Simone é a nova voz de Ivan Lins

O compositor Ivan Lins sonhava ter uma cantora exclusiva, tal como Burt Bacharach tinha Dionne Warwick. "E pensava na Simone, uma das maiores cantoras brasileiras, com um timbre parecido com o meu. Ouço sua voz enquanto componho, mas tê-la como minha Dionne Warwick era meio impossível", conta ele. Deixou de ser com o CD Baiana da Gema, em que ela interpreta 13 músicas compostas especialmente para Simone. "A gente tinha essa idéia havia tempos, mas não falava do assunto, não sei por quê. Até que o Marcos Maynard (atual presidente da Emi-Odeon no Brasil) nos juntou", lembra a contora. "O Ivan já tinha quatro músicas prontas e fez outras no estúdio, num astral delicioso. A gente ria o tempo todo, de tanta felicidade." Ivan Lins fez também os arranjos com Gilson Peranzetta (seu maestro durante anos) e Cláudio Jorge, tocou e cantou em quase todas as faixas, inclusive num belo piano e voz em Espelho Seu, que recebeu letra de Elisa Lucinda. "Ele esteve o tempo todo no estúdio, mas não queria assinar os arranjos. Só o fez por insistência minha, porque ele já havia trazido pronta a maquete das músicas, só faltava finalizar", explica a cantora. "Usamos basicamente dois grupos, para os sambas (Baiana da Gema, É Festa!, Saravá! Saravá! e Dandara) e para os outros ritmos, mas houve uma unidade enorme." Neste disco, há boa parte da safra recente de Ivan Lins. "Nos últimos tempos, a música vem brontando de Ivan em grande quantidade e não há letristas, para dar conta de tanta produção", elogia Simone. Ele explica que compõe por compulsão, mas nem sempre termina as músicas. "A não ser em trabalhos como o disco da Simone, que é coisa séria. Aí vou fundo", diz. A escolha dos letristas foi dos dois. Além de Vítor Martins, parceiro mais constante, há Paulo César Pinheiro, Abel Silva, Aldir Blanc, com quem Lins começou a trabalhar quando Martins passou a se dedicar mais à gravadora Velas. A novidade é Francisco Bosco, poeta de mão cheia que até então só tinha feito letras para o pai, João Bosco. "Já gostava dele e adorei Malabaristas do Asfalto. Pedi ao Ivan que desse a letra de Dandara para o Francisco", diz Simone. "E, sem saber que era para mim, ele sugeriu ao Ivan que me desse para gravar." Simone conta também que se sente completamente confortável cantando Ivan Lins, que gravou desde seu primeiro disco, no início dos anos 70. "Sua melodia, que nunca vai para onde a gente espera, jamais é óbvia. É aquela história ´o inesperado faz uma surpresa´, sabe?", comenta. "E são totalmente cantabile, embora nem todas sejam fáceis de aprender de cara. Se bem que tem sambas, como Saravá! Saravá!, cujo refrão a gente sai cantando na primeira vez que ouve. Não tem jeito, da turma pós Tom (Jobim), o Ivan é o mais musical." Com Baiana da Gema, Simone retoma arranjos e composições sofisticados, embora ela negue ter dado uma guinada em seu estilo, na última década, em busca da popularidade. "Pelo contrário, sempre gravei Chico Buarque, Milton Nascimento, o próprio Ivan... só que, quando a música fica popular, toca no rádio, desagrada a um grupo. Gostaria que me explicassem o porquê", desafia, voltando das gravações. "Registramos tudo e, em breve, vamos lançar em DVD." Baiana da Gema deve sair no exterior, pois Simone e principalmente Ivan Lins têm um público garantido na Europa, para onde ele viajou esta semana, e Estados Unidos. Ela também faz show a partir de setembro.

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