Ryan Pfluger/The New York Times
Ryan Pfluger/The New York Times

Sheryl Crow volta ao pop em novo disco depois de se aventurar pelo country

Novo trabalho, 'Be Myself', soa como os álbuns dos anos 1990

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2017 | 06h00

Mais de 30 anos depois do início da carreira, Sheryl Crow tem mais preocupações do que tentar agradar a todos os públicos. Foi o que ela tentou fazer, ao abraçar o country que tanto ouvia quando jovem, no aparelho de rádio dos pais, com o álbum Feels Like Home, de 2013. O título, algo como “sentindo-se em casa”, já indicava uma jornada pessoal para a cantora norte-americana que passou a viver em Nashville, a meca da música country dos Estados Unidos, em 2006. O disco foi rejeitado pela comunidade, contudo, que não entendeu a proposta do álbum, cujos singles, quando tocados pelas rádios especializadas, iam ao ar nas madrugadas. 

Ao entender como aquele mercado funcionava – girando em torno de cifras altíssimas e shows gratuitos para estações de rádio –, Sheryl preferiu dar alguns passos para trás. E, ao virar o pescoço, viu os hits do passado, quando ela fundiu o country com o pop, num soft rock radiofônico na medida – como All I Wanna Do, single do disco de estreia da cantora, na época dona de madeixas escuras, chamado Tuesday Night Music Club. Foi perseguir aquilo que a fazia feliz ao criar música. 

“Tínhamos um senso de rebeldia, de independência, queríamos buscar isso de novo”, diz ela, ao Estado, por telefone, de casa. Assim nasceu Be Myself, mais um disco no qual Sheryl Crow diz o que sente logo no título: “Sendo eu mesma”, diz. “Dar o nome a um álbum é uma das partes mais difíceis do trabalho”, ela admite. “Mas quando você ouve esse álbum, ele soa muito parecido com as minhas canções do início de carreira. E, basicamente, era assim que eu queria que esse disco soasse. Como minha intenção era essa, o título me pareceu apropriado.” 

Ser ela mesma, no caso de Sheryl Crow, envolve olhar que ela tem para o mundo. Be Myself é um álbum cuja embalagem pode soar como seus primeiros trabalhos, mas a temática é contemporânea. A cultura do ódio, da falta de diálogo, entram nos versos da cantora, mesmo que as 11 canções do disco tenham sido criadas antes da eleição de Donald Trump. “Especialmente nos Estados Unidos, hoje, há muito acontecendo. O mundo assistiu às nossas eleições. E ninguém queria acreditar que aquilo poderia ser verdade. Jamais imaginaríamos que Donald Trump se tornaria presidente. É difícil não escrever sobre esse tipo de coisa.” 

“Basicamente”, ela continua, “Be Myself é um álbum no qual estou sentada, olhando ao redor, constantemente. Canto sobre as eleições, sobre as redes sociais se apropriando das nossas vidas. São tantas coisas para escrever que meu trabalho foi fácil.” 

Ao lado dela no processo de criar o novo disco estava Jeff Trott, com quem Sheryl trabalha desde o segundo álbum dela, que levava seu nome, de 1996. Também escalou Tchad Blake, responsável por mixar The Globe Sessions, o terceiro álbum da artista, de 1998, e com o qual levou dois gramofones do Grammy. Ela conta que soar como a década de 1990, a partir dessa união, foi inevitável. “A gente queria ter aquele espírito libertário e isso simplesmente aconteceu. Estava trabalhando com um antigo companheiro e fazemos música de um jeito muito nosso. Geralmente, fico na guitarra e ele na bateria e na programação. Acabamos soando dessa forma, invariavelmente.” 

Be Myself foi um álbum gravado de forma veloz, ela conta. “Estava cheia de ideias na cabeça”, diz. Em uma semana, foram 17 músicas criadas por Sheryl Crow e Jeff Trott. O ótimo Gary Clark Jr., da nova geração de blues rock, foi chamado para criar os solos da guitarra e dar um toque ácido ao pop açucarado tão inerente à obra dela – comum até mesmo nos momentos soturnos, como na versão de The First Cut Is the Deepest, originalmente de Cat Stevens.

Mãe de dois meninos, de 7 e 10 anos, Sheryl faz música no estúdio construído em casa, entre levar os garotos à escola e a hora do jantar. E está satisfeita com a rotina que tem. Suas canções, por sinal, apresentam a reflexão sobre a vida contemporânea. A história de amor que abre o álbum, Alone in the Dark, não chega ao fim por um coração partido e, sim, após o vazamento de um vídeo íntimo. 

Os celulares, em especial, são alvo da atenção da artista. Não só na faixa de abertura. Em Roller Skate, ela pede para o celular ser deixado de lado – a canção narra um abraço interrompido por uma mensagem de texto. “Eu de fato tenho um problema com os celulares”, admite a cantora, rindo. “Eu mal olho para ele. Não quero pensar que, no futuro, vou me arrepender de não ter visto meus filhos crescerem por ter ficado no celular.” Sheryl Crow, afinal, quer viver o que está diante dela – sem querer fingir o que não é. “Essas são as coisas que realmente significam algo para mim”, ela diz. “E é isso que importa.” 

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