Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Simone Leitão completa dez anos ajudando na formação de artistas e de um novo meio musical

Pianista promove a música como fonte de diálogo no palco e fora dele

João Luiz Sampaio, Especial para o Estadão

17 de abril de 2022 | 05h05

Simone Leitão nasceu teimosa. Extrovertida, a menina passou a infância ouvindo de todo mundo: ela seria uma ótima atriz. Mas, não adiantava. Ela fingia não ouvir e ia adiante. Seu negócio era Mozart, Beethoven, Brahms. E o piano. Pode-se até dizer que era algo profético. Mais nova de doze irmãos, sua gestão foi complicada. E a mãe dizia ao médico que tudo precisava dar certo. Afinal, aquela menina, tinha certeza, ia ser a pianista da família. 

“Mas, depois que eu nasci, ninguém fez nada para isso”, ela lembra, com um sorriso divertido. “Então lá fui eu, arranjei minha professora, combinei as primeiras aulas. Acho que desde pequena já tinha algo de empreendedora dentro de mim.” Não foi um caminho sem percalços. Ela sabia que não era uma carreira fácil, que a competição era muito grande. E, enquanto crescia, começou a ensaiar na cabeça outras possibilidades. Gostava muito de matemática, de ciências. Resolveu ser engenheira química. Com certeza, acreditava, arranjaria bons empregos. Mas, e na área de humanas? Jornalismo parecia uma boa opção.

Com 16 anos, ela deixou Minas Gerais e foi para o Rio de Janeiro. E então, um dia fatídico. Foi visitar a redação de um jornal. O ambiente frenético a assustou. E ela chegou à conclusão de que a urgência do trabalho do jornalista não combinava com ela. O que fazer, então? A resposta veio no mesmo dia, na forma de um recital no Teatro Municipal. “Era uma apresentação do Nelson Freire. Chorei tanto, mas tanto, a emoção foi tão forte. Saí dali com a certeza de que eu precisava encarar a tentativa de uma carreira na música.”

Entrou na faculdade de música. “Eu estava atrasada com relação à técnica quando comparada com alguns colegas. Então resolvi não cursar performance no piano e sim composição e regência. E educação musical. Mas fui também estudar com a pianista Linda Bustani.”

A professora mudou sua vida. “Ela me mostrou que a técnica é o ponto de partida para que você saiba o que quer extrair do piano. A liberdade nasce da disciplina. E isso vale para o músico também.”

A carreira de Simone Leitão já a levou a todo o Brasil, para a Europa e para os Estados Unidos, onde fez recitais, tocou com orquestras, gravou discos. Mas aquela história de educação musical, aprendida na faculdade, ficava martelando na sua cabeça.

Eu estava nos Estados Unidos no início do anos 2000 e olhava para o Brasil. Vários projetos sociais ligados à música estavam surgindo, formando artistas de uma maneira nova. E eu pensava em como podia ajudar nesse processo”, conta.

A cabeça começou a funcionar. Com o tempo, uma ideia começou a ganhar forma. E foi assim que, em 2012, nasceu o projeto Academia Jovem Concertante. A ideia era bastante simples, ainda que a realização não fosse: reunir jovens músicos de todo o País para que pudessem se apresentar juntos, viajando pelo Brasil e complementando a sua formação. 

“A formação de um músico clássico é muito pautada na qualificação, o que, claro, é muito importante. Mas tratamos pouco de um assunto fundamental: a inserção no mercado de trabalho e a possibilidade aumentar esse mercado”, explica a pianista. “A academia, então, se propunha a ser um passo entre a formação e a ida para o mercado, um passo que oferecesse instrumentos aos músicos para fazer essa transição.”

Em dez anos, 800 músicos participaram do projeto, realizando 200 concertos em 50 cidades do Brasil. “Dez anos não são dez dias, mas há momentos que são marcantes. Um deles foi um concerto em um canteiro de obras, para duas mil pessoas. E há turmas especiais, que ficam na nossa lembrança. A Academia de 2015 mal havia acabado e já tinha músicos indo para Portugal, Estados Unidos, outros passando nas provas em orquestras brasileiras, como a Filarmônica de Minas Gerais.”

A carreira de pianista, diz Simone, pode ser solitária. Fazer um recital é como estar em uma arena de gladiadores. “É sangue”, ela brinca. Não tem muito jeito: a relação íntima com o instrumento é fundamental. Quando conta que se mudou, durante a pandemia, para Tiradentes, ela fala sempre no plural: nós fomos, nós resolvemos – e o sujeito não tão oculto assim é o piano, companheiro de todas as horas.

Mas fazer música, ela diz, é também promover encontros. É por isso que a música de câmara a fascina, além de ser uma possibilidade de mercado para novos músicos – um quarteto de cordas, afinal, pode viajar pelo país com mais facilidade do que uma orquestra. “Eu insisto sempre na necessidade do músico de empreender, construir novos espaços. Mas tem uma coisa que jamais pode ser esquecida. Estar no palco ao lado de alguém te oferece uma lição fundamental: a capacidade de ouvir a si mesmo e aos outros e de dialogar.” 

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