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Silva lança álbum minimalista para comemorar 10 anos de carreira

Cantor dá novas versões para músicas que gravou em seus álbuns e apresenta uma inédita

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

01 de outubro de 2021 | 15h00

Quem ouvir com cuidado o novo álbum do cantor e compositor Silva, vai notar que, em uma faixa ou outra, há o canto de um galo ao fundo ou o barulho do vento balançando o bambuzal. Foi assim, de forma orgânica, e sozinho - ou melhor, acompanhado dos instrumentos que toca nas faixas – que Silva decidiu comemorar uma década de carreira

De Lá Até Aqui, cujo registro audiovisual chega nesta sexta (1) às plataformas digitais e ao canal do artista no YouTube, tem nove músicas que fizeram parte de sua trajetória – além de uma inédita. As faixas foram gravadas em uma casa recém-construída por Silva e seu irmão, o empresário e compositor Lucas Silva, em Soido, região do município de Domingos Martins, a uma hora de Vitória, no Espírito Santo, onde mora. 

Cercado de verde, o local foi planejado pelos irmãos para receber amigos e família em torno da música. O projeto é, no futuro, fazer um estúdio de gravação por lá. “Foi um presente da vida, fruto do nosso trabalho”, diz Silva. 

A primeira experiência com música na casa foi justamente a gravação do novo álbum. Silva aproveitou principalmente a área externa do local – daí vem a participação especial dos sons da natureza. Tudo ao vivo, com voz e instrumento gravados ao mesmo tempo. Eram feitos 3 ou 4 takes para que depois fosse escolhido o melhor. Nada foi refeito em estúdio, segundo ele.

“Gostei desse tipo de gravação mais assertiva, como se fazia antigamente. Tive que me desprender um pouco. Teve take que amei a voz, mas tinha algo lá no meio, uma nota ou outra fora. Mas decidi que ficaria daquele jeito mesmo”, diz.

A faixa que abre o trabalho é a inédita Pra Te Dizer Que Tô Feliz Assim, feita em parceria com o irmão, na qual ele canta acompanhado de seu violão. Os versos dizem, de início, “Meu caminho não é reto pra lá/ Ninguém me falou onde é que ia dar/ Eu saí com a certeza de errar/ Cheguei para não voltar”. É uma constatação sobre como tudo aconteceu na vida e na carreira de Silva desde que lançou suas primeiras canções ainda na plataforma SoundCloud.

Aliás, a lembrança de uma década de carreira veio por meio de um amigo, companheiro de jornada desde o primeiro momento, André. “Não me lembrava. Estávamos tão na correria, no automático. Fui procurar a data exata e descobri que foi no dia 4 de outubro de 2011”, diz Silva. Ele afirma que o amigo teve participação fundamental nesse novo trabalho. “É um álbum feito a 6 mãos”.

A letra de Pra Te Dizer Que Tô Feliz Assim vai além. Esbarra também em questões pessoais de Silva, mais precisamente sobre seu último relacionamento amoroso, que terminou em meio às incertezas trazidas pela pandemia. “Foi algo conturbado. A música é bem autobiográfica”, diz o cantor, que segue solteiro.

Para escolher as canções que seriam regravadas, o primeiro parâmetro foi estabelecer o número de faixas. Depois, o critério musical prevaleceu. Nem todas as músicas funcionam sem os arranjos com as quais foram gravadas anteriormente. Embora, como diz, tenha orgulho dos trabalhos que fez, Silva aproveitou esse momento para uma revisão.

“Não sou o tipo de artista que acha tudo o que fez é maravilhoso, que não tem autocrítica. Em terapia, aprendi a olhar com carinho para coisas que já passaram e eu não gosto tanto assim. Fiz tudo com muita verdade, mas a maturidade me trouxe a possibilidade de olhar para o meu passado musical”, diz.

Uma das canções que ganharam esse novo exame foi Ainda, do álbum Vista Pro Mar (2014), uma das primeiras composições de Silva, quando ele tinha 18 anos – atualmente, ele tem 33. Gravada originalmente com violão, agora Silva a canta se acompanhando ao piano acústico.

Silva diz que tem um carinho muito grande por essa canção, feita no tempo em que ele estudava piano clássico e sentiu-se inspirado por uma nota do compositor austríaco Franz Schubert.

A canção Amantes, de Marcelo e Paulo Sérgio Valle, gravada pelo Ara Ketu em 2000, fez parte do show Bloco do Silva, no qual o cantor dedicou repertório aos clássicos da chamada axé music. A música nunca havia sido gravada por ele. Na nova versão, virou uma bossa, diferente da pegada samba da gravação original do grupo baiano.

“Eu tenho uma coisa com bossa. Meus pais ouviam muito. Uma vez, o Pretinho da Serrinha (cantor e compositor) me disse: “Silva, você não sabe tocar samba. Tudo o que você bota a mão vira bossa. Vou te levar para Madureira, ficar dez dias lá comigo, para você consertar uma clave na sua cabeça e virar sambista”, conta.

Silva ainda conta uma curiosidade engraçada sobre a música. Quando ele a ouvia, ainda criança, achava que quem a cantava era Maria Bethânia. “Eu sei que o Tatau (vocalista do Ara Ketu) é muito fã da Bethânia. E, nessa época, a interpretação era bem parecida”, diz.

Outra que ganhou uma versão mais minimalista foi Um Pôr do Sol na Praia, que havia sido lançada em single de 2019 ao lado de Ludmilla. Originalmente, era um samba que depois seguia pelo hip hop e trap, com batidão. Ludmilla a gravou posteriormente como pagode. Agora, Silva a transformou em algo mais próximo do samba, tocado com o auxílio de um piano elétrico. “Se bobear, levo ela para a bossa também”, brinca.

O samba reggae Pra Vida Inteira, composto por seu irmão, Lucas Silva, que foi lançado no ano passado em dueto com Ivete Sangalo, aparece em versão voz e violão, com batida na qual Silva se sente à vontade.

A faixa Sou Desse Jeito, do álbum Júpiter, de 2015, tem seu tom confessional reforçado com a primeira parte cantada a capela. “Ela é muito forte para mim. Foi a música na qual mostrei a minha sexualidade para o público. Foi um desabafo. Tudo o que eu precisava dizer naquele momento. Então, ela não poderia ficar de fora desse novo álbum”, diz Silva que a compôs em parceria com o irmão. Nela, Silva se reencontrou com um antigo companheiro: o violino, que ele não tocava há tempos.

“Foi importante saber que essas músicas funcionam de um jeito simples, cru, fora do contexto em que foram feitas. Como compositor, isso me deixou muito feliz.  Meus dois primeiros álbuns (Claridão e Vista Pro Mar) são zero minimalistas, cheios de informação. Tem muito sintetizador, sopros, cordas. Era uma época em que eu colocava tudo o que eu sabia tocar em uma faixa só”, diz.

Silva também aproveita o momento para olhar o quanto caminhou como artista nesses dez anos de atividade. Apontado como um nome indie assim que apareceu, ele esteve dentro de uma grande gravadora, a Som Livre, por meio do selo Slap, e rompeu esse rótulo mais ligado ao alternativo ao gravar com nomes como Anitta, Ludmilla, Ivete Sangalo e Marisa Monte – da última, fez um disco só com composições dela.

Além disso, foi gravado por Gal Costa (Palavras no Corpo, em parceria com Omar Salomão), tocou em alguns shows da cantora e dividiu uma faixa com João Donato. “São meus maiores ídolos da música. Donato é um quase um Villa-Lobos. Inventou uma onda só dele. Outro dia, depois de me ver em uma live, ele me mandou uma mensagem que quase morri: 'Ei, Silva, voz de veludo. Espero que quando essa pandemia passar a gente possa fazer mais músicas juntos’”, conta.

Desde seu penúltimo trabalho, Cinco, lançado em 2020, Silva não está mais vinculado à gravadora. Afirma que o passo foi corajoso, mas que ainda não sabe dizer quais foram os benefícios ou prejuízos da decisão. 

Ele afirma que sempre teve muita liberdade para fazer seus projetos. Entretanto, quando apareceram algumas pessoas para opinar demais, decidiu que era a hora de caminhar sozinho. “O ‘tem que ter’ começou a me incomodar, sobretudo nos feats (duetos). Não faço música comercial, apesar de entender as questões do mercado”, diz.

Silva não sabe se esse novo projeto, De Lá Até Aqui, vai ganhar os palcos. Ele se preparava para voltar às apresentações agora em outubro, no Rock The Mountain. Tocaria colocado ao horário de Caetano Veloso, porém o festival foi adiado para 2022. Na virada do ano, deve fazer alguns shows menores. Espera, no verão, botar Bloco do Silva na rua, e, posteriormente, a turnê do álbum Cinco.

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