa.

Na época em que O’Connor apareceu no SNL, em outubro de 1992, ela já tinha sido rotulada de louca – por boicotar o Grammy Awards, onde estava concorrendo ao prêmio de disco do ano (eles só reconhecem o “ganho material”, disse ela) e por se recusar a tocar The Star-Spangled Banner antes de seus shows (porque os hinos nacionais “não têm nada a ver com música em geral”). Mas agora sua reputação parecia sob risco permanente.

“Não me arrependo. Foi brilhante”, disse ela sobre seu protesto contra os abusos na Igreja Católica. “Mas foi muito traumático”, acrescentou ela. “Foi uma temporada de caça, todo mundo me tratando feito uma vaca louca”.

Pouco depois do programa, O’Connor apareceu num show de tributo a Bob Dylan e, quando a multidão vaiou, ela ficou tão surpresa que, a princípio, pensou que eles estavam zombando da sua roupa. Joe Pesci ameaçou estapeá-la num monólogo no SNL e, tempos depois, no mesmo palco, Madonna zombou dela de um jeito quase condescendente, fazendo careta e rasgando uma fotografia de Joey Buttafuoco, agressor sexual e estrela dos tabloides. O’Connor foi condenada pela Liga Anti-Difamação e um grupo chamado Coalizão Nacional de Organizações Étnicas, que contratou um rolo compressor para esmagar centenas de seus álbuns na frente da sede de sua gravadora. O Washington Times a caracterizou como “a cara do ódio puro” e Frank Sinatra a chamou de “garota estúpida”.

Agora, o livro de memórias de O’Connor chega num momento em que a cultura parece ansiosa para reavaliar esses velhos julgamentos. O principal comentário a um vídeo do episódio Behind the Music de O’Connor no YouTube é: “Só podemos dizer que ela estava certa!” Poucos párias culturais foram mais recompensados com o passar do tempo: o abuso sexual de crianças e seu encobrimento dentro da Igreja Católica não são mais segredo para ninguém. João Paulo II finalmente reconheceu o papel da Igreja em 2001, quase uma década após o ato desafiador de O’Connor.

Mas a reação exagerada a O’Connor não era apenas uma questão de ela estar certa ou errada: era uma questão dos tipos de provocações que aceitamos das mulheres na música. “Não porque eu fosse famosa nem nada assim, mas porque eu sou um ser humano e tinha o direito de levantar minha mão e dizer o que sentia”, disse O’Connor. Alguns artistas são hábeis em chocar de uma forma projetada para vender mais discos. Outros, em temperar sua raiva política com uma música palatável, mas “Sinead não é de medir as palavras”, disse-me seu amigo Bob Geldof, músico e ativista. “Nisso ela é muito mais irlandesa”.

Para entender por que O’Connor pode ter visto seu banimento cultural como algo libertador, você precisa compreender quão profundamente ela foi mal interpretada ao longo da carreira. O’Connor ainda era adolescente quando começou a trabalhar em seu feroz e etéreo primeiro álbum, The Lion and the Cobra. Aí um executivo – “um pedacinho de céu” – a chamou para almoçar e lhe disse para se vestir de maneira mais feminina e deixar o cabelo curtinho crescer. Foi então que ela marchou até o barbeiro e raspou tudo. “Eu parecia um alienígena”, O’Connor escreve no livro, o que era um bom jeito de não precisar parecer uma mulher. Quando O’Connor engravidou no meio da gravação, escreve ela, o executivo ligou para um médico e tentou coagi-la a fazer o aborto, o que ela recusou. Seu primeiro filho, Jake, chegou um pouco antes do álbum.

Tempos depois, quando Nothing Compares 2 U fez dela uma estrela, O’Connor disse que o compositor da música, Prince, a aterrorizou. Ela tinha prometido revelar os detalhes “quando eu fosse uma velha senhora e escrevesse meu livro” – e agora ela cumpriu a promessa: escreveu que Prince a convocou a comparecer a sua macabra mansão em Hollywood, castigou-a por falar palavrões nas entrevistas, gritou com seu mordomo para lhe servir uma sopa, embora ela houvesse recusado repetidas vezes, e docemente sugeriu que fizessem uma guerra de travesseiros, só para bater nela com algo duro que ele tinha colocado dentro da sua fronha. Quando conseguiu escapar, a pé, no meio da noite, escreve O’Connor, ele a perseguiu de carro, depois saltou e começou a correr atrás dela pela estrada.

Prince é o tipo de artista aclamado como maluco-no-bom-sentido, tipo, “você tem que ser meio louco para ser músico”, disse O’Connor, “mas existe uma diferença entre ser louco e ser um abusador violento de mulheres”. Ainda assim, o fato de sua canção mais conhecida ter sido composta por essa pessoa não a perturba de forma alguma. “No que me diz respeito”, disse ela, “a música é minha”. / Tradução de Renato Prelorentzou.

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