Show e biografia trazem de volta o culto a Jesus & Mary Chain

Jim Reid, vocalista do grupo escocês, fala ao ‘Estado’ acerca de novos shows no Brasil e sobre sua origem, há 30 anos

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

10 de abril de 2014 | 19h13

Há uma nova biografia chegando às livrarias sobre a banda cult escocesa The Jesus & Mary Chain, escrita por Zoë Howe. Barbed Wire Kisses é uma história que começa há 30 anos no quarto dos tímidos irmãos James e William Reid, na cidadezinha de East Kilbride, perto de Glasgow (Escócia), num conceito que se espalhou depois como um vírus pelo mundo, ressoando até hoje.

Barbed Wire Kisses sustenta que o grupo (que volta ao Brasil no dia 25 de maio para estrelar o 18.º Cultura Inglesa Festival, de graça, no Memorial da América Latina) fomentou uma inequívoca revolução musical pelo mundo. Os fatos e os muitos discípulos confirmam isso: The Walkmen, Yeah Yeah Yeahs, Strokes, Fellini.

 

 

 

"Eles foram uma de nossas inspirações. O jeito que surgiram, sem ligação com estratégias de marketing, independentes, fazendo um rock’n’roll psicodélico, isso animou muitas bandas novas", confessou em 2011 o guitarrista Peter Hayes, da banda Black Rebel Motorcycle Club.

"Ouvíamos muito o pop de nossa época, os Beach Boys e também as coisas do underground, como Stooges, Velvet Underground. E muitas outras coisas dos anos 1960, 1970. Gostava muito também de Eddie Cochran, o rockabilly dos anos 1950", lembrou, na semana passada ao Estado, falando por telefone, o cantor Jim Reid, frontman do Jesus & The Mary Chain

Dissonâncias, vibes sinistras, melodias escondidas sob um abalo sísmico de guitarras e distorção – e um vocal alternando entre o doce e o selvagem. O som que eles trouxeram para o mundo foi um amálgama de muitas coisas que já existiam, mas o jeito de os irmãos Reid misturarem era (e continua sendo) único. "Desde East Kilbride, um monte de coisas mudou. A cena musical mudou muito desde então. O jeito de ouvir música também mudou. Mas a música é a mesma para mim", disse Jim Reid.

O editor da biografia sobre o Jesus & Mary Chain disse que o grupo foi também, além de uma lenda, um tipo de "inimigo público" em seu tempo. Abriu muitas frentes de conflito com colegas (Reid falava mal do Joy Division, que era sagrado para os fãs àquela altura) e vivia causando. "A indústria musical gostava de regrar o mundo, e a gente muitas vezes não se enquadrava", explicou ainda o cantor.

O vocalista do Jesus & Mary Chain não gosta de muita elaboração sobre sua contribuição ao rock. Diz que os shows ao vivo sempre lhes permitiram criar uma nova forma para as canções, uma forma livre. "Johnny Marr foi realmente influente em seu jeito de tocar guitarra, influenciou muita gente. Mas nós nunca tivemos essa intenção de tocar com virtuosismo, a guitarra não é nossa principal arma", disse Reid.

A primeira vez do grupo no Brasil foi complicada, Reid estava bêbado. A segunda vez foi fantástica. O que esperar da terceira vez? "Para ser honesto, não estou muito preocupado. Fazemos o que sabemos fazer, música", tergiversou. Irmãos no rock costumam ter relações problemáticas. Como é a relação de Jim Reid com seu irmão William hoje em dia? "É complicado. Temos dias bons e dias ruins, como todo mundo, mas conseguimos achar uma forma de coexistir com certa civilidade".

Em 1.º de julho de 1990, eles tocaram pela primeira vez em São Paulo. O ingresso custava Cr$ 1 mil e Collor tinha acabado de confiscar a poupança da plateia, tava duro até de comprar cerveja. Os irmãos Reid tocaram de costas para a plateia, erravam barbaramente os riffs e as entradas e terminaram com uma versão de 12 minutos de Sidewalking, segundo descrições da época. Um radialista que trabalhava na rádio que promoveu o concerto do Jesus & Mary Chain em Curitiba desabafou, na primeira passagem deles pelo País: "Os caras são um bando de drogados fedidos".

Em 2008, o grupo liderado pelos tormentosos irmãos voltou ao Brasil com seu mito enormemente inchado, especialmente depois de terem uma de suas músicas, Just Like Honey, fechando com chave de ouro um dos cult movies daquele período, o filme Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola.

O tema do filme projetou uma nova estrela hollywoodiana, Scarlett Johansson, e não foi surpresa quando ela se juntou ao grupo durante o Coachella Music Festival de 2007, nos Estados Unidos, para cantar Sometimes Always.

Jesus and Mary Chain surgiu com uma formação que tinha o baixista Douglas Hart e o baterista Murray Dalglish (trocado depois por Bobby Gillespie, que sairia mais tarde para fundar o Primal Scream). Ao voltar ao Brasil em 2008, Jim Reid afirmou: "O que posso dizer agora é o seguinte: eu não bebo mais. Então vou me concentrar apenas em tocar".

Disse que estava curtindo ouvir as bandas The Kills e Warlocks. "Gosto de um bom rock’n’roll, de ‘noisy guitar music’. Muita banda hoje, como The Kills, se tivesse aparecido nos anos 60 provavelmente só conseguiria tocar para 100 pessoas. O que costumava ser underground, hoje pode ser o mainstream. As pessoas hoje em dia são mais receptivas a músicas extremas", afirmou.

Além do festival da Cultura Inglesa, no qual terão a companhia do grupo galês Los Campesinos!, a banda escocesa foi confirmada esta semana como uma das grandes atrações da 12.ª edição do Vivo Open Air, no Rio de Janeiro, de 15 de maio a 1º de junho, na Marina da Glória. O evento terá ainda shows da cantora Céu (que vai interpretar o clássico disco Catch a Fire, de Bob Marley), Carlos Malta e Pife Muderno, Autoramas e BNegão, entre outros.

Veja vídeos da banda:

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