Seu Jorge: agradável de ouvir, irritante ao prestar atenção

No momento em que seu dueto com Ana Carolina na fraca versão da cantora para The Blower?s Daughter, de Damien Rice, é nauseantemente onipresente nas rádios, Seu Jorge tem lançado no Brasil um álbum inteiro de suas próprias versões para músicas de David Bowie: The Life Aquatic Studio Sessions Featuring Seu Jorge (Universal). É um disco curioso: agradável de se ouvir e, por vezes, irritante de se prestar atenção.Seis das 13 versões foram incluídas na trilha sonora do quase homônimo filme de 2004, dirigido por Wes Anderson e estrelado por Bill Murray, como o oceanógrafo Steve Zissou. Nele, Seu Jorge também atuava como ator, no papel do marinheiro Pelé dos Santos. Nas músicas do CD, o brasileiro interpreta clássicos como Ziggy Stardust, Life on Mars? e Changes em português. De quebra, a 14ª faixa do álbum é uma canção original sua, a divertida Team Zissou, que, apesar do título, também é cantada em português.Versões noutras línguas constituem grandes desafios. Não é raro que o resultado seja sofrível, como, por exemplo, em muitas das letras em inglês para Tom & Vinicius. Afinal, é difícil manter a musicalidade e, ao mesmo tempo, o sentido. Seu Jorge fez a opção preferencial pela sonoridade, criando versos que nada têm a ver com os de Bowie. A única versão cujo significado da letra tem algo a ver com o da escrita pelo inglês, Starman, aliás, nem é de Seu Jorge: é a conhecida O Astronauta de Mármore, feita por Thedy Correa, Sady Homrich e Carlos Stein, do grupo gaúcho Nenhum de Nós, em 1989. As notas do CD não dizem isso claramente: há apenas um ?Seu Jorge thanks: Nenhum de Nós?.Consta do encarte, também, uma declaração de Bowie: ?Se Seu Jorge não tivesse gravado acusticamente minhas músicas em português eu nunca teria escutado este novo nível de beleza com o qual ele as imbuiu.? Suponho que Bowie não entenda português ou tenha tido acesso a traduções para o inglês das letras em português. Porque as versões ficaram bonitas desde que não se preste atenção às letras e/ou se desconsidere que aquelas mesmas melodias foram um dia casadas com letras bem distintas (e superiores) em inglês. Se uma destas condições for preenchida, aí, sim, claro, Seu Jorge as interpreta e toca bem ao violão.Suas versões, porém, banalizam quase todas as letras em histórias de amor, nas quais, escancarada ou oculta, a primeira pessoa do singular tem presença fortíssima. Dói ouvir, em Ziggy Stardust, versos como ?Não vou misturar/ Cachaça e café/ Só pra te agradar/ Assim me sinto bem/ Não devo a ninguém.? Como? Um extraterrestre que se torna astro de rock cinco anos antes do fim do mundo? Quem?! Não, Seu Jorge não o conhece.Ele parece estar sempre nos lugares certosIsso não impede que, justamente na faixa Five Years, ele tenha se saído melhor na tradução livre. Não por ter sido fiel a Bowie, mas por ter sido, ao menos, fiel ao filme A Vida Aquática de Steve Zissou. A nova letra diz: ?Muito tempo eu fico/ A viver pelos mares/ Mergulhando pro fundo/ Em recifes e corais/ Minha missão nesse mundo/ É pesquisar animais/ Mergulhando no escuro/ Com perigos reais.?Contudo, em quase todas as versões há apenas a substituição das palavras de Bowie por alguma coisa que soa parecido em português. ?Rebel rebel?, por exemplo, virou ?zero a zero?. É tanto mais curioso que Seu Jorge tenha mexido assim nas letras porque ele foi extremamente respeitoso com as músicas. Seus arranjos voz e violão conservam as linhas mestras dos originais. Nada têm de inusitados.Na minha opinião, a melhor das faixas a desconectar-se da letra original é Changes. Em Bowie, escutava-se: ?Ch-ch-cha-cha-changes/ Ch-ch-changes/ Don?t have to be a richer man/ Ch-ch-cha-cha-changes/ Ch-ch-changes/ Don?t want to be a better man/ Time may change me/ But I can?t trace time.? Em Seu Jorge, escuta-se: ?Ch-ch-cha-cha-changes/ Lá vem meu trem, vem meu trem/ Tou saindo fora porque vou me dar bem/ Ch-ch-cha-cha-changes/ Lá vem meu trem, vem meu trem/ Sei que tá na hora e eu vou me dar bem/ Sempre em frente/ Nunca para trás.? Funciona. E a interpretação é pungente, cativante.Se é fácil, pelo conhecimento prévio das melodias e pela singeleza das novas letras, ficar cantarolando as faixas de The Life Aquatic Sessions Featuring Seu Jorge, o mesmo não se pode dizer dos outros discos do cantor. Cantarole uma composição de Seu Jorge aí, vai...E olhe que ele parece estar sempre nos lugares certos: ex-membro do cultuado Farofa Carioca, ator em Cidade de Deus, membro da ainda mais cultuada Orquestra Imperial, ator de A Vida Aquática de Steve Zissou, chapa de Bill Murray, tema de documentário da BBC, em luta incansável contra o racismo e o preconceito social. Seu Jorge tem ampla visibilidade, aqui e no exterior. Há quem diga ser ele ?o verdadeiro Rodrigo Santoro?, isto é, ser ele o ator brasileiro de fato importante lá fora. Sua música, entretanto, é curiosamente invisível, como se ele fosse mais personagem do que criador.

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