Leo Aversa/Divulgação
Leo Aversa/Divulgação

Simone em compilação ‘repleta de curvas’

Cantora relembra trajetória de 40 anos e recupera faixas de doze compositoras no álbum ‘É Melhor Ser’

Roberta Pennafort / Rio, O Estado de S. Paulo

22 de outubro de 2013 | 19h19

 “Uma pessoa é o que a sua voz é/ no jogo dramático e no canto/ o artista também é o que são a sua voz e o seu canto”, diz a letra de A Propósito, originalmente trecho de um bilhete devotado escrito por Fernanda Montenegro para a amiga Simone.

A faixa abre o CD É Melhor Ser (Biscoito Fino), que a cantora baiana lança nos dias 25 e 26 em shows no teatro Oi Casa Grande, no Rio. Aos 63 anos, 40 de discos, a voz que já cantou supersucessos populares, homenagens a compositores como Ivan Lins e Martinho da Vila e canções natalinas agora se volta ao discurso feminino.

“Sou totalmente eclética, minha mãe ouvia Ângela Maria e Orlando Dias e meu pai cantava ópera”, diz Simone, sotaque bem carregado, ao explicar a escolha das doze compositoras do CD, de gerações e estilos distintos. Vão da contemporânea Joanna a Dona Ivone Lara, Sueli Costa, Rita Lee, Joyce e Ângela Rô Rô, chegando à geração de Adriana Calcanhotto e Teresa Cristina.

Primeiro veio a ideia de cantar só mulheres, depois essas mulheres, e, por fim, essas músicas – clássicos de seus gêneros, como Acreditar, Mutante e Charme do Mundo. Não quis novidades, à exceção das recentes Só Se For (Simone/Zélia Duncan) e Haicai (Fátima Guedes).

“Pensei: quando eu comecei, 40 anos atrás, quem estava ali? Queria retratar as mulheres que eu sempre adorei, como a Fátima, a Sueli. Descaminhos, da Joanna, eu amo desde que ela lançou, em 1979. Adriana e Teresa têm trabalhos que eu adoro. As faixas vão se entrelaçando. Essas moças são poderosas. Ficou um disco cheio de curvas, como a mulher.”

Convocou Zélia para ajudar na escolha das faixas, entregues então a Leandro Braga e Bia Paes Leme, diretores musicais que trataram de revesti-las de elegância, com arranjos que privilegiaram o piano. Não quis um trabalho que partisse de um conceito, e sim das músicas selecionadas. A direção do show é de Christiane Torloni, de quem Simone queria o olhar bem feminino.

A última vendagem expressiva de Simone, que batia recordes de público e discos de ouro e platina nos anos 80, quando lotava o Ibirapuera e o Maracanãzinho com performances de O Que Será. Começar De Novo e Cigarra, foi em 1995: mais de 1,5 milhão de cópias.  25 de Dezembro era aberto por  Então É Natal, onipresente por anos na época natalina.

Como seus pares, Simone foi tragada pelo abismo da indústria fonográfica. Mas diz não ter se abalado. “Não era só eu, todo mundo afundou. Não sou saudosista. Eu tenho saudosismo é quando vejo Vinicius (de Morais) na televïsão...”, suspira – a entrevista, no estúdio em que cantora e banda ensaiam seis horas por dia, foi na semana do centenário do poeta.

"O mercado tem suas artimanhas e seduções”, escreveu Hermínio Bello de Carvalho no texto de apresentação de  É Melhor Ser, referindo-se ao auge dos anos 80. Ele conheceu Simone aos 20 anos, quando a então jogadora de basquete morava em São Caetano do Sul, e foi um dos maiores incentivadores no início da carreira, tendo produzido seus três primeiros discos, lançados em 73, 74 e 75.

Simone não veste a carapuça. “Na época, as baladas invadiram, e eu nunca tive problemas de cantar baladas, de arriscar, de errar. Eu errei muito, mas não por gravar baladas. Acertei muito mais. Concessões eu nunca fiz. Se errei, fui eu”, garante. As reflexões sobre as quatro décadas de atividade vieram naturalmente. “Tem muitos momentos assustadores, porque o tempo passa muito rápido. Ao mesmo tempo, fazer 40 anos e continuar cantando, inteira, sem estar bagaceira... Tenho tesão no que eu faço, canto como se fosse o último dia, não quero saber se vou ficar rouca. O brilho da menina nos meus olhos continua. Eu me dou os parabéns.”

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