Sinatra volta em dois discos inéditos

A gravadora Trama coloca nas lojas esta semana dois discos inéditos de Frank Sinatra, Royal Festival Hall (1962) e The Jerusalem Concert (1975). São dois novos discos do baú do produtor carioca Roberto Quartin, que possui mais de mil horas de gravações de Sinatra, patrimônio autorizado pela família Sinatra. Segundo Quartin, o material deve render ainda cerca de 40 discos - quatro por ano, segundo sua estimativa. Ao final dessa série de surpresas, ele deverá reunir todo o material em uma grande caixa especial com o legado inteiro (o desconhecido) do grande blue eyes.Em dezembro de 1999, a Trama já tinha lançado um inédito do cantor, que era Sinatra ´57 in Concert, além de The Summit in Concert - Frank, Sammy & Dean e The Sinatra Family Wish You a Merry Christmas. O primeiro mostrava um concerto antológico do cantor em 1957, com a orquestra de Nelson Riddle; o segundo, um concerto com o chamado Rat Pack, sua turma de arruaceiros; e o outro, mais comportado, tinha os quatro integrantes do clã Sinatra.O novíssimo Sinatra - The Jerusalem Concert traz 21 canções gravadas ao vivo durante uma apresentação realizada em 27 de novembro de 1975, no Binyanei Há´oomah Concert Hall, em Jerusalém. Toda a renda daqueles concertos da turnê, por Irã e Israel, foram encaminhados ao Frank Sinatra Youth Center for Arab and Jewish Children. Segundo Quartin anota no encarte do disco, o concerto foi importante principalmente porque mostra Sinatra "recuperado completamente dos anos de retiro voluntário" e em plena forma. "Portanto, finalmente podemos ouvir All By Myself filtrada pela sensibilidade artística de Sinatra, o que por si só vale o preço de sua aquisição." O arranjo da canção é de Don Costa.Já Sinatra at Royal Festival Hall é um CD duplo com 30 canções registradas também ao vivo, em 1º de junho de 62. "Em outubro desse mesmo ano, ele viria a gravar sua primeira colaboração com Count Basie - e qualquer um pode sentir claramente o sotaque jazzístico pontuando todas as suas performances desse período", escreve Quartin. Os fãs brasileiros de Frank Sinatra podem esnobar os fãs americanos: o material inédito de Sinatra está sempre chegando às lojas brasileiras antes mesmo de serem lançados nos Estados Unidos e na Europa.The Jerusalem Concert traz fotos originais do show, que também são da preciosa coleção particular de Quartin. No disco, a orquestra é regida por Bill Miller, que também toca piano. O grupo tem Al Viola (guitarra acústica), Gene Cherico (contrabaixo), Irv Cottler (bateria), além da Orquestra de Cordas Jerusalem Natanyan. Entre outras canções, Sinatra interpreta I´ve Got You under My Skin (Cole Porter), Fly me to the Moon (Bart Howard), Nice´n´Easy (Lew Spence, Marilyn Keith e Alan Bergman), My Way (Paul Anka, Claude François, Jacques Raveaux e Gilles Thibault) e Pennies from Heaven (Johnny Burke e Arthur Johnston).Time de respeito - Já no disco duplo Royal Festival Hall, Sinatra está acompanhado pelo sexteto do pianista e arranjador Bill Miller, um time respeitável. Tinha Al Viola de novo na guitarra acústica, Ralph PeÏa no baixo, Cottler na bateria, Harry Klle no sax alto e na flauta e Emil Richards ao vibrafone."Por volta de 1962, Sinatra estava no auge de sua forma tanto técnica quanto artística", conta Quartin. "Sua voz estava soando com mais profundidade que nunca, seu controle de respiração era inacreditável e sua habilidade em transformar uma letra banal em algo perene, de tocante beleza, como se ele estivesse contando uma história somente para você, permaneceria uma conquista insuperável e eterna."Quais eram as canções? Todas aquelas de novo, como I´ve Got You under My Skin, I Get a Kick out of You e At Long Last Love (de Cole Porter, de quem Sinatra gravou 32 canções), mais April in Paris (Vernon Duke e Yip Harburg), The Moon Was Yellow (Edgard Leslie e Fred Ahlert), entre outras. A introdução, "um dos momentos mais excitantes da minha carreira", em sua descrição, é de David Jacobs. Segundo Roberto Quartin, o concerto de 1962 é um dos mais longos e inspirados de sua carreira. Ele interpreta 30 músicas durante cerca de 95 minutos. O material fotográfico inédito do encarte também é precioso, também oriundo do show do cantor (à exceção da foto da contracapa, tirada em Los Angeles).As fitas com as gravações que estão chegando homeopaticamente ao mercado foram cedidas a Quartin pelo próprio cantor nos anos em que o brasileiro viveu em Los Angeles, entre 1970 e 1988. Quartin era, naquela época, o ex-proprietário da gravadora carioca Forma (hoje incorporada pela major Universal). Com uma certa reputação por trabalhos de produção com Tamba Trio Luiz Eça e Vinícius de Morais, ele foi aos Estados Unidos a convite, para trabalhar na produção do clássico Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim. O mais curioso é que Quartin não aparece nos créditos desse disco. Por um problema legal nos Estados Unidos, ele não pôde assinar o trabalho - o crédito foi dado a Sonny Burke. Sinatra, que já tinha se tornado seu amigo, ficou consternado e chegou a pagar todas as despesas de retorno do músico ao Brasil. Mas Quartin voltou aos Estados Unidos e, como produtor, ainda trabalhou com Count Basie, Chet Baker, Oscar Peterson, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Ray Charles, Bucky Pizzarelli e The Modern Jazz Quartet, entre outros.Amigo de sorte - Roberto Quartin poderia tranquilamente disputar com o baterista dos Beatles, Ringo Starr, o título de "o homem mais sortudo do mundo". Sinatra se tornou seu grande amigo e, após sessões em estúdio, costumava presentear o colega com uma cópia da gravação - guardava a matriz nos arquivos da Reprise, sua companhia de discos, criada no fim dos anos 60. E não é que a Reprise pegou fogo, nos anos 80? Entre o material que virou cinza, estavam as matrizes de Sinatra. Adivinhem quem o salvou? O brasileiro Quartin, claro. Assim, sempre que The Voice precisava de uma daquelas gravações, recorria ao acervo do amigo.O agradecimento passou para a eternidade. Sua família, após a morte do cantor, permitiu que Quartin encabeçasse um processo de lançamento dos álbuns e das gravações inéditas do acervo, as que não chegaram ao mercado. Quartin optou pela Trama para os lançamentos, e essa é a história. Se você é daqueles que acha que um show de Frank Sinatra era uma experiência única, imagine então dois shows de Frank Sinatra. Que só foram vistos e ouvidos por alguns milhares de sortudos. Ei-los aqui.Serviço - The Jerusalem Concert. Royal Festival Hall. CDs de Frank Sinatra. Lançamento Trama. Preço médio do CD duplo: R$ 40,00. Preço do CD simples: R$ 20,00. Nas lojas.

Agencia Estado,

17 de dezembro de 2000 | 15h42

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