Shows de Waters celebram 20 anos de "The Wall"

Os concertos que o Brasil vai assistir esta semana não serão apenas do "ex-baixista do Pink Floyd", como se anuncia. Ele é muito mais do que apenas isso. O inglês Roger Waters é fundador do Floyd, foi líder da banda, escreveu a maioria das letras de todos os discos e é o autor de The Wall, um do mais cáusticos e sensacionais musicais da história do rock. É dele o nome Pink Floyd, homenagem a dois bluesmen, Pink Anderson e Floyd Council, mas apesar de ter fundado a banda com o guitarrista Syd Barret, após batalha judicial Waters perdeu para David Gilmour e os outros integrantes da banda a marca Pink Floyd. Uma lástima. Sem ele, a partir do disco The Final Cut (de 1983), o Pink Floyd perdeu a mão e não conseguiu mais fazer tanto sucesso. A voz, o contrabaixo e, sobretudo, as composições de Waters são de uma ausência quase fatal para o grupo. Em contrapartida, Roger Waters também teve uma carreira-solo minguada e fatura até hoje em cima do Pink Floyd. Hoje, ele corre o mundo com a tour In The Flesh ("na carne") título da faixa de abertura de The Wall. Há exatos 20 anos atrás, 1982, o diretor Alan Parker transportou The Wall para as telas. Em homenagem à sua obra-prima, Roger Waters batizou a sua tour mundial de In the Flesh, estupendo trovão sonoro que abre esse coquetel molotov existencial chamado The Wall. O último disco do Pink Floyd com a sua participação foi o não menos angustiante The Final Cut ("o corte final"), de 83. Profundo, depressivo, The Final Cut é uma visita aos porões do caos interior, aliás, especialidades de Roger Waters, um músico que elegeu as encruzilhadas emocionais do homem como musa predileta. Esse disco foi o causador de sua saída da banda. Ao lado do guitarrista Syd Barret, Waters fundou o Pink Floyd na segunda metade dos anos 60. Barret tornou-se esquizofrênico em consequência do LSD e foi substituído por David Gilmour, hoje líder do grupo, que já tocava no Floyd. Perfeccionista, neurótico assumido, Roger Waters foi o mentor intelectual de petardos gloriosos como o radicalmente experimental Ummagumma (69) - a faixa Several Species of Small Furry Animals Gathered Together in a Cave and Grooving with a Pict registra uma pancadaria entre corujas, morcegos e afins. Passado - Já The Dark Side of the Moon (73), o mais popular trabalho da banda, chegou aos primeiros lugares do hit parade graças às músicas Time e Money. Graças à mão pesada de Waters nas composições, o Pink Floyd é uma banda que não registra discos ruins em sua história. Sim, há discos polêmicos, mas ruins, na fase Roger Waters, é impossível encontrar. Afinal, quem gosta de rock autêntico não cansa de ouvir obras que se tornaram célebres como Wish You Were Here (75), Atom Heart Mother (70) ou Obscured by Clouds (de 72, trilha do filme The Valley). Com a sua saída, coube a David Gilmour liderar a banda. Ele que foi responsável pelos maravilhosos e cultuados arranjos de guitarra do Pink Floyd, não segurou a barra como compositor. Ou seja, sem Roger Waters o Pink Floyd passou a viver do passado. Produzir discos conceituais, com músicas interligadas por um mesmo tema, foi o grande legado que Waters deixou. Em 12 de fevereiro de 79, no entanto, o mundo conheceria toda a potência literária e sonora de Roger Waters, somada ao talento individual de David Gilmour (guitarras, violões), Rick Wright (teclados) e Nick Mason (bateria e percussão). Nessa data foi lançado The Wall, um musical que muitos chamaram de ópera-rock, uma ópera-rock que muitos chamaram de musical. O disco duplo foi uma bomba V-2 no coração da hipocrisia moral, social e política da Inglaterra. Além da fúria das letras que Waters escreveu sozinho, tendo como companheiro único o seu ácido desespero, os arranjos mostraram os dentes caninos e brutalmente geniais do Pink Floyd. The Wall é um manifesto que critica, a bordo de tempestade poética/sonora, a vidinha pequeno-burguesa. As críticas ao sistema educacional inglês foram tão fortes que a faixa Another Brick in the Wall foi proibida de tocar no Reino Unido, que em 79 estava sob a mordaça de Margaret Thatcher. Filme - O também inglês diretor de cinema Alan Parker se apaixonou por The Wall logo que ouviu e se encontrou com Roger Waters com a idéia de transformar o musical num filme. Para o personagem central da obra, convidaram o músico Bob Geldof (da banda pós-punk Bottom Rats) e passaram 80 e 81 mergulhados no projeto do filme, lançado em 82. A fusão de imagens distorcidas com desenhos hiper-realistas se somou a várias trilhas incidentais inéditas que Waters compôs para o filme, que definia a educação como uma máquina de moer crianças. O som? Nunca o grupo tocou tão pesado em estúdio. Batizado de Pink, o personagem vivido por Bob Geldof mostra a história de um inglês comum que perdeu o pai na 2.ª Guerra, é laçado por Édipo e transforma-se num cidadão rejeitado que vira músico de rock drogado e obcecado por filmes de guerra. Os seus professores são mostrados como exércitos de martelos que marcham em formação nazista enquanto a mulher de Pink se envolve com um líder do movimento pacifista europeu. Pink está numa suíte de hotel em Los Angeles, sozinho, drogado, assistindo à TV. Os flashes de sua vida, a morte do pai, a mendicância afetiva, se misturam com cenas reais como a do telefonema que tenta dar para a sua mulher em Londres. O filme faz questão de focar muito bem a solidão dos grandes astros. Em determinado momento, Pink entra em overdose, o empresário desesperado com a possibilidade de ele não tocar no show daquela noite o retira do quarto com vários médicos, enquanto toca a canção Comfortably Numb (Confortavelmente dopado). Pink entra em novo delírio em que aparece como astro de rock que se apresenta fardado como Hitler ironizando o poder que os ídolos exercem sobre as platéias. Linchamento - A banda desse Pink, sem sobrancelhas e careca, na verdade é um exército hitlerista que faz o seu "show". "Olhem ali, um judeu! Joguem contra o muro", grita e aponta Pink para a multidão de fanáticos que parte para o linchamento. "Vejam ali um negro! Joguem contra o muro!", "Olhem lá um homossexual! Joguem contra o muro", a multidão lincha a todos. A mensagem direta parece dizer que todo fascista nasce da humilhação, mas no subtexto, e esse é o grande objetivo da obra, denuncia que cada ordem que recebemos é "mais um tijolo cimentado em nossa parede existencial". No fim, quando o muro já está alto e intransponível, nos damos conta e só nos resta deitar num canto e clamar por piedade ou então tentar explodir a muralha e refazer a vida. O filme é denso, tenso e, apesar dos 20 anos, muito atual. Não foram poucas as brigas que Roger Waters teve com o diretor Alan Parker, sendo que, diz a lenda do rock, em uma delas Waters teria puxado um revólver no estúdio. Parece absurdo, mas vindo dele tudo é possível. Afinal, nos anos 70, quando o Pink Floyd tocava no Canadá, um fã incondicional da banda, plantado na fila do gargarejo, fitava Roger Waters fixamente. Este passou a fitar o fã e foi andando para a frente. Quando chegou bem próximo, sem mais nem porque, deu com o cabo de seu contrabaixo no rosto do fã, que deixou a platéia com afundamento de maxilar. Hoje, adestrado pela vida e domesticado pelo tempo, Roger Waters continua ácido, mas sobretudo se destaca como grande astro, dono de um show absolutamente imperdível.

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