Sex Pistols ao vivo em dois CD inéditos

O popular apresentador britânico Bill Grundy começou seu programa apresentando uma banda nova. Ao fundo, os integrantes começaram a fazer uma série de provocações. "Ele parece o meu avô", fala alguém da banda. O apresentador começa a ficar irritado. "Você quer falar alguma coisa, ainda temos cinco segundos no ar", diz Grundy. "Quero, seu bastardo. Vai se f...", responde o desbocado integrante.No dia seguinte, a banda apareceu nas manchetes de todos os jornais londrinos. O ano era 1976, uma data que a música pop nunca esqueceu. Era o início de um furacão chamado Sex Pistols, um dos grupos mais importantes da história do rock.Depois de 25 anos, o verdadeiro punk está de volta às lojas. Em uma iniciativa da gravadora ST2, o Sex Pistols e seu filho mais famoso, o baixista junkie Sid Vicious, aparecem em dois álbuns gravados ao vivo, trazendo a revoltada atitude e toda a fúria dos três acordes.O primeiro álbum, The 76 Club (R$ 45, em média), é duplo e traz a banda em sua melhor forma. O primeiro CD contém na íntegra uma apresentação da banda no interior da Inglaterra. O som foi mantido o mais fiel possível ao da gravação original, com algumas falhas e eventuais ruídos de microfonias, para transmitir toda a energia da apresentação.Já o segundo CD não traz nenhuma música, mas é uma delícia. O disco bônus, feito exclusivamente para a edição brasileira, tem 21 trechos de entrevistas concedidas ao longo da carreira dos Pistols. Estão lá a primeira dada à TV, em que os integrantes zombam do apresentador Bill Grundy, spots de rádio, e o comunicado sobre a morte do baixista Sid Vicious.Uma entrevista que impressiona é a de Vicious poucos dias antes de ser achado morto, depois de ter tido uma overdose de heroína. Na gravação, a voz de Vicious está distante, quase como um morto-vivo. Outro registro interessante é uma conversa de Ronald Biggs (lendário assaltante inglês que se refugiou no Brasil) com dois integrantes dos Pistols, no Rio de Janeiro. Sinatra punk - O segundo álbum do pacote é Better To Provoke a Reaction Than to React a Provocation (R$ 25, em média), um disco ao vivo de Sid Vicious em 78 na cidade de Nova York, pouco depois do fim do Sex Pistols.Vicious é uma das figuras mais lendárias do rock. Suas histórias são quase tão famosas quanto sua música. No show, o baixista é acompanhado por Johnny Thunders (do New York City Dolls) e por outras figuras importantes do punk. Mas como ninguém registrou, não se sabe ao certo quais as pessoas tocaram com Vicious na apresentação.Mesmo com o som pior, esse álbum é tão interessante e ainda mais raro do que o disco ao vivo do Sex Pistols. Algumas músicas são repetidas, pois era comum na época a banda fazer duas entradas por noite, uma às 24h, outra às 2h. O repertório escolhido é sensacional, revisitando a obra de diversos ícones, desde The Monkees (Steppin? Stone) até Frank Sinatra (My Way), passando pelo rock-n?-roll de Eddie Cochran e revendo o Sex Pistols. Tudo rápido, direto e muito divertido. Deus salve a rainha - O Sex Pistols não inventou o punk, mas, com certeza, foi o responsável pela popularidade do gênero no mundo todo. Para isso, não precisou de mais de dois anos de estrada, algumas aparições recheadas de palavrões na tevê e apenas um disco lançado. Um disco curtinho, com menos de 40 minutos, mas que abalou a Inglaterra. Letras irreverentes, que não poupavam nem a rainha, palavras de ordem em tom escatológico contra as desigualdades sociais do Reino e respostas à altura (não muito polidas, diga-se de passagem) aos políticos corruptos e suas falsas promessas. O ensadecido vocalista Johnny Rotten, mais Steve Jones (guitarra), Glen Matlock (baixo, depois substituído por Sid Vicious) e Paul Cook (bateria) inscreveram seus nomes na música pop como totens do punk, do "contra tudo e contra todos". Poucos acordes, visual chocante, lemas revolucionários. Eram os primórdios do punk, que se abrigava sob o guarda-chuva marqueteiro do esperto empresário inglês Malcolm McLaren. Muitos dizem que o Sex Pistols não passa de um grupo fabricado por McLaren. Segundo a versão do empresário, depois de uma temporada americana nos 70, ele entrou em contato com artistas incomuns como New York Dolls, Ramones, Patti Smith, Richard Hell e Television, e daí resolveu transportar aquele estilo para a cena londrina. Foi quando começou a empresariar os Pistols. Se a história é verdadeira, não se sabe. Mas essa é apenas mais uma lenda que se formou ao redor do nome Sex Pistols com o passar do tempo. Outra lenda diz que a música nunca mais foi a mesma depois da banda inglesa. Na verdade, dessa ninguém duvida.

Agencia Estado,

23 de outubro de 2001 | 11h52

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