Tiago Mazza/Futura Press
Tiago Mazza/Futura Press

Sete cantores demitidos do Coral Paulistano serão recontratados

Músicos que saíram após audições em 2011 voltam ao Coral Paulistano; pedido foi feito pela Câmara Municipal

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

20 de outubro de 2013 | 22h54

Atualizado às 13h

A Secretaria Municipal de Cultura decidiu recontratar os sete cantores demitidos do Coral Paulistano após audições realizadas no final de 2010 e início de 2011. A recomendação de anulação das audições e de recondução dos artistas afastados foi feita pelo presidente da Câmara dos Vereadores, José Américo, em ofício enviado no dia 18 de setembro à secretaria.

Em nota oficial enviada ao Estado, a secretaria confirma que “a solicitação inicial partiu do vereador José Américo, presidente da Câmara Municipal de São Paulo, que recebeu denúncias de irregularidades nas audições citadas e, ainda em 2012, cobrou esclarecimentos ao Theatro Municipal sobre as audições”. “Em fevereiro de 2013, houve nova denúncia protocolada por cantores desligados e, no último dia 18 de setembro, o mesmo vereador solicitou formalmente a ‘recondução dos cantores arbitrariamente afastados do quadro artístico do referido coral’, o que foi acatado pela Secretaria Municipal de Cultura e pela Fundação Theatro Municipal de São Paulo”, completa o texto da nota.

Um ofício anterior já havia sido enviado em 30 de julho pelo vereador, que voltou a escrever à secretaria em 18 de setembro. “Aproveitamos a oportunidade para ratificar nosso pedido de anulação das audições e recondução dos cantores arbitrariamente afastados do quadro artístico do referido coral. Acreditamos que o momento seja o mais propício para tais providências, uma vez que, com a contratação da Organização Social que vai trabalhar na Fundação do Teatro Municipal de São Paulo, a forma de contratação dos artistas será alterada, o que permitirá a recondução dos cantores ao trabalho”, diz o ofício.

As audições para o Coral Paulistano foram marcadas no segundo semestre de 2010. Foram realizadas duas provas. A primeira, em novembro, teria caráter apenas informativo – e dos 42 cantores do Coral Paulistano, apenas 11 foram aprovados. Os demais cantores voltaram a ser avaliados em fevereiro de 2011 em uma segunda audição, esta de caráter eliminatório. E, dos 31 cantores, sete foram reprovados e demitidos: Dênia Campos, Jan Szot, Kátia Rocha, Sira Milani, Márcia Degani, Nelson Campacci e Vera Platt.

Os primeiros questionamentos a respeito das audições no Coral Paulistano datam já de abril de 2011, quando o deputado estadual Carlo Gianazzi pediu, em ofício enviado ao Teatro Municipal, esclarecimentos a respeito do processo de seleção.

A medida foi resposta a denúncias de que as provas não haviam seguido os critérios propostos e teriam servido para retirar do grupo cantores que se opunham ao novo maestro titular, Tiago Pinheiro, e sua assistente, Deborah Rossi. Também em abril, a Comus, comissão de músicos do teatro, enviou carta à direção do Municipal na qual afirma o “repúdio” da Orquestra Sinfônica Municipal às avaliações de desempenho. “Essas audições, da forma como foram feitas e com os critérios de pontuação adotados, vêm justamente aumentar o clima de insegurança e colocar em risco o vínculo de confiança tão necessário entre a administração e os corpos artísticos”.

Uma petição pública foi criada na época pedindo a recontratação dos músicos e a abertura das notas da banca examinadora e dos vídeos das audições, afirmando que revelariam discrepâncias que seriam suficientes para provar perseguição. A acusação também faz parte de documento entregue em fevereiro deste ano pelos demitidos, que se dizem perseguidos por ter revelado e denunciado irregularidades na condução na Associação Mário de Andrade, da qual fazem parte artistas do Paulistano – cinco dos sete demitidos deixaram a Amandra em protesto.

Em dezembro de 2012, o procurador do Município Maurício Morais Tonin pediu esclarecimentos ao Municipal, diante da “solicitação de informações enviada pelo sr. Vereador José Américo acerca do processo de audições para a reavaliação técnico-musical dos integrantes do Coral Paulistano”.

Em resposta enviada a Tonin, a diretora do Municipal na época, Beatriz Franco do Amaral, afirmou que as audições tinham como objetivo “elevar a qualidade artística”, o que seria “corriqueiro em qualquer conjunto vocal ou sinfônico, sobretudo quando os artistas são contratados com dinheiro público”. O texto diz ainda que a direção “desconhece se houve gravação de audições e os motivos de sua existência ou não, uma vez que audições são resolvidas dentro do âmbito artístico e não caberia à administração opinar”. “As notas de todos os candidatos e o julgamento de todos os membros da Banca foram entregues selados a esta diretoria. (...) A fim de preservar os direitos individuais de candidatos que não queriam que suas avaliações fossem expostas aos demais e que solicitaram que as notas jamais se tornassem públicas, após o período de dois anos esta diretoria destruiu todos os envelopes de todas as avaliações referentes à segunda audição.”

Nas últimas semanas, o Coral Paulistano tem sido pivô de polêmicas envolvendo o Teatro Municipal. Em setembro, os músicos foram comunicados de que estudos estão sendo feitos sobre o futuro do grupo, que poderia se juntar ao Coral Lírico Municipal; passar para o Centro Cultural São Paulo; ou ser o eixo em torno do qual vai surgir um novo projeto educacional da prefeitura.

Procurada pelo Estado, Deborah Rossi, regente-assistente do Coral Paulistano na época das audições, e líder informal de um movimento contrário à fusão dos coros, disse que a recontratação se dá em um momento “curioso”. “Se o pedido foi enviado no dia 18 de setembro, por que só estamos sabendo dele agora? Quanto às audições, acredito que faça parte do jogo. Não há nada pessoal contra esses sete músicos e, se houve essa decisão, tudo bem. Mas há uma questão mais grave, que é o futuro do Coral Paulistano. E isso não muda com a recontratação ou não dos cantores. O que me parece é que existe uma tentativa de me desacreditar e, assim, ao movimento que acabou se formando”, disse. O Estado procurou o maestro Thiago Pinheiro, ex-diretor do coral, mas ele não atendeu às ligações feitas pela reportagem.

PARA LEMBRAR

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Em setembro, o Municipal comunica aos membros do Coral Paulistano que prepara estudo sobre o futuro do grupo e que uma das possibilidades seria a sua fusão com o Coral Lírico Municipal

Reação

Ex-integrantes do grupo e personalidades do meio musical se colocam contra ‘a extinção de um patrimônio musical brasileiro’ criado por Mário de Andrade. Um abaixo assinado é criado na internet e recebe 7 mil assinaturas

Opções

Além da fusão, são estudadas duas opções: o coral passaria a integrar o Centro Cultural São Paulo ou seria o ponto de partida de um novo projeto educacional da prefeitura. A direção do Municipal afirma que não haverá demissões e que as propostas serão colocadas em novembro ao Conselho Deliberativo da Fundação, a quem caberá a decisão final

Protestos

Cinquenta cantores de outros corais da cidade se reúnem na Avenida Paulista no dia 13 para ato em defesa do Paulistano; outra manifestação foi realizada na tarde de domingo, em frente ao Municipal. Em nota, a Secretaria Nacional de Cultura do Partido dos Trabalhadores pede diálogo e se coloca contra a extinção do Coral Paulistano

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