Sexo e crítica social no som que vem de Pernambuco

Nada de antena no mangue. Da mesma forma que se destaca entre os novos nomes do movimento Mangue de Pernambuco, a banda Matalanamão, que lança seu primeiro CD agora em Setembro pelo selo Candeeiro Records, faz um som simples e direto, sem as usuais batucadas, colagens e referências pop que marcam a música de seus conterrâneos. Fazem parte do movimento mais pelas idéias, pela crítica social (outra das características peculiares do Mangue beat) do que pelo som. Nesse aspecto, o Matala, como são conhecidos pelo público pernambucano, está mais para Raimundos do que para Nação Zumbi. O destaque do trabalho deste quarteto de Alto José do Pinho, periferia de Recife, é aliar ao som vibrante letras de cunho sexista e político. Formada há sete anos pelo vocalista Adilson Ronrrona, o Matalanamão sempre foi diferente. Em meio às vielas do Alto Zé, marcadas pela pobreza dos barracos e casebres e pelo som de protesto de bandas como Faces do Subúrbio e Devotos do Ódio, a banda de Adílson nasceu para gozar toda essa miséria. "A gente queria fazer brincadeira. Brincar com o sexual e falar sério do social, mas sem pegar pesado", conta Jaiminho, baixista do conjunto. Por esses motivos, no início foram tachados de brega roll (música brega com rock and roll). Com o tempo, passaram a preferir o rótulo pornô punk. O álbum de estréia será produzido por Pupilo, da Nação Zumbi, e contará com 14 faixas. Nele, algumas pérolas como Mim Dai, que ultrapassa o conceito de mais-valia de Marx e termina com a morte do patrão que explora seu empregado e as sexuais Priminha, Priquita (palavrão nordestino que designa vagina) e Os peitinhos, uma citação do clássico filme adolescente Porky?s. Mas toda essa máscara cômica esconde uma banda irônica e antenada com a realidade social do Brasil. "Aqui no subúrbio vemos como a sexualidade ainda é um tabú. Sempre ficamos sabendo de crianças que engravidaram, de colegas que pegaram Aids. Queremos mostrar que usar camisinha é uma medida necessária e que essa não liberdade sexual é também uma forma de exclusão", diz Jaiminho. Além de Adilson Ronrrona e Jaiminho, o Matala é formado por Ailton Peste na bateria e Felipe, nas guitarras. Depois de Chico ? O fato de a banda não se valer de elementos percussivos já foi motivo para inúmeros episódios engraçados. "Chegamos em Fortaleza para tocar e quando os caras viram a gente descendo do carro, apenas em quatro, vieram perguntar: Cadê os tambores de vocês?", conta Jaiminho. Contudo, o baixista faz questão de deixar claro: "Nos orgulhamos de fazer parte do movimento Mangue, só não somos Mangue", e completa: "Tocar ficou mais fácil para todo mundo depois que o Chico Science apareceu". Bastante conhecida nas capitais nordestinas por seus shows eletrizantes, a banda pretende fazer o primeiro giro pelo Sul em breve. "Estamos só esperando o disco sair". Nos espetáculos, Ronrrona costuma se apresentar com diferentes fantasias: russo, guerrilheiro e cangaceiro, entre outras. Dinâmico como o som da banda, nada o impede de dançar, cantar e se atirar na na platéia. Segundo Jaiminho, a temática sexual das letras costuma atrair muitas mulheres às apresentações: "Elas ficam na beira do palco, ralam coxa com os rapazes, se esfregam no palco". Antes de terminhar, ele pede para dar um aviso: "Quem escutar a gente em disco vai gostar, mas tem que ir ao show para saber direito com que é".

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