Annie Tritt|The New York Times
Annie Tritt|The New York Times

Sia, Kamasi Washington e Anderson Paak encerram o Coachella 2016

Edição do festival na Califórnia foi marcada pelas homenagens a Prince

Felipe Hirsch, Especial para o Estado

25 de abril de 2016 | 11h57

INDIO, Calif. - O último dia da segunda semana de Coachella começou com tempestade de areia e com o grande Kamasi Washington e sua inacreditável banda tocando no sol do deserto. Kamasi é parceiro jovem de Wayne Shorter e Herbie Hancock, tocou com Chaka Khan, Flying Lotus e, mais recentemente, com o já quase-mito Kendrick Lamar. Lançou sem despretensões o álbum triplo The Epic no ano passado e se aventurou para além do jazz, pelo hip hop, música eletrônica, étnica e indies. O show é bem mais simplista que o disco. Consiste em um solo de cada membro da enorme banda. O que torna tudo um pouco previsível, embora muito acima da média. Kamasi veste uma roupa azul e dourada no palco, meio Sun Ra, e todos seus músicos não fazem por menos, com bijouterias brilhantes e muito, mas muito talento. Depois do show, cruzei com Kamasi e sua banda na fila de um hot dog envenenado, e confesso que vê-lo com uma calça de moletom vermelha falando num Iphone espantou um pouco da mística egípcia, gnóstica, sei lá. Mas Kamasi é engenhoso, potente. Seguramente uma figura que acompanhará o melhor da música nos próximos anos. 

Saindo do extremo do melhor da música para o outro extremo (veja bem), Sia ganhou muitos pontos inventando um show provocativo, para se ver na tela, que é como enfim boa parte do público de um festival vê os shows. A artista permaneceu parada todo o tempo em um canto do palco, com um enorme laço branco na cabeça e uma peruca de duas cores (parece ruim mas não é), cantando sobre uma base pré gravada, enquanto atores reconhecidos e bailarinos desenvolviam um roteiro de ações e movimentos muito bem filmados e projetados. A coisa toda balança entre o estrambótico e o extraordinário. Mas o empolgante é ver uma artista pop corajosa assim, escolher e preparar algo tão incitador, sobretudo em Coachella, contestando as fórmulas do palco mainstream.

Mas a noite era de um recém-chegado: Anderson Paak. A tenda Mojave estourou de gente louca pra ver o já elogiado show do criador do belo disco Malibu. Baterista de igreja, manobrista, plantador de maconha, morador de rua, Anderson Paak tem todas as credenciais que a música pop exige da história de um grande artista, e apesar dele se vestir e soar por vezes como Kanye, e apesar dele tocar e ecoar por vezes como Prince, Paak tem uma coisa só lá dele, boas canções, punch, e uma produção de sucesso. Dr. Dre ficou impressionado com o menino e o adotou. Mais um para turma de Compton, e Kendrick e o mesmo Dr. Dre também participaram do show (assim como na noite passada com Ice Cube), e Dr. Dre também carregou no peito o símbolo de Prince, e Coachella esse ano pareceu um círculo riscado no mapa sobre o bairro de Compton onde todos, mas todos mesmo, lembraram com devoção a música de Prince. 

É claro que esse é o melhor de Coachella. O pior é ver jovens lesados pela industria pesada da EDM americana que prevê um lucro anual de mais de US$ 6 bilhões (além da participação sobre o uso recreacional de drogas como o MDMA, Katamina, Party Pills e Club Drugs), mas dispensa pensar um pouco sobre a memória musical dessas gerações que está sendo desbotada por uma total falta de interesse e curiosidade em qualquer alternativa.

No mais, o picolé Purple Rain de blackberry com limão é uma delícia, a tendência nessa edição foi que todos os bateristas parecessem com o Animal dos Muppets, e todos, quase todos tentaram tocar uma do Prince para homenageá-lo e ninguém tocou bem. Nem mesmo Kamasi. O que só piora a sensação de termos perdido nessa semana o maior artista da música desse único mundo que conhecemos.

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