Luiz Prado/Estadão
Luiz Prado/Estadão

Simonal tentou reabilitação em 1991, mas documentos indicam ligações com o DOPS-GB

Apesar de até responder a processos na Justiça, a maior pena imposta ao cantor foi a do ostracismo

Wilson Tosta, O Estado de S. Paulo

25 de junho de 2020 | 17h57

Duas décadas após ver sua carreira afundar sob suspeita de ser informante dos órgãos de repressão política, o cidadão Wilson Simonal de Castro dirigiu, em 19 de abril de 1991,  um requerimento à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Em tom angustiado, pediu à repartição que, no governo do presidente Fernando Collor, substituíra o tentacular Serviço Nacional de Informações, que comprovasse que nunca fora colaborador da rede repressiva do regime militar. Não teve muito sucesso. Apenas conseguiu que negassem oficialmente ter tido ligações com o  SNI. Os dados sobre outros organismos repressivos da ditadura não estavam sob a guarda da SAE.

"Praza aos céus!", escreveu Simonal no requerimento em que negou ter ligações com a repressão, atualmente parte do acervo do  Arquivo Nacional. "Meu destino é a música, tão só." Mais adiante, explicou: "Tenho legítimo interesse em obter, junto à SAE, como procurei demonstrar, uma declaração oficial no sentido de que jamais fui efetivo, colaborador ou informante de qualquer órgão de segurança, seja durante o governo Medici, seja desde 1964 até a presente data, em qualquer parte do território nacional ou no exterior. E é o que, mui respeitosamente, se requer."

No texto, Simonal relatou ter sido prejudicado pela "inverdade" que o perseguia desde o início dos anos 70. Foi quando surgiu a história de que  integrantes do Departamento de Ordem Política e Social da Guanabara (Dops) teriam, a pedido do cantor, sequestrado um contador que, para o artista, o teria enganado. O homem foi torturado e depois solto, mas o caso parou na Justiça. No documento, o artista também reclama ter sido discriminado por colegas, devido às suspeitas de colaborar com a ditadura. "Durante o chamado regime militar, não poucas vezes, artistas, de variadas categorias, se indispuseram com o mesmo (sic) sofrendo as consequentes represálias", afirmou.

O gatilho da reação de Simonal, que o levou a escrever à SAE, foi uma menção ao caso no livro Chega de Saudade, de 1990, conforme explicou em sua exposição, em tom indignado.

"E fui eu o delator? Não cultivo frases feitas, mas às vezes são verdadeiramente insubstituíveis. Diz a voz do povo que 'quem cala consente...' Estou sofrendo já prejuízos materiais, como demonstrarei, eventual e oportunamente, além do evidente dano moral, mesmo junto ao meu público mais fiel, que eu o tenho, aqui e no exterior, por força dessa difamação."

A SAE encontrou, nos arquivos do SNI, anotações sobre Simonal - ironicamente, como vigiado. Em seu prontuário, constavam quatro registros, feitos ao longo de treze anos, os dois últimos após a ditadura. Apenas esses, mais recentes, estão detalhados. Um relata a participação do cantor no I Fórum de Debates sobre Legalização de Jogos, em Capão da Canoa (RS), em 16 e 17 de agosto de 1985. Outro fala da presença do artista em ato pelos cem anos da Abolição promovido pela Secretaria Especial de Relações Sociais de São Paulo e pelo Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra, em 13 de maio de 1988.

Os dados liberados — depois da ditadura os cidadãos passaram a ter direito a conhecer o que constava sobre eles nos órgãos de repressão da ditadura — não serviram aos propósitos do cantor. Em 28 de agosto de 1991, o adjunto da SAE, Sebastião Nunes Senra, explicou, ainda segundo a documentação no Arquivo Nacional:

"Em atenção ao requerido por V.Sa., informo que não foram encontradas, na documentação deixada pelo extinto Serviço Nacional de Informações, anotações que o apontem como servidor ou como prestador de serviços àquele órgão."

Indícios

Contra os argumentos de Simonal de que não foi colaborador da repressão, porém, há outros documentos também guardados no Arquivo Nacional. A Informação SBO s/Nº - 1971, da Seção de Buscas Ostensivas do Dops-GB, de 28 de agosto de 1971, relata que quatro dias antes Simonal pedira ajuda ao DOPS. O documento é assinado pelo inspetor Mário Borges — acusado, no relatório Brasil Nunca Mais, de tortura. É dirigido ao chefe do Serviço de Buscas e tem como referência "Tentativa de sequestro e extorsão mediante violência na pessoa do cantor WILSON SIMONAL".

"Aqui compareceu, no dia 24 p.p., o sr. Wilson Simonal de Castro, que solicitou auxílio desta Seção para apuração de fatos graves e de interesse da segurança Nacional, visto que, nos últimos documentos subversivos apreendidos, as Organizações planejavam e planejam o sequestro de elementos ligados ao governo e contrários às doutrinas comunistas, sejam eles: Militares, Intelectuais, Artistas, Policiais, Banqueiros, Industriais, Comerciantes e etc..."

"Como sabe V. Sa. , o cantor Wilson Simonal é elemento ligado não só ao DOPS, como a outros Órgãos de Informação, sendo atualmente o elemento de ligação, entre o Governo, as autoridades e as Forças Armadas com o Povo, participando de atos públicos e festividades, fazendo do seu verso e prosa a comunicação que há tanto tempo faltava."

Borges prossegue, afirmando no texto que em 1968, quando Simonal, no Teatro Toneleros, em Copacabana, fazia o show Brasil de Cabral a Simonal, foi alvo de ameaças e bombas. Na ocasião, o artista, de acordo com o inspetor, pediu ajuda ao mesmo Serviço de Buscas do DOPS-GB. Por intermédio da Seção de Buscas Ostensivas, o órgão passou a fazer varreduras diárias na casa de espetáculos. Agentes vigiaram o local por três meses, afirmou o policial do texto.

Na versão do inspetor, Simonal disse ter sido alvo de telefonema de "elementos que se dizem subversivos, que o intimidam e colocam em risco não só a sua vida, como também a de seus familiares (...)". Um policial do DOPS e um "colaborador" teriam, de acordo com Borges, identificado, entre suspeitos indicados por Simonal, o contador Raphael Viviani, que foi depor. O inspetor omite as agressões contra o ex-empregado do artista, que até emprestou seu carro, com motorista, para que os agentes fizessem diligências do caso. Uma cópia do depoimento de Simonal foi anexada ao relatório.

Viviani, porém, denunciou ter sido sequestrado pelos policiais. Disse que foi levado, primeiro, a seu escritório em Vila Isabel, e, depois, ao DOPS-GB. Lá foi espancado e obrigado a assinar uma confissão de desfalque em contas de Simonal. O cantor não acompanhou a ação.

Em 11 de janeiro de 1974, segundo cópia do processo também guardada no Arquivo Nacional, o juiz João de Deus Lacerda Menna Barreto condenou Simonal, Hugo Corrêa de Mattos e Sérgio Andrade Guedes a cinco anos e quatro meses de reclusão e quinze cruzeiros de multa. O crime tipificado foi extorsão, agravado pelo fato de ter sido cometido por mais de uma pessoa. Borges e outro envolvido, Luiz Ilogti, foram absolvidos. O magistrado determinou também a internação dos condenados, por um ano, em colônia agrícola. Simonal, porém, já sofrera a pena do ostracismo. Sua carreira nunca retomaria o sucesso do fim dos anos 60 e início dos 70. Estava acabado.

Veja o trailer do filme 'Simonal', de 2019:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.