Sérgio Ricardo celebra 85 anos com show 'Cinema na Música' em SP

Sérgio Ricardo celebra 85 anos com show 'Cinema na Música' em SP

Compositor e cineasta, ele faz duas apresentações nesta quarta, 29, no Sesc 24 de Maio, trazendo no repertório canções que compôs para filmes dele e de outros cineastas, como Glauber Rocha

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2017 | 06h01

Aos 85 anos, Sérgio Ricardo é um homem movido pela criação artística. No apartamento onde mora no Rio, há quatro décadas, o cantor, compositor e cineasta nascido em Marília, interior de São Paulo, também se torna artista plástico, poeta, escritor. Mas o cinema e a música ainda são presenças fortes em sua trajetória. E, não raro, os dois se misturam dentro de sua obra. Canções que compôs para filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, são emblemáticas, assim como as que fez para os longas que ele próprio dirigiu, como A Noite do Espantalho e Esse Mundo é Meu. Agora, suas duas paixões, cinema e música, voltam a se reunir novamente não na telona, mas no show Cinema na Música, que Sérgio apresenta nesta quarta, 29, às 14h e, depois, às 21h, no Sesc 24 de Maio. 

É uma apresentação audiovisual, em que a projeção de cenas dos filmes acompanham suas respectivas trilhas executadas ao vivo por Sérgio e banda. A ideia do projeto partiu de sua filha, a cantora Marina Lutfi, que cuida da obra do pai. “O fato de ele ser cineasta e compositor é algo que a gente não vê muito por aí. Poucas pessoas sabem que ele é cineasta”, conta Marina. Será um show em família: Sérgio sobe ao palco com Marina e com o filho João Gurgel (voz e violão) – e sua outra filha, a jornalista Adriana Lutfi, fará participação especial também cantando. Eles estarão acompanhados de Lui Coimbra (violoncelo), Marcelo Caldi (piano e acordeon), Alexandre Caldi (sopros) e Carlos Cesar (percussão). 

A apresentação tem essa combinação de imagem e som, mas a música de Sérgio feita para o cinema também poderia ganhar vida própria, independente, longe das telas. “Tive a sorte de, por ser músico e cineasta, fazer música que pudesse ser cantada depois também. Tem música específica para filme que vem geralmente com orquestra, e as minhas intervenções musicais têm letras e elas requerem uma melodia suave”, observa Sérgio Ricardo, em entrevista por telefone, do Rio. 

O roteiro do show acompanha cronologicamente os trabalhos de Sérgio, até chegar a seu novo longa, Bandeira de Retalhos. E a maioria dos trechos de filmes projetados ao fundo leva a assinatura do irmão de Sérgio, o diretor de fotografia Dib Lutfi, criador da estética do Cinema Novo, que morreu no ano passado. “Não quero nem me lembrar”, fala Sérgio, sobre a perda do irmão. “Vivemos sempre próximos, ele era uma figura cativante.” 

O que fazia de Dib um gênio em seu ofício? “Ele tinha um preparo físico muito bom, conseguir carregar aquela câmera, era muito pesada na época, e ele saía fazendo. A câmera não tremia, porque ele tinha uns passos de bailarino, a coisa fluía de uma forma fantástica, tanto que os americanos não acreditavam, pensavam que era uma coisa inventada pelo brasileiro, uma máquina”, diverte-se Sérgio. E ele lembra das histórias do irmão. Conta que, quando garoto, Dib não queria saber de estudar e isso preocupava os pais. Irmão mais velho, Sérgio trabalhava à noite como pianista e, tentando ajudar, comprou para ele uma máquina fotográfica Rolleiflex. Dib descobriu, então, seu dom, seu rumo, sua paixão. “Tenho orgulho de ter tido essa ideia”, diz Sérgio. 

Em 2018, o show Cinema na Música segue na estrada e vai ser gravado em DVD, em parceria com o Canal Brasil. O registro será feito em estúdio, com participação de convidados. Ainda no ano que vem, Sérgio lança seu primeiro romance, Igarandé – A Aldeia de Dois Caminhos (Editora Multifoco), em que trata da memória coletiva que, de repente, desaparece. E deve chegar aos cinemas também seu novo longa, Bandeira de Retalhos, inspirado numa história real que ele próprio vivenciou quando morou no Morro do Vidigal – que ele vê pela janela do seu apartamento. Nos anos 1970, houve uma ameaça de remoção dos moradores da comunidade. Eles se uniram e resistiram. A ação foi suspensa. “Foi uma vitória fantástica do Vidigal”, diz Sérgio, que, incansável em seu fazer artístico, se dedica agora a uma série de poemas – e quer lançá-la em livro. 

CINEMA NA MÚSICA. Sesc 24 de Maio. Rua 24 de Maio, 109, República. Amanhã (29), em duas sessões: às 14h e às 21h. R$ 9/R$ 30.


E lá se vão 50 anos do Festival de 67 e do violão voador

A repórter lê para Sérgio Ricardo um trecho do livro Rita Lee: Uma Autobiografia, em que a cantora escreve sobre o histórico Festival de 67. “Um momento que eu achei muito roquenrou nesse festival de 1967 foi quando Sérgio Ricardo pirou, quebrou o violão e o atirou na plateia”, referindo-se à emblemática cena protagonizada por ele. Sérgio dá risada ao ouvir esse trecho. Deve estar cansado de falar sobre essa história há 50 anos. “Não tenho o menor arrependimento. Uma suspeita minha: a minha música fazia uma crítica aos exploradores do futebol, e como o dono da TV Record era um cartola maior de SP, tenho a impressão que passou ali uma coisa meio esquisita. Eu não ouvia meu acompanhamento, e botaram volume alto nos microfones da plateia. Então, a vaia ficou um negócio absurdo. Não tinha outra solução a não ser tomar uma atitude.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.