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Sinead O’Connor faz retorno com novo visual

Com peruca e roupas provocantes, irlandesa lança 'I’m Not the Bossy, I’m the Boss' dois anos depois de seu último afastamento

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2014 | 18h27

 

A Igreja pode exorcizá-la vinte vezes, mas nunca sai de seus pensamentos. Irlandesa católica das almas mais perturbadas de Dublin, Sinead O’Connor conseguiu entrar para a lista negra das dioceses ao rasgar uma foto do papa João Paulo II, em 1992, enquanto era assistida por milhões de norte-americanos ligados no programa The Saturday Night Live. O castigo veio a cavalo. Quando reapareceu meses depois para participar de um show em tributo aos 30 anos de carreira de Bob Dylan, as vaias venceram os aplausos e ela não conseguiu cantar, deixando o palco às lágrimas.

Mas o mundo de O’Connor dá loopings a 300 km por hora e, dois anos depois de dizer que se retiraria de cena para tratar de seu recém descoberto transtorno bipolar, segundo a própria, ela está de volta com o visual mais impactante que poderia usar. E, mais uma vez, falando de cruzes.

Cabelos longos e negros (ainda que sejam peruca), calça justa, maquiagem provocante, O’Connor, 47 anos, anuncia seu 11ª álbum, com 13 músicas, comprando brigas. I'm not Bossy, I'm the Boss (Eu não sou a mandona, sou a chefa) tem para tudo uma explicação. E o que importa aos fãs, o som, aponta para um discaço. Take Me To Church, a primeira canção divulgada, vem pronta para recolocá-la nas paradas.

O disco deveria se chamar The Vishnu Room, título de outra das canções, até que uma campanha chamada Ban Bossy, com gente grande como Beyoncé, Jennifer Garner e Condoleezza Rice envolvida, chegou a seus ouvidos. O projeto defende uma causa inédita, quase exótica. Pede que as pessoas não estigmatizem as crianças como “mandonas”. Quando uma delas impor suas ideias e defendê-las de forma incisiva, os adultos devem celebrá-las, valorizá-las e trabalhar suas qualidades de líder, sem considerá-las umas mandonas egocêntricas ou futuros seres humanos inegociáveis. Como tudo na vida de O’Connor, o apego à causa não deve deixar de ter sua porção autobiográfica.

A capa que traz sua imagem como nunca se viu, com os mesmos poderes sedutores de Uma Thurman em Kill Bill, distante da monja soturna de outras eras, é outra provocação.

A ideia surgiu da batalha verbal que ela travou em 2013 com a cantora pós-teen americana Miley Cyrus, a quem criticou por recorrer à temática sexual para criar uma nova imagem e returbinar a carreira. “Você tem talento o suficiente para não deixar que o negócio da música faça de você uma prostituta”, escreveu. E mais: “Seus registros são bons o suficiente para você não precisar de qualquer derramamento de Hannah Montana. Ela está beeeeeem longe agora. Não é porque você ficou nua, mas porque você faz grandes discos”.

Miley não recebeu suas palavras com doçura e, em dois tuítes, mandou respostas duras. No primeiro, comparou a irlandesa à atriz e cantora Amanda Bynes, que havia sido internada em uma instituição para pessoas com problemas mentais. Ela fez ainda a reprodução de posts de O’Connor publicados na época em que a cantora havia surtado e pedido ajuda através das redes. No outro tuíte, Miley beliscou uma ferida mais profunda: postou a imagem da irlandesa rasgando a foto de João Paulo II.

Take me to Church traz uma sonoridade ultrapop e ensolarada, com arranjos cheios. Sua temática volta a ser a conturbada relação com a religião. Diz a letra: “Oh, me leve à Igreja / Já fiz tantas coisas ruins que dói / Sim, me leve à igreja / Mas não àqueles que ferem / Porque isso não é a verdade.”

A balada de abertura, How About I Be Me, tem os sentimentos à flor da pele. “Não pare de me falar de amor / Como eu vou encontrar o que estou sonhando? / Não pare de me falar de amor / Eu tenho você, encontrei o que estou sonhando”.

James Brown é o que ela pode chamar de seu funk, estilizado, sem explosões e com uma levada que o próprio homenageado da letra acharia estar com uns 40 quilos a menos. Mas é como O’Connor se comporta na pista, influenciada por Prince desde que ele lhe deu a vida quando cedeu, em 1990, Nothing Compares 2U para seu repertório. O rock de O’Connor é Kisses Like Mine, de muitas vozes sobrepostas e pouca modéstia, afirmando que “você nunca teve beijos como os meus / tão macios que você vai se flagrar chorando.” E chega ao limite do desabafo em The Voice of My Doctor: “Quando abri os olhos em seu quarto / Vi uma pintura de uma mulher careca / Quando abri os olhos em seu quarto / Vi uma mulher parecia comigo / Beijando suavemente como só ela faria / Um homem feito de pedra que está chorando sangue.” 

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