Show de Gal Costa ‘Espelho d’Água’ reflete a perfeição

Cantora navega por letras do passado e do futuro e mostra ter atingido a plenitude em recital minimalista, no teatro J. Safra, em São Paulo

Lauro Lisboa Garcia, Especial para O Estado de S. Paulo

08 Agosto 2014 | 02h00

Sua voz é sua plenitude – e Gal Costa volta a rasgar a cena mostrando o brilho agudo musical em recital minimalista e retropicalista de voz e violão/guitarra, acompanhada apenas de Guilherme Monteiro, enquanto seleciona repertório para o sucessor de Recanto (2011). A cantora já havia experimentado esse formato diversas vezes no Brasil e no exterior antes da grande reviravolta (e em eventuais apresentações durante esse período dito “mágico”). A expectativa é grande depois de Recanto, como se sente no ar, e entre reinterpretações estimulantes de clássicos, ela traz para a cena uma canção inédita dos irmãos Marcelo e Thiago Camelo, Espelho d’Água, título do recital que estreou na semana passada no novo Teatro J. Safra, onde volta a partir desta sexta-feira, 8, até domingo, 10.

Desde o evento de Recanto, Gal vem dando sinais de revitalização da maior importância. Cantora disposta a experimentações desde os tempos de Tropicália, ela ancorou o barco com força total mais uma vez no porto seguro Caetano Veloso (bússola da sonoridade do disco lançado no final de 2011) e a parceria rendeu longa turnê entre 2012 e meados de 2014, com registro em DVD e a adesão de uma legião de novos (de idade) fãs. 

Caetano, como não poderia deixar de ser, é presença constante no roteiro do show que abre com Caras e Bocas (parceria dele com Maria Bethânia) e tem até Coração Vagabundo, dos primórdios da carreira dos dois, que dialoga com a delicadeza de Espelho d’Água, reflexo do passado no futuro e vice-versa. O refrão repetido várias vezes faz a canção dos Camelos “grudar”. Como no show anterior, este não tem cenário, apenas iluminação sóbria, como o figurino da cantora e do músico. Se ela sabe também ser careta, nem sempre segue em linha reta, muito mais para bem do que para mal.

Canção e interpretação de fazer velhos marinheiros ficarem com os olhos marejados, Negro Amor (versão de Caetano e Péricles Cavalcanti para It’s All Over Now, Baby Blue, de Bob Dylan) é um dos picos do recital, ao lado de Solitude (Duke Ellington/ Eddie DeLange/Irving Mills/versão de Augusto de Campos), Um Favor (Lupicinio Rodrigues), Tigresa (Caetano) – todas do álbum Caras e Bocas, de 1977 –, Vaca Profana (Caetano) e Sua Estupidez (Roberto Carlos/Erasmo Carlos). Lupicinio, em seu centenário de nascimento, é oportunamente lembrado também na interpretação macia de Volta.

Meu Nome É Gal (Roberto Carlos/Erasmo Carlos), gravada duas vezes por ela em diálogos cortantes com cordas de guitarra, ressurge mais uma vez como exercício lúdico. Os tempos são outros, a voz naturalmente se tornou mais grave e o tom da conversa é mais moderado, mas Gal continua desafiando e se divertindo ao corresponder-se como rapaz que é o tal para ela no momento. Guilherme Monteiro é revelador nesse aspecto – desde quando toca em tom de bossa joão-gilbertiana (caso de Coração Vagabundo) até nas distorções incisivas de Vaca Profana e Tigresa –, atendendo com grande responsabilidade e criatividade ao chamado da cantora.

Gal teve o primeiro contato com ele durante a turnê de Recanto, quando foi indicado para substituir um dos músicos que a acompanhavam. Os dois se deram muito bem e, como ela mesma disse em tom bem-humorado, não quer mais largá-lo, porque faz a “cama perfeita” para ela. O elogio pode parecer trivial, mas não é pouco quando parte de alguém do porte de Gal, que já teve a companhia das cordas de Lanny Gordin, Raphael Rabello, Luiz Meira e Marco Pereira, entre outras feras do violão e da guitarra elétrica.

Nesse encontro “delicado e denso”, como a própria cantora definiu, naturalmente a atenção da plateia é maciçamente concentrada na voz dela, mas até por isso a responsabilidade de Monteiro é maior, ao preencher o espaço que em diversas canções a imaginação leva para a sonoridade de uma banda. A boa acústica do novo teatro e o equipamento de som favorecem a dupla para um resultado cristalino.

Do roteiro escolhido por ela e pelo jornalista Marcus Preto (em parte, canções que se referem à própria voz de Gal), deve sair Samba do Grande Amor (Chico Buarque), que estava no bis, para dar lugar à rara Tuareg (Jorge Ben). Entre as boas surpresas – além de Solitude e Negro Amor – há também Passarinho (Tuzé de Abreu) e até mesmo Você Não Entende Nada (Caetano), que ela cantou com Meira em 2010, ganha tempero mais apimentado. 

Fazia tempo que não se via Gal improvisando como agora – e essa é a melhor parte de revigorar clássicos. Aos fãs antigos, parte dos quais teve algum conflito com as modernidades de Recanto, mais acomodados, ganha o tom de recordação. Para os jovens que nunca a viram cantar maravilhas das décadas de 1960 e 70 ao vivo, há um ar de novidade. Meu Bem, Meu Mal, Dom de Iludir e Força Estranha (todas de Caetano) e Folhetim já estavam em Recanto, poderiam ser substituídas por outras menos óbvias. 

Como a cantora pretende seguir com o recital por outros teatros é possível que essas deem lugar a outras raridades. Como na recente participação do show em homenagem a Waly Salomão, Gal oxigena sua música da melhor maneira possível para quem é dona da voz: nudez total.

GAL COSTA

Teatro J. Safra. Rua Josef Kryss, 318, Barra Funda, 2626-0243. Sexta, 8, 21h30; sáb., 9, às 21 h; dom., 10, às 19 h. R$ 75/R$ 200.

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