Sertão nordestino tem mostra de música clássica

Mostra de Brasileira de Música Antiga contou com a presença de grandes nomes do gênero

O Estado de S. Paulo

21 de abril de 2008 | 17h12

Fabrício Rodrigues Alencar, de 11 anos, nunca viu o mar e não tem lá muita vontade de conhecê-lo. Mora em Araripe, cidade de 21 mil habitantes, incrustada no verde Sertão do Cariri, no Ceará. Há um ano entusiasmou-se com a idéia de aprender a tocar violino e, diariamente, estuda o instrumento que o encantou pelo tipo de som que produz. Por sua insistência, fez toda a sua família deixar um pouco de lado o forró e as baladas românticas de Zezé de Camargo e Luciano, Leonardo e Roberto Carlos, para juntos ouvirem música clássica. O menino não imaginava que tão cedo iria fazer parte de uma orquestra - a Filarmônica Chapada do Araripe - tão pouco que fosse descobrir o que é uma viola da gamba, um alaúde, uma viela de roda, uma teorba. E por causa da teimosia de um conterrâneo seu, que sempre sonhou transformar aquela região por meio da música, Fabrício pode ser obrigado a beirar ou até mesmo cruzar o mar, muitas e muitas vezes. Veja também: Viela de roda: instrumento húngaro, sonoridade brasileira Ouça a viola da gamba  Encerrou-se domingo, 20, a 2ª edição de uma belíssima Mostra de Brasileira de Música Antiga, idealizada por Elisandro Carvalho, de apenas 30 anos, nascido e criado na cidade que faz fronteira com Exu, em Pernambuco. Músicos e cantores líricos do mais alto escalão, que têm como fonte de trabalho o período renascentista e barroco, essencialmente, foram selecionados após várias pesquisas, com muito critério e competência, pelo próprio organizador do evento. "Adoraria ter uma equipe de curadoria, mas infelizmente ainda não podemos pagar por isso", diz. Dos 15 aos 17 anos, Elisandro foi seminarista e foi nesta época que descobriu a existência de uma outra música, diferente de tudo aquilo que ele e todo povo daquela região ouviam. Há quase quatro anos, o rapaz conseguiu finalmente fundar a ONG Instituto Atos, célula inicial de todo esse trabalho. Nela, Elisandro coordena uma série de projetos, como a Orquestra Filarmônica Chapada do Araripe e a ação Cabaças e Cordas, que atende cerca de 45 crianças submetidas ao trabalho de quebra manual de pedra para fabricação de brita. Conta com o apoio de algumas instituições para manter esses projetos numa região naturalmente já marginalizada. Professores de música de Crato e Juazeiro do Norte acompanham Elisandro nessa ousadia desde o primeiro dia de trabalho, ainda que só fossem conseguir receber seus salários três meses depois. "E eles jamais faltaram às aulas", conta. O Instituto Atos atende hoje 150 pessoas, entre jovens e adultos que estejam realmente interessados em se dedicar com afinco à música. "Todos os cursos são gratuitos e abertos, basta ter realmente interesse." O recurso para a compra dos 45 instrumentos musicais (20 violinos, 10 violoncelos,10 violas, 4 contrabaixos e 1 fagote) veio do Fundo Estadual de Combate à Pobreza (Fecop) que, nas palavras de Elisandro, "viu nesse projeto uma possibilidade de melhorar a qualidade de vida das crianças dessa região e capacitá-las para futuramente exercer uma profissão na área." Toda essa batalha que Elisandro decidiu enfrentar há relativamente muito pouco tempo, só poderia culminar numa mostra que promovesse o intercâmbio dos artistas regionais com outros eruditos. "Tenho um temor da morte muito grande e, por isso, sou muito intenso em tudo o que eu faço", responde Elisandro para justificar de onde tira tanta energia para a realização de todos esses projetos. "Se conseguirmos fazer com que o destino de, pelo menos, uma criança se transforme para o bem, eu me sentirei plenamente realizado." E haja insistência e vontade de transformação: na primeira edição da mostra, ocorrida em 2006, Elisandro tomou um prejuízo de R$ 25 mil. "O projeto enfrentou uma resistência gigantesca. Todos me perguntavam: por que música antiga e por que no Araripe? Achavam que música antiga era Nelson Gonçalvez, Waldick Soriano. Tamanha sofisticação musical no interior do Ceará, reunindo grupos brasileiros de altíssima qualidade, era coisa difícil de se aceitar." Para aquela primeira edição, o Instituto Atos contou com uma verba no valor de R$ 100 mil da Secretaria do Estado, cujo repasse foi lento e acabou adiando a realização de uma segunda mostra. "Passamos os últimos dois anos pagando contas", diz Elisandro. "E cá estamos nós hoje, na Igreja Matriz de Santo Antônio, bem no centrinho de Araripe, ao lado da Prefeitura, tendo a chance de apreciar emocionantes concertos acústicos (que ainda brigam com o aparentemente infalível forró eletrônico do lado de fora, na praça)." Famílias inteiras lotaram o templo do Padre Raimundo, que apresentou de quarta a domingo, artistas do calibre e da extrema sensibilidade de Hermeto Pascoal (ovacionado por uma igreja cheia) e Sebastião Tapajós, a musicistas ainda um tanto desconhecidos, mas igualmente talentosos como Mário Orlando e Kristina Augustin (violas da gamba), Marília Vargas (soprano) e Silvana Scarinci (teorba), o argentino de nascimento e brasileiro de coração Pablo Lerner (viela de roda), o Trio Sonare de Música Antiga, composto por Iara Ungarelli (viola da gamba), Felipe Maravalhas (guitarra teorbada) e Zoltan Paulinyi (violino), o grupo vocal Cantus Firmus e os musicais Duo Spes, Zabaione Musicale, Saga Barroca e a Orquestra de Rabecas Cego Oliveira, de Juazeiro, além da Filarmônica Chapada do Araripe, que emocionou com suas crianças ao dedilharem Luar do Sertão e Asa Branca. "É bonito demais, né? E diferente... Estou gostando muito", diz a aposentada Maria Helena Rodrigues, de 62 anos, que foi levada pelas filhas Maria Heloísa e Maria Eliana e pela neta Kirstyellen, de 3 anos, para o segundo dia da mostra. Elas observavam, muito atentas, cada nota tirada das violas de Mário e Kristina, que intercalavam entre composições de Diego Ortis, Matthew Locke e John Hingeston, explicações sobre o instrumento que tocam e a contextualização das peças apresentadas naquela período. A soprano Marília Vargas, que se divide entre a Suíça e o Brasil, não só promoveu um tocante concerto lírico ao lado da teorba de Silvana Scarinci, como ofereceu oficinas para os jovens coralistas araripenses. Foram necessárias apenas duas horas de exercícios de respiração, postura e aquecimento de voz, para eles entoarem dois cânones ao final, com primazia. O resultado surpreendeu tanto, que Elisandro os convidou a se apresentar no último dia da mostra. A jovem cantora lírica Elvira Gonçalves veio de Maceió para tomar mais algumas aulas com Marília, que conheceu em São Paulo há alguns meses. "Onde ela estiver, eu vou atrás", afirma. A disposição dos músicos participantes da mostra caminha lado a lado com a do idealizador do festival. O violinista Zoltan Paulinyi, de Brasília, que integra o Trio Sonare e o Duo Spes, transformou um bate-papo informal com as crianças da Filarmônica da Chapada do Araripe em uma oficina livre e cheia de conteúdo, por livre e espontânea vontade. Com uma atenção toda especial e muita delicadeza, pontuou erros e sublinhou acertos. Sugeriu duos de viola com violino, a diferenciação no uso do arco e do meio arco e a preferência em ouvir o que se está tocando a prestar atenção nas marcas no braço do instrumento. Já o argentino Pablo Lerner, que tem a certeza de ter nascido no país errado pelo tanto que ama o Brasil, veio direto de Budapeste, Hungria, onde vive há cinco anos para a mostra - e quer ficar. Encantou-se tanto com o lugar, com as pessoas e com a musicalidade presente na região, que sugeriu um intercâmbio: Pablo se oferece em dar aulas de espanhol em troca de aprender mais sobre a música brasileira que tem uma de suas nascentes ali, no Sertão do Cariri. "Eu tenho muito mais a aprender com eles, do que eles comigo. Os músicos daqui são intelectuais no sentido literal da palavra: eles tocam por instinto e refletem sobre o som que acabaram de tirar, sem o auxílio de partituras." Pablo também está totalmente disposto em ensinar o instrumento que levou para Araripe, de pouquíssima difusão no Brasil, a viela de roda (tekerölant, em húngaro). Ainda mais porque se utiliza dele para tirar a sonoridade que brota em cada viela nordestina: o baião, o xote, o forró nascido no pé de cada chapada. "Eu amo a música brasileira. Na viela de roda não toco outro estilo senão a música brasileira", derrete-se. Descobriu o instrumento há pouco mais de cinco anos, num dia triste. Pela televisão conheceu a viela de roda que o hipnotizou instantaneamente - e decidiu partir para a Hungria para estudá-la. "Me encantei pelo som, pelo gesto, pela roda da vida." Após as três apresentações de música antiga marcadas para cada noite, grupos locais de forró e música genuinamente brasileira, como Zabumbeiros Cariris e Geraldo Junior, também tiveram a oportunidade de mostrar clássicas de Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos e Jackson do Pandeiro, que botaram todo mundo pra dançar e cantar em coro, ao ar livre.  D. Anália, dona do restaurante caseiro delicioso do lado da Igreja Matriz, conta que morou quase 20 anos em São Paulo. E voltou. Porque tinha saudades. D. Maria Helena Rodrigues também veio tentar a vida na capital paulista, e voltou. Porque sentiu muitas saudades. O refrão de Venâncio, Corumba e José Guimarães, imortalizado por Luiz Gonzaga, definitivamente, resume a magia que tem aquela terra e que só quem nasce nela pode explicar: "Só deixo o meu Cariri no último pau-de-arara..." Repórter e fotógrafa viajaram a convite da organização da mostra

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