Guto Costa
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Show ‘O Futuro Pertence à... Jovem Guarda’ traz Erasmo Carlos com desejo de emocionar

Cantor e compositor se apresenta neste sábado com novos arranjos para antigas canções que ele nunca havia gravado

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

15 de dezembro de 2021 | 05h00

O Futuro Pertence à... Jovem Guarda é o nome do show que o cantor Erasmo Carlos, 80 anos, apresenta neste sábado, 18, no Tom Brasil, em São Paulo. O título do espetáculo foi tirado da frase “O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada”, do líder russo Vladimir Lenin, a mesma que serviu de inspiração para que os produtores batizassem o programa televisivo que tinha Erasmo como um dos protagonistas na segunda metade da década de 1960.

Entretanto, não soaria inadequado que o nome do show fosse O Futuro Pertence a... Erasmo Carlos. Sim, o carioca da Tijuca que ajudou a sacudir a juventude com suas versões de canções do rock’n’roll e, posteriormente, com composições próprias, nunca para. Está sempre olhando para frente. Em todo tempo há um novo projeto, uma ideia. Abre-se a novas parcerias. Busca músicas de ontem e de hoje nas plataformas digitais para sacar harmonias, entender tendências. Parado no tempo, jamais.

Coautor de clássicos da música popular brasileira, como Detalhes, Emoções, Jesus Cristo, É Preciso Saber Viver, entre tantos outros, Erasmo poderia muito bem estar merecidamente colhendo os louros de tudo o que construiu. Porém, isso nem passa pela sua cabeça.

“Deus me livre! O cara que faz isso está morto. Só está vivendo porque está respirando. Quem tem a música como sentimento, não pode ficar parado no tempo. Quero novas emoções, emocionar as pessoas”, diz Erasmo, por telefone, à reportagem do Estadão.

Embora o projeto, que também será um álbum pela gravadora Som Livre, tenha certo caráter revisionista - Erasmo canta músicas da época da Jovem Guarda que ele nunca havia cantado ou gravado anteriormente, dele ou de colegas -, o Tremendão buscou novos caminhos sonoros e arranjos para antigas canções como Ritmo da Chuva, Tijolinho, O Bom, Nasci Para Chorar e Devolva-me

“Estou maravilhado, bicho! São músicas que eu sempre ouvi. Eu e minha banda, que é maravilhosa, esquecemos os arranjos antigos. É tudo novo, contemporâneo, com sintetizadores, vocais bonitos. Regravei dignamente essas canções”, diz ele sobre o álbum que tem direção artística de Marcus Preto e produção de Pupillo, a mesma dupla que pilotou o trabalho anterior do cantor, O Amor É Isso, lançado em 2018. Mais para frente, o trabalho será lançado em vinil.

A banda à qual Erasmo se refere, e que também o acompanha em seus shows, é formada pelo maestro José Lourenço nos teclados; Luiz Lopes no violão, guitarra e vocal; Pedro Dias no baixo e vocal, Billy Brandão na guitarra; e Rike Frainer na bateria.

“Eu gosto mesmo é de banda. Eu vim de grupo vocal, participei de Renato e Seus Blue Caps. Cheguei à conclusão que eu não devia ser eu, e sim uma banda”, diverte-se o compositor e cantor.

Erasmo, fazendo jus ao apelido de Gigante Gentil e do cara que no palco, para agradecer o carinho que recebe do público, coloca a mão dentro da camisa para com movimento simular a um coração em ritmo acelerado, também parece ter (re) descoberto a poesia das canções que escolheu - e elas falam majoritariamente sobre o amor, como era praxe na Jovem Guarda.

“Que amor inocente é a história de Tijolinho!”, diz sobre a composição de Wagner Benatti, o Bitão do grupo de rock Os Pholhas, que fez sucesso na voz de Bobby De Carlo, em 1966.

Alguém na Multidão, de Rossini Pinto, sucesso do conjunto vocal Os Golden Boys, o levou às lágrimas no estúdio. “Que letra bonita! Algo profundo. Um cara dizendo a uma pessoa que perdeu seu amor para ela não ficar triste, que existe alguém por aí, um anônimo na multidão, que vai gostar de você”, afirma.

O primeiro single, A Volta, será lançado nesta sexta-feira, 17. A composição é de Erasmo e Roberto Carlos e foi confiada ao duo Os Vips, formado pelos irmãos Ronaldo e Márcio Antonucci, em 1965. Roberto só a gravou em um EP lançado em 2012. Erasmo, agora.

“Essa questão sobre quem iria lançar tal música dependia muito de quem estava fazendo um disco no momento. Se fosse eu, gravava. Se fosse o Roberto, era dele. E ainda tinha o pessoal que vinha pedir as composições. Tudo acontecia na maior tranquilidade. Um astral muito bom”, conta.

A volta aos palcos - o primeiro show pós-pandemia aconteceu dia 27 de novembro, em Porto Alegre - tem um gosto de vitória. Entre agosto e setembro, Erasmo passou 12 dias na UTI após contrair a covid-19

Não precisou ser entubado, mas, ao sair, teve dificuldades com a respiração, fala e equilíbrio. Chegou a pensar que não voltaria aos shows. Reabilitou-se com fisioterapia, sessões de fonoterapia e acupuntura. 

Mesmo com a turnê ainda no início, Erasmo já planeja um próximo trabalho, com músicas inéditas, que pretende lançar daqui a dois anos. 

Gente aberta

A mesma tranquilidade que Erasmo descreve sobre o período da Jovem Guarda - apesar do rock, mulheres e carrões, três assuntos que ele não dispensava - é o que ele deseja para daqui adiante. “Viver em paz e ser feliz, se for possível”, diz.

Essa condição tem a ver com os temas que o aflige, como o racismo, o preconceito, o ódio e o negacionismo, que, verdade seja dita, são focos de sua indignação pelo menos há 50 anos. Na letra Gente Aberta, de 1971, por exemplo, ele e Roberto já pregavam contra a falta de amor entre as pessoas.

Quando a dupla fez As Baleias, em 1981, trazendo para a música popular a preocupação ecológica, depois, chamada de meio ambiente, ouviu de um executivo do mercado musical que as mulheres queriam ouvir falar de amor ou uma música que as levassem a dançar. “Ele disse que a baleia não comprava discos. Aquilo entrou por um ouvido e saiu pelo outro”, diz, hoje.

De 1984, embora com traços politicamente incorretos - eram os anos 1980 -, é Close, canção que Erasmo e Roberto descrevem uma mulher perfeita a partir da modelo Roberta Close, uma transexual. Apesar do sucesso, houve críticas e deboches. “A maioria das pessoas não lê as entrelinhas. Não enxerga as coisas com sentimento”, diz.

Como diz o título desse seu novo trabalho, Erasmo sempre acreditou que o futuro está nas mãos das novas gerações, que, na visão dele, têm o poder de mudar o que está errado e abrir novos caminhos. “Não temos cuidado dessa jovem guarda. Não foi esse o mundo que os sábios, poetas e pensadores da minha geração pensaram. É um absurdo ter vacinas pagas, apenas para países que podem comprar. Contra isso, eu luto com as armas que eu tenho: a música e o amor”, diz.

Erasmo tem uma preocupação a mais com o destino do planeta. Sua bisneta, Lua, nasceu há pouco, na Pensilvânia, nos Estados Unidos, onde seu neto mora. Por enquanto, ele só a viu por fotos e vídeos. Lua veio para quebrar a hegemonia masculina da família Esteves - Erasmo teve três filhos e quatro netos. Mesmo de longe, ele se sente feliz por ser um bisavô do rock. 

Serviço

O Futuro Pertence à ... Jovem Guarda

Tom Brasil. Rua Bragança Paulista, 1.281, Chácara Santo Antônio. 

Sábado (18/12). R$ 100 / R$ 200

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