Talita Miranda/Divulgação
Talita Miranda/Divulgação

Siba lança novo disco

Bateria, vibrafone, tuba, guitarra e uma cabeça que conseguiu recriar o que já era bom

Filipe Lima/ESPECIAL PARA O ESTADO,

06 de janeiro de 2012 | 21h30

Há cerca de cinco anos, enquanto finalizava Toda Vez Que Eu Dou Um Passo o Mundo Sai do Lugar, segundo disco com a Fuloresta, Siba estava inquieto. Prestes a concluir o trabalho mais elogiado pela crítica, indicado para o Grammy latino, o líder da banda sabia que os limites do maracatu não continham mais sua música. "Aquela formulação de vida e trabalho já não dava mais conta da complexidade da minha pessoa. Não que deixou de ser verdadeiro, mas precisava buscar algumas respostas", explica. Começava ali a nascer Avante, primeiro disco solo que Siba lança em shows, dias 9 e 10 de fevereiro, no Sesc Vila Mariana. Mas antes de avançar, foi necessário ver o mundo sair do lugar sem saber que passo dar.

Mudança não é algo estranho na vida de Sérgio Veloso, recifense de 43 anos. Foi empunhando a rabeca à frente do Mestre Ambrósio que o artista Siba surgiu na música brasileira, nos anos 90. O sucesso da banda, de sonoridade carregada de influências de música regional, como o forró, não impediu o músico de dar outro passo e sair do lugar. Em 2002 ele partiu para Nazaré da Mata, cidade na zona da mata de Pernambuco, para mergulhar no modo de vida do maracatu. Foram cinco anos de convívio intenso com Biu Roque e outros mestres que renderam dois álbuns com a Fuloresta, a banda que formou. Após um período em que compunha diariamente respeitando os cânones da tradição, Siba foi brecado pelo baque solto da própria vida. Sem encontrar as palavras para falar de si, o compositor sofreu com um bloqueio criativo.

O começo e o fim de Avante atende pelo nome de Vicente, filho de Siba. "Ele foi a linha que costurou a história toda, as questões que a existência dele me propuseram. Não que o disco seja sobre ele, mas sem ele não haveria o disco." Por essa época, o músico impressionou-se com O Método Tufo de Experiências, segundo disco do Cidadão Instigado. As letras de Fernando Catatau, guitarrista e líder da banda, apontaram o caminho para Siba encontrar a própria maneira de ser assunto de suas composições. O músico queria também trocar a rabeca pela guitarra para trabalhar uma nova sonoridade. O encontro foi inevitável: Catatau produz o disco. "Ele foi o interlocutor na minha volta à guitarra, foi duro reaprender o instrumento", conta. "Tinha nele um cara a quem podia me reportar. Ele sempre tinha algo a acrescentar e me ajudou a encurtar esse caminho."

Sem os limites da tradição do maracatu, Siba se impôs outros para dar corpo à Avante. Os principais eram: voltar a tocar e compor na guitarra, montar uma banda pequena e explorar questões pessoais nas letras. "Esse é meu método de trabalho, um jeito de não se perder numa babel de informação. Tenho dificuldades de me focar se não me impor limites. O trio que o acompanha é pouco ortodoxo: bateria, tuba e vibrafone, com teclados ocasionais. As influências sonoras incluem a canção de viola (subgênero da cantoria de viola, o famoso repente nordestino), o rock e a música africana, em especial a congolesa, com atenção ao guitarrista François Luambo Makiadi, o Franco. Siba conjuga tudo isso na sua linguagem. "As coisas de que mais gosto têm parentesco de som e de timbre, música que vai ao limite da saturação dos instrumentos chegando ao ruído. Meu gosto pela música africana tem a ver com isso também."

Há em Avante a marca inegável de Catatau na sonoridade, mas Siba alcança a pessoalidade que queria atribuir às canções, sem perder sua linguagem. Após tantos questionamentos, o álbum empurra o músico para a direção que o título aponta. Siba, sem dúvida, dá seu passo. "Fiquei feliz com a solução: economizei com psicólogo e resolvi assim", brinca.

AS FAIXAS (por Siba)

Preparando o Salto: "Fala do sentimento de fragmentação."

Brisa: "É uma ciranda que cantei com a Fuloresta, tem ligação com a música da Mata Norte."

Ariana: "Esta dialoga com o universo das canções de violeiros."

Cantando Ciranda na Beira do Mar: "É de quando lia histórias pro meu filho, tem a ver com a poesia épica, Homero."

A Bagaceira: "É sobre meus primeiros carnavais em Olinda e no Recife, mas nunca fui tão fundo como digo na música."

Canoa Furada: "Autobiográfica, tentando rir de mim mesmo."

Mute: "Tem a ver com o bloqueio criativo."

O Verso Preso: "Esta é a formulação desse bloqueio criativo."

Avante: "É o oposto, o momento em que encontro a saída."

Qasida: "Sobre o não estar em canto nenhum e ter raízes em vários lugares."

Bravura e Brilho: "A música mais congolesa do disco."

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