Shows e mostras revêem o papel da sanfona na cultura nacional

No Brasil, sua imagem está tão ligada ao baião quanto a guitarra ao rock, mas a versatilidade da sanfona nunca lhe deixou caber apenas no gênero defendido por Luiz Gonzaga. Do chamamé e milonga sulistas até a música erudita, o acordeão sempre se fez presente. Não é de se estranhar que inspire um evento que reúne os melhores instrumentistas do País em apresentações, exposições e vídeos sobre as várias regiões em que o fole aparece.O Brasil da Sanfona começa amanhã no Sesc Pompéia utilizando o instrumento como ponte para mapear a cultura popular. Vai reunir durante todo o mês de março músicos de várias regiões e gerações como Dominguinhos, Toninho Ferragutti, Sivuca, Renato Borghetti e outros 15 sanfoneiros. O evento foi idealizado pela pesquisadora Myriam Taubkin, que nos últimos três anos viajou pelo Brasil atrás de histórias e depoimentos sobre o instrumento e seus músicos. O material faz parte do projeto Memória Brasileira, iniciado em 1987, e que já teve como foco, entre outros, o piano, o violão, os violeiros e a percussão. "Queremos mostrar a relação entre o instrumento, o instrumentista e o lugar de onde ele vem, o universo que o inspira", explica Myriam. Foram captadas assim mais de 35 horas de vídeo com depoimentos e imagens dos lugares mais distantes do País.Há frases de sanfoneiros famosos, como Targino Gondin ("tô te esperando na janela"), ou de parentes como a irmã de Luiz Gonzaga. Também de músicos desconhecidos, como o goiano Zino Prado, compositor que vive do restauro de sanfonas e que irá tocar na noite do Brasil Central. Estas imagens também irão servir de "vídeo-cenário". Várias apresentações terão como fundo as regiões de onde as músicas vêem. Mas o inverso também pode acontecer: os músicos irão interagir com a imagem, tocando de acordo com o cenário. O evento ainda irá prestar homenagens à Luiz Gonzaga (1912-1989) e Chiquinho do Acordeão (1928-1993).A fotógrafa Angélica Del Nery participa com uma exposição com fotos dos lugares onde os dois sanfoneiros nasceram, respectivamente, em Exu (PE), e Santa Cruz do Sul (RS). Dentro da proposta de unir a sanfona à poesia e literatura, aparecem também fotos da casa de Cora Coralina em Goiás Velho e Bento Gonçalves. São ao total 74 imagens. Também haverá uma exposição de instrumentos antigos que atravessa toda a história da sanfona no País. Todas do acervo dos colecionadores Sérgio Campos e Lauro Valério. Este último, um especialista que resolveu criar sua própria linha de acordeões. Há quase dez anos ele desenvolve instrumentos especialmente para o músico brasileiro. O detalhe é que a fabricação é feita na Itália."O músico brasileiro, como o de forró, toca em pé por várias horas, por isso precisa de um instrumento mais leve. O timbre também deve ser mais forte e aveludado. São pequenas nuances que fazem diferença", afirma. E são estas nuances que tornam o som feito no País tão diverso e ao mesmo tempo, tão característico.O acordeonista Toninho Ferragutti, que já trabalhou com Gilberto Gil, Edu Lobo e outros, participa do evento e concorda com a tese. "O Brasil já tem uma ´escola´ de acordeão. Ela é mais rítmica, nós usamos muito o fole como elemento percussivo", diz. Essa riqueza toda também se aplica ao nome do instrumento. Acordeão, sanfona, gaita, harmônica ou fole são apenas variações de região para região do País que se aplicam ao mesmo instrumento. O mesmo que serve ao forró, à música erudita, ao pop, ao blues...Sesc Pompéia - Rua Clélia, 93, tel.: 3871-7700. De 7 a 29 de março, sempre às quintas e sextas, às 21 horas. Ingressos de R$ 10 a R$ 20.

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