Florence Goisnard/ AFP
Florence Goisnard/ AFP

Símbolo de resistência, o ribeirinho Éder do Acordeon usa a música em defesa da Amazônia

'A natureza depende de você, deixa ela viver, deixa ela viver. O mundo inteiro também vai agradecer, com o maior prazer, com o maior prazer', canta este trovador da floresta

Redação, AFP

21 de abril de 2020 | 10h08

Seu acordeon é quase da largura da canoa em que navega pelos rios da Amazônia, mas sua música ecoa até a copa das árvores. Aos 60 anos, Éder Rodrigues do Nascimento compõe versos que incentivam a preservação da maior reserva de biodiversidade do planeta.

"A natureza depende de você, deixa ela viver, deixa ela viver. O mundo inteiro também vai agradecer, com o maior prazer, com o maior prazer", canta este trovador da floresta, enquanto rema ao longo de comunidades de palafitas, erguidas às margens do rio Juruá, um afluente do Amazonas.

Em uma região onde os rios são as estradas, é navegando que os moradores da floresta se deslocam em viagens que podem levar dias entre uma comunidade e outra.

"Éder do Acordeon", como se apresenta, vive na comunidade Boa Vista, uma das 30 da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) de Uacari, unidade de conservação do estado do Amazonas com cerca de 633 mil hectares, a três horas de lancha do município de Carauari (a 800 km de Manaus), onde seus moradores vivem de agricultura, pesca e extrativismo.

Sozinho em sua modesta canoa de madeira, "Éder, do Acordeon" pode parecer impotente diante da capacidade destrutiva do desmatamento e do garimpo ilegal que avançam sobre a floresta, mas ele simboliza a resistência dos povos ribeirinhos e originários, que vivem em harmonia com a natureza.

Seus modos de vida chamam atenção na 50ª edição do Dia Mundial da Terra, que se celebra nesta quarta-feira tendo como tema os desafios e oportunidades de se agir contra as mudanças no clima.

"Nas minhas músicas falo isso, dou as orientações para todo mundo fazer o que eu faço: não fazer queimada, não sujar a água, não cortar árvores. São elas que vão ajudar a salvar o mundo", diz à AFP.

Éder se apresentou para cerca de 300 jovens ribeirinhos que participaram do I Congresso da Juventude da Floresta, realizado em março pela ONG Fundação Amazonas Sustentável (FAS) na comunidade Bauana, aonde chegou de canoa, após um dia remando pelo rio Juruá.

"A terra está ficando seca por causa do desmatamento. Isso preocupa muito a nós, que moramos aqui dentro da floresta, porque nos afeta também", condena.

"Chegam doenças que ninguém conhece, às vezes as pessoas morrem sem saber porque morreram", explica Éder.

Historicamente, os povos que vivem na Amazônia são particularmente vulneráveis a vírus trazidos de fora, como o Sars-Cov-2, causador da COVID-19.

Por este motivo, o isolamento se faz necessário para evitar a disseminação da doença no Amazonas, onde mora Éder, o quinto estado mais afetado pela pandemia no país, com 2.160 casos e 185 mortos. O Brasil soma 40.581 casos e 2.575 mortos pelo novo coronavírus.

"Quem visita o Amazonas vem pro paraíso. Quem mora no Amazonas já está no paraíso. Quem mora na floresta vive no paraíso. Se quiser conhecer a biodiversidade. Está convidado para andar comigo!", canta, tocando a sanfona, este músico, com brilho nos olhos ao ver que os jovens se identificam com as letras de suas canções.

Uma esperança que se renova em um momento difícil, em que o desmatamento e os incêndios florestais se intensificaram desde a chegada ao poder, em janeiro de 2019, do presidente Jair Bolsonaro, cuja política ambiental é duramente criticada no Brasil e no exterior.

Organizações ambientalistas o acusam de querer entregar a floresta a companhias de mineração e ao agronegócio, avançando inclusive sobre terras reservadas aos povos tradicionais, ribeirinhos e indígenas.

 

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