Sertão é tema recorrente para Elomar

Se um apartamento na Paulicéia épor si só um espaço claustrofóbico demais para Elomar, de 65anos, sua presença torna ainda menor a moradia de seu filho,onde o compositor dá entrevista à Agência Estado, às vésperas desua apresentação no Sesc Pompéia, em São Paulo. Músicos, professoresestudantes - uma garotada enche a sala em busca de um dedo deprosa. E conversar com o músico é, sem dúvida, uma aventurainesquecível. Elomar viaja no tempo e nas culturas. Homem quevasculhou o sertão, passando pelo Piauí, Maranhão, Paraíba,Pernambuco e, sobretudo, o sudoeste da Bahia, sua prosa salta dopolígono da seca para a Roma dos Césares, de Ortega y Gassetpara Jung, das reservas de nióbio (metal nobre) na Amazonas paraas teorias da física quântica. Sem o menor traço de esnobismo.Com a naturalidade de quem mergulhou no Sertão, mas nãonecessariamente se desligou do pensamento que corre pelo mundo. Entre os jovens acomodados na sala está o cineastaManitou Felipe, cujo fascínio pela obra do músico ainda poderender bons frutos. Entre outras coisas, Manitou planejarealizar um longo e profundo registro do modus vivendi e da obrade Elomar, uma espécie de resgate e preservação do artista que,por sua vez, se dedica justamente a resgatar uma musicalidadetão rica quanto desvalorizada no Brasil, nascida da cultura´sertânica´ como ele prefere chamar a resultante da apropriaçãobrasileira da cultura ibérica. Mas Manitou certamente enfrentará dificuldades. Na noitede quinta-feira, Elomar não permite a filmagem da entrevista,obrigando Manitou a guardar a câmera. "Uma das babaquices dostempos modernos é o excesso de imagens. Os olhos, no meio dourbano, não têm descanso. Em todo lugar tem um som ou uma imagemperturbando. Eu, como vivo num espaço privilegiado, tenho cadavez mais a certeza de que saltei na estação errada. Era para euter nascido em outra época." Não há dúvida de que parte dosertão ainda vivencia o ´tempo´ como no período medievo. E sóassim, livre das solicitações da urbe, é mesmo possívelconstruir uma obra nas dimensões da que vem construindo Elomar -dezenas de óperas; concertos para orquestra e violino; antífonase autos, grande parte já devidamente posta em partituras. Criar, no caso de Elomar, é a melhor parte. Difícil,para alguém com seu temperamento, é lutar pela execução epreservação da obra - sejam sinfonias, peças teatrais ou atéroteiros e cinema, áreas pelas quais também vem transitando."Quando recebi o convite para esse recital, comecei pelautopia. Imaginei trazer cantores líricos, trabalhar com umaorquestra. Mas a realidade foi aparecendo no horizonte e eumesmo terei de cantar 10 ou 12 árias com alguns músicos." Evidentemente não é a mesma coisa. Afinal, o compositorque cria uma ópera, ou um concerto para barítono e orquestra,como fez Elomar, quer ver sua obra executada sem adaptações´vocais´ e reduções musicais. Mas para isso seriam precisosmeses de ensaio, conhecimento da partitura, acertos. Talvez issoseja possível se uma das maiores utopias de Elomar vier a setornar realidade. Ele planeja criar uma escola de música naChapada Diamantina. A sede já existe, um Centro de Treinamentode Professores. "Serei o reitor dessa Universidade Leiga doSertão." A idéia é contratar professores de todo o Brasil,ensinar canto lírico, composição, execução, técnica vocal. "Edepois viajar com coral e orquestra para as cidades do sertão,despertando nas pessoas o interesse pela música." Pela boamúsica, claro.

Agencia Estado,

17 de janeiro de 2003 | 16h44

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