Serguêi Leiferkus faz intensa leitura de Shostakóvitch

À coragem do poeta, em abordar um tema que as autoridades varriam para debaixo do tapete - o massacre de judeus, na ravina ucraniana de Babi Iar, durante a 2.ª Guerra - uniu-se a coragem do compositor, que usou-o como o movimento inicial de sua "Sinfonia nº 13 em Si Menor Op. 113". Serguêi Leiferkus, um dos mais respeitados intérpretes desta obra da maturidade de Shostakóvitch, fez dela uma leitura de grande intensidade, quinta-feira, na Sala São Paulo. E, desta quinta-feira à sabado, ao lado da soprano Tatiana Pavlovskaya e do maestro Yoram David, ele volta ao mesmo palco para apresentações da "Sinfonia nº 14" do mesmo autor.É admirável o controle que Leiferkus tem das palavras, ora trágicas ora muito satíricas, de Ievguêni Ievtushênko, e de uma música sombria, sem concessões, em que já está presente a qualidade austera de linha melódica, harmonia, ritmo e colorido instrumental, que caracterizará as últimas obras de Shostakóvitch. Amparado pelo coro masculino e pela Osesp, Leiferkus recriou com exatidão o clima emocional divergente de cada um dos cinco poemas.À dramaticidade da evoção do massacre de Babi Iar, vibrante de indignada condenação do anti-semitismo que, na Rússia, sempre foi uma praga fundamente enraizada, opõe-se o habitual tom sardônico dos scherzos de Shostakóvitch. "O Humor" é descrito como uma arma que os tiranos nunca foram capazes de combater. E nesse ponto, John Neschling arrancou da orquestra um grande momento, no frenético intermezzo em tom de dança que está no centro desse movimento.O segundo movimento, "Na Loja", que fala das mulheres russas e seu sofrimento, é uma das páginas mais comoventes de toda a obra de Shostakóvitch. Entoando com grande emoção a melodia simples, flexível, com que o movimento se inicia, e depois é retomada pelo coro como um refrão, Leiferkus deu interpretação muito forte a esse poema, em que a questão feminina é projetada como a síntese da tragédia cotidiana de boa parte da população soviética, privada de qualquer perspectiva de futuro.Nunca, antes da relativa liberalização do período Khrushtchóv teria sido possível falar tão claramente do terror stalinista, da época em que "o medo se esgueirava por toda parte", em que todo mundo tinha medo "de que alguém nos delatasse... de falar com um estrangeiro... de falar até mesmo com nossa própria mulher". Da mesma forma, é mordente o tom da sátira em "Uma Carreira", a apologia dos que ousaram correr riscos em defesa de sua opinião e, ao mesmo tempo, a denúncia daqueles que fizeram carreira pondo-se a serviço dos interesses do poder.A "Sinfonia nº 13" é testemunho de um momento muito importante, em 1962, da histórias da URSS. Mas não perde a sua atualidade, na medida em que as chagas que expõe - o anti-semitismo, a exploração da mulher, a venalidade - existem até hoje. E o que é mais importante: os versos inflamados de Ievtushênko são vestidos com a música de Shostakóvitch, que vai buscar na tradição russa de Gógol e Mússorgski os elementos com que fertiliza uma linguagem áspera, sem falsa retórica, de enorme força de persuasão.Mas que a extrema importância da apresentação, em São Paulo, dessa página fundamental do repertório do século 20, que é a "Sinfonia nº 13" de Shostakóvitch, não nos deixe esquecer que o programa da quinta-feira se iniciou com a leitura límpida e elegante da Sinfonia nº 97 de Joseph Haydn. Ela serviu não só de luminoso contraponto à sua companheira de programa, como também de uma demonstração a mais do ecletismo da Osesp. Osesp. Sala São Paulo (1.501 lugares). Praça Júlio Prestes, s/nº, 3337-5414,metrô Luz. 5.ª e 6.ª, 21h; sáb., 16h30. R$ 25 a R$ 79

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